Formação

O pincel mágico, um conto sobre o servir

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Dom Pedro José Conti

Muitosanos atrás, viveu na China um jovem artista de nome So Liang. Era purode coração e de simples aspirações. A sua pintura era tão prodigiosa,que ia além de qualquer desejo ou imaginação. O pincel de So Liang eramágico. Cada desenho dele, flor, fruto ou animal, pegava forma e vidaquando enxugavam as últimas gotas de tinta. So Liang gostava muito dassuas pinturas e se divertia bastante com tudo isso. A fama dele, porém,começava a espalhar-se. De fato ele podia desenhar um pássaro e fazê-lovoar, podia fazer correr um rio onde antes só tinha terra seca. Quandoo Imperador soube do talento do jovem artista o mandou chamar paraobrigá-lo a desenhar para ele. So Liang detestava o Imperador, porquemaltratava os pobres. Depois de muitos pedidos e ameaças ele aceitou irao encontro do Imperador, também, para burlar-se um pouco do gananciososenhor. Assim começou a desenhar o primeiro pedido do Imperador: o mar.Poucas pinceladas e o mar já estava lá com toda a sua imensidão. –Faltam os peixes! – gritou o Imperador. So Liang trabalhou um bocado,mas enfim o mar ficou cheio de peixes de todo tamanho e cor. – Quero apraia – sentenciou o Soberano. Assim foi desenhada e apareceu a brancaareia da praia. – Quero um barco para pescar – disse enfim o Imperador.Dito feito, em poucos minutos ele já estava navegando em alto mar comtodo e seu séquito. 

Eraisso que So Liang estava esperando: dar um susto no Imperador. Logodesenhou grandes ondas, muito vento e chuva. O mar ficou medonho. Aindabem que a tinta acabou. Assim o barquinho do Imperador e dos seusministros conseguiu chegar à praia.

 Todosestavam molhados e muitos zangados com o pintor. Imediatamente ele foiexpulso da corte. Feliz, So Liang voltou a viajar pelo mundo novamentedono da sua mágica. Voltou a fazer o que gostava de verdade: pintar umasopa para um faminto, uma casa para um mendigo, um bem-te-vi para umjardim triste. E a todos andava contando como um dia tinha assustado oImperador.

 Gosteidessa história porque o pintor preferiu ficar pobre e dar vida com oseu pincel mágico ao que ele bem queria, em lugar de ficar obedecendoàs ordens caprichosas e malucas do Imperador. A sua liberdade valiamais de todas as promessas ou ameaças do soberano.

Penseinisso porque quando escuto Jesus falar de serviço, fico logo meperguntando como e a quem devemos servir. O exemplo e a explicação vêmdo próprio Jesus. Ele tinha a missão de manifestar visivelmente aoshomens a bondade e a misericórdia do Pai. Com palavras e ações. UmDeus, Pai de todos e não só de alguns, Pai dos pobres mais que dosabastecidos, Pai dos pecadores mais que dos orgulhosos observantes daLei. Por isso incomodou, desestabilizou as regras de quem queria tudocertinho e, sobretudo, sob o seu controle, poder e lucro. Jesuscontinuou a amar os inimigos e morreu também por aqueles que ocrucificaram. Esse foi o serviço-sacrifício de Jesus. Sem poupar nada esem pedir nada em troca. Puro amor. Tão grande que sempre ficaremosenvergonhados dos nossos pequenos amores interesseiros.

Oserviço do qual Jesus fala só vale se for gratuito, oferecido comconsciência e liberdade, um dom verdadeiro. A disputa para ser oprimeiro, aquele que serve mais, deve acontecer de cabeça erguida, nãopode ser por bajulação ou por medo. Quem cumpre um serviço paraaparecer, ou para ser elogiado perdeu o seu tempo aos olhos de Jesus.

Suspeitodos que oferecem os seus serviços, dizendo de não me preocupar, masdepois me extorquem no preço cobrado. Já apanhei tanto que logopergunto quanto vai custar o “serviço” deles. Assim já sei se irãotrabalhar de graça mesmo ou se a conta será salgada. Pior ainda quandotenho dúvida que a cobrança não será logo em dinheiro, mas depois emtroca de favores.

Ficotriste quando vejo muitas pessoas pobres dependendo de um empregoqualquer para sobreviver. Vivem no medo e na insegurança. Uma palavrado patrão, as graças da patroa ou a simpatia de algum poderoso podemdecidir a sorte dele ou dela e das suas famílias. O que dizer quandosão cobrados serviços “extras”, dando cobertura a roubos e falcatruas,quando o corpo e o nome das pessoas são usados para fins imorais eilícitos? Se reclamar ou abrir o bico, nesses casos, fica pior. É ruana certa e nunca mais vai ganhar um emprego.

Ojeito de servir do qual Jesus fala vem do coração, é feito pormisericórdia e compaixão, é oferecido como um dom sincero, na alegria eno desprendimento. É dado a quem merece e não a quem o compra. Comoaconteceu com o pobre pintor do pincel mágico que riu do Imperador.Ficou rico só com a sua liberdade, mas feliz.


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