O pedaço do Sermão do Batista que a Liturgia pulou
Dom Cristiano Jakob Krapf
Antesde apresentar o João Batista pregando nas margens do rio Jordão umbatismo de conversão para o perdão dos pecados, o Evangelista Lucassitua sua pregação no contexto da história geral do Império Romano e daPalestina.
Depois, o Evangelho apresenta João como “aquele que grita no deserto: Preparai o caminho do Senhor … , citandoprofecia de Isaias que termina com a promessa que todas as pessoasverão a salvação de Deus. Agora, dois mil anos depois, ainda faltamuito para cumprir a última parte daquela profecia. Quatro bilhões depessoas que vivem no mundo de hoje ainda não conhecem Jesus e seusensinamentos.
Entreo texto de hoje e o texto do evangelho do segundo domingo do adventofalta um pedaço que ficou de fora na reforma litúrgica que reorganizouas leituras dominicais. Em vez de continuar o texto de hoje, oevangelho do domingo que vem começa com a pergunta das multidões: O que é que devemos fazer? Sem conhecer o começo do sermão ficamos sem entender a razão para tal pergunta. É uma pergunta que toda pregação devia suscitar nos ouvintes: O que é que devemos fazer?
Porque será que a liturgia renovada deixou de fora a primeira parte dosermão de João Batista? Será por causa do radicalismo de suasprovocações? Imaginem um pregador de hoje começando assim o seu sermão:
Raça de víboras! Não pensem que vão escapar do julgamento que vem! Produzi frutos que provem a vossa conversão! Nãopensem que basta dizer que são da Igreja. O machado já está posto àraiz das árvores. Toda árvore que não produzir frutos bons será cortadae jogada no fogo.
Imaginem um pregador a falar a políticos: Bandode corruptos. Não pensem que vão escapar da prestação de contas da suaadministração, neste mundo ou no outro. Deixem de servir-se do poderpara tirar vantagens. Passem a usar o poder para colocar-se a serviçodo povo!
Opregador sabe que nem todo político é corrupto. Sabe que deve apoiar ospolíticos honestos dedicados à sua missão importante. Não podendo tercerteza na distinção entre joio e trigo, o pregador só pode fazersermões genéricos. Se fizer acusações pessoais, corre o risco de serprocessado e cassado. Deve falar em termos gerais e deixar àsinceridade de cada um dos ouvintes a escolha do chapéu que lhe cabe.Para o julgamento terreno existe a justiça terrena que também deveráprestar contas de tudo que faz ou deixa de fazer.
Imaginem um pregador a dizer: Geraçãode adúlteros! Não pensem que poderão justificar seus pecados com amentalidade deste século que tem outros “valores” e se gaba das“conquistas” da libertação sexual.
Aopinião pública de hoje se acha livre de tabus, mandamentos eproibições. Despreza valores tradicionais como virgindade, castidade,fidelidade. Não vê a beleza de um namoro romântico de jovensque sabem esperar. O problema é saber como apresentar aos jovens dehoje um ideal de vida exigente. Não basta dizer: Não faça isso, não faça aquilo. Em vez de falar da feiúra do pecado que se apresenta atraente, melhor mostrar a beleza da virtude exigente.
Umprograma de televisão quer saber a opinião de representantes dediversas igrejas e religiões sobre sua posição em relação à vida sexualna teoria e na prática do mundo de hoje. Estranhei a falta de firmezados cristãos nas respostas. Parece que ninguém quer lembrar que o sextomandamento continua valendo.
Imaginemum pregador a criticar pessoas que se gloriam de coisas das quaisdeveriam ter vergonha. Se tiver a ousadia de questionar asdemonstrações de orgulho gay, pode ser processado por homofobia. Mas acrítica vale também para o outro lado, para muitos machões que se gabamdas suas conquistas e das suas proezas sexuais.
Seráque no íntimo não sabem que estão errados? Mesmo correndo o risco deescandalizar alguns, vou relatar uma conversa entre homens que alguémme contou: Um começou criticando um padre: Aquele padre não me venha com sermões. Já o vi num motel em booa companhia. Outro perguntou: E você, o que é que estava fazendo no motel? O primeiro respondeu: Eu posso. Não sou padre. Faloucomo se o sexto mandamento não fosse para todos. Um homem casado quenão se contenta com uma mulher não tem o direito de criticar um padreque não aguenta ficar sem nenhuma.
Tenhominhas dúvidas sobre a sinceridade de muitos que renegam os valoresmorais tradicionais em nome de novos “valores”. Será que existe alguémque pensa mesmo que a traição, a infidelidade e a promiscuidade sãovalores, e que castidade e virgindade não valem nada? Diantede quem me que diz que a virgindade não tem valor, me lembro do ditadosobre o macaco velho que não consegue mais alcançar uma banana e dizque a banana não presta.
Saindodo terreno tranquilo do genérico, devo abordar uma coisa concreta.Festas profanas invadem a madrugada do domingo, até no advento e naquaresma, e na vigília do Natal e da Páscoa. Certas festas sãoverdadeiras escolas de promiscuidade e de alcoolismo e outras drogasque estragam o futuro de muitos jovens.
Ouvidizer que tais festas são bem lucrativas para seus organizadores. Aspiores são aquelas que cobram caro para dar bebida de graça. Até quandovão continuar a favorecer o alcoolismo que fará sofrer não só obebedor, mas esposa e filhos também?
Esperoque o sermão do Batista leve você também a querer saber o que devefazer. O que pode fazer para o mundo onde foi colocado.