Formação

O precioso segredo do Amor Esponsal a Jesus

Jesus tem o direito de fazer essa exigência, porque não há outro como Ele. Ninguém é tão cheio de glória, de beleza real, de semblante encantador, como Ele.

Existe um amor que sobrepuja todos os outros, de beleza indescritível, forte e dominante, que o autor do Cântico dos Cânticos louva: “Quão formosa e quão aprazível és, ó amor em delícias” (Cant 7, 7). É este o amor que Jesus concede à alma esposa, e é este o amor da alma sincera por Jesus. É inacreditável e maravilhoso que haja tal amor, que Jesus possa nos amar tanto!

Em nossa mente fria e calculista, é mais fácil compreender que Ele tenha vindo como Redentor, porque nós, criaturas corrompidas pelo pecado, precisamos de um Redentor, e é natural que lhe agradeçamos por isto. Sabemos, também, que Ele veio como médico para curar as enfermidades da nossa alma e do nosso corpo. Revelou-se, ainda, como o Rei dos reis, o Senhor de todas as hostes de querubins e de bilhões de anjos, o Soberano, vestido de majestade e poder divino, cujo mandato demônios fogem e as forças da natureza se submetem. Por todas estas coisas os povos de todos os tempos têm feito ouvir a sua gratidão, sua adoração, louvor e honra a Jesus, seu Redentor, Salvador, Senhor e Rei.

Fica além de nossa compreensão, porém, que Ele queira ser não apenas Rei, Senhor, Redentor e Salvador, mas Esposo de almas tão pecadoras. Está além da nossa imaginação que Ele mesmo queira atar os elos de amor com a alma ferida pelo pecado, como fazia com Israel, o seu povo escolhido, ao dizer: “Eu te desposarei para sempre, eu te desposarei na justiça e no direito, no amor e na ternura. Eu te desposarei na fidelidade” (Os 2, 21-22). Jesus, o Cordeiro, quer unir-se à sua Esposa, à Noiva do Cordeiro. Ele quer firmar os laços de amor com cada uma daquelas almas por quem Ele se entregou. Este elo, no entanto, pressupõe amor total e mútuo.

Aquele que nos amou e nos ama tanto, quer possuir-nos completamente, e agora o seu amor pede que nos rendamos a Ele, junto com tudo que somos e temos, para que Ele possa ser o nosso “primeiro amor”. Se lhe oferecermos algo menor do que este “primeiro amor”, que comporta dar-se inteiramente, se lhe oferecermos algo secundário e não o amor que tem prioridade sobre todos os outros interesses da nossa vida, Ele não o poderá aceitar. Enquanto o nosso amor por Ele estiver dividido, enquanto permanecermos presos às criaturas, Ele não compreenderá nossa linguagem, uma vez que o único amor que Ele entende é aquele que se entrega plenamente, sem medidas, até a última consequência.

O amor que o Amado espera de sua esposa é aquele representado pelo relacionamento de uma noiva com seu noivo, isto é, um amor afetivo, atencioso, fiel, terno. Um amor exclusivo, que coloca o Amado sobre todos os outros amores e interesses, que lhe dá o primeiro lugar e que está sempre em busca de demonstrar este amor com incansáveis manifestações de carinho e afeto.

Jesus tem o direito de fazer essa exigência, porque não há outro como Ele. Ninguém é tão cheio de glória, de beleza real, de semblante encantador, como Ele. Ninguém deu a vida por nós, a não ser Ele. Seu amor é tão dominante, tão carinhoso, tão íntimo, tão vivo e forte, que nenhum outro amor lhe pode ser comparado. Ninguém ama tão exclusivamente e se dá com tanta fidelidade e cuidado como Jesus. Ele sabe o que nos pode conceder com o seu amor, ele sabe como pode tornar feliz uma alma humana, e é por isso que Ele tem mil vezes mais direito para dizer: “Quero tudo, quero seu corpo e seu afeto, quero seu sorriso e sua vida, quero todo o seu amor, quero o seu primeiro amor, pelo qual você deixaria para trás todas as criaturas e coisas terrenas, da mesma forma que uma noiva deixa de lado todos os outros desejos, o amor e o conforto da casa paterna, e se for necessário, sua terra natal, para unir-se completamente ao seu esposo”.

Jesus, em seu amor por nós, mostra-nos o caminho, o mesmo que Ele mostrou ao jovem rico. Para alcançar o bem precioso do amor esponsal, da união íntima com o Amado, da vida eterna, é preciso vender alguma coisa, ceder alguma coisa, na realidade é necessário vender tudo. Isto é inevitável, porque o amor divino é amor total, não se entrega pela metade, se entrega até a morte.

O jovem rico saiu triste porque possuía muitos bens, seu coração era pesado e por mais que fosse “obediente” aos mandamentos, nele não existia espaço para o amor, que é uma realidade exigente. E até hoje, nós que cremos somos, muitas vezes, tristonhos e deprimidos, incapazes de conhecer a Sua grande alegria, porque nosso apego às coisas terrenas, às pessoas, à honra, à nós mesmos, impede que amemos a Jesus com um amor total. Pois o Noivo é dono de toda a alegria, pois foi ungido com o óleo da felicidade como nenhum outro (Cf. Sl 45,7).

Jesus está diante de nós como alguém que suplica. Ele exige o nosso amor, quer ter domínio total sobre nós. Quer receber de nós o amor que na cruz nos deu. Não porque o seu amor não seja gratuito, mas porque sabe que nada pode nos dar mais felicidade que amá-lo dessa forma. Uma noiva não sente-se feliz e realizada ao render-se completamente, entregando seu corpo e sua vida, àquele que ama ? Então, como não se sentirá uma alma que se deu completamente a este Amor que queima até as entranhas e que é mais forte que a morte ? Seu amor é zeloso, porque é imenso e muito forte (cf. Ex 34, 14).

Possessão divina – que expressão bendita ! Deus tomou posse de mim, dominou-me por completo, conquistou-me por inteiro, amando-me tanto que não se deu por satisfeito até que eu me desse total e completamente a Ele. Pode existir felicidade maior que esta ? A Amado do cânticos dos cânticos não teme em afirmar que não, uma vez que “os amores” do Amado são mais deliciosos que o vinho dos prazeres.

Sou vossa

Santa Teresa de Jesus

Sou vossa pois me criastes
vossa, pois me redimistes
vossa, pois me sustentais
vossa, pois me chamastes
vossa, pois me escutastes
vossa, pois não me perdi
que esperais de mim ?
Que missão dás a mim
pecadora e escrava ?
Eis aqui meu coração:
ponho-o em vossas mãos
eis meu corpo, minha vida, minha alma
meu amor, minha ternura
oh! Doce esposo, minha redenção
porque a vós me consagrei,
que quereis fazer de mim ?
Dai-me morte ou dai-me vida
dai-me saúde ou doença
dai-me honra ou desprezo
dai-me combate ou paz perfeita
fraqueza ou força
pois a tudo direi sim.
Que mandais fazer de mim ?
Dai-me riqueza ou pobreza
dai-me consolo ou desolação
dai-me alegria ou tristeza
dai-me o céu ou dai-me inferno
pois toda me dei a vós
que quereis fazer de mim ?
Dai-me oração se quiserdes
senão, dai-me sequidão
dai-me a sabedoria
mas por amor de vós aceito a ignorância
dai-me anos de abundância
ou de fome e de penúria
dai-me trevas ou claro dia
sacudi-me daqui, dali
que mandais fazer de mim ?
Se me queres na alegria
por vosso amor, quero alegrar-me
se me mandais trabalhar
quero morrer trabalhando
dizei apenas, onde, como e quando
dizei, doce amor, dizei
que esperais de mim ?

 

Formação Setembro de 2003


Comentários

Aviso: Os comentários são de responsabilidade dos autores e não representam a opinião da Comunidade Shalom. É proibido inserir comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem os direitos dos outros. Os editores podem retirar sem aviso prévio os comentários que não cumprirem os critérios estabelecidos neste aviso ou que estejam fora do tema.

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *.

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *