Subir à cruz tem seus privilégios. Aquele que ousa subir descobre um olhar novo, uma visão diferente, até mesmo privilegiada. Da cruz, vê-se aquilo que não é possível enxergar quando permanecemos apenas aos pés do Amado. Mudar de posição faz toda a diferença: estar aos pés concentra o coração na dor, no sofrimento, na agonia; mas estar na cruz com Ele concede a graça de ver o que outros não veem e, sobretudo, a graça de ver-se Nele.
“Já não somos dois, mas um só” (cf. Ef 5,31). Ali, no madeiro, acontece a comunhão mais radical. O coração encontra forças não porque olha para si, mas porque olha para Cristo. Agora que descobri a razão de subir à cruz, encontro também a beleza de permanecer nela. A cruz deixa de ser apenas peso e se torna lugar de transformação.
“Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo, tome sua cruz cada dia e siga-me” (Lc 9,23). A cruz não é obstáculo, é caminho.
O Chamado de Jesus
Ouço tua voz, Senhor, que me diz: “Tu estás comigo, valente guerreiro. Eu sou aquele que te ama e te envia.” Mas o medo me visita: sinto-me o último, incapaz de falar, de dar passos em terras estrangeiras, inseguro como a pedra rejeitada pelos construtores (cf. Sl 117,22).
No entanto, novamente, Tua voz me sustenta: “Eu estarei contigo.” É Tua presença que me dá segurança. O que me levanta não é minha força, mas a confiança em Ti. A fé me ergue, me sustenta e continuará me sustentando.
“Minha graça te basta, porque é na fraqueza que se manifesta plenamente a força” (2Cor 12,9).
O Exercício Espiritual
Não preciso carregar nada além da confiança. Não se trata de esforços humanos desmedidos, mas de deixar o Espírito guiar cada passo. É Ele que treina minha alma como num “ginásio espiritual”, para que eu permaneça na cruz, braços estendidos como os do meu Senhor, pulmões abertos para receber o oxigênio do Espírito.
Humanamente, ninguém conseguiria sustentar o peso de um corpo na cruz, frágil e humilhado. Mas o Espírito Santo concede a graça de permanecer. É Ele quem transforma a cruz em liberdade e a dor em amor privilegiado.
“Pois onde está o Espírito do Senhor, aí está a liberdade” (2Cor 3,17).
O Amor que não calcula
A característica do amor privilegiado é reconhecer seus limites, mas ainda assim subir à cruz e afirmar: “Jesus partilha meu sofrimento”. Esse amor não conhece matemática, não entende lógica, não mede esforços: simplesmente dá tudo.
Na presença consciente de um Deus que, por vezes, parece ausente, aprende-se a verdadeira paz. É no despojamento, na entrega do que consideramos necessário, que se descobre que “o amor tudo crê, tudo espera, tudo suporta” (1Cor 13,7).
As mãos vazias
E surge a pergunta: vale a pena subir à cruz de mãos vazias?
A resposta é sim. Porque não é preciso levar nada, a não ser a voz que guia cada passo. O Evangelho nos recorda: “O que é impossível para os homens é possível para Deus” (Lc 18,27).
Subir de mãos vazias significa abrir espaço para que Deus seja o tudo. Significa confiar que, no alto da cruz, cada lágrima ganha sentido, cada dor encontra resposta, e cada ferida é transformada em fonte de misericórdia.
Permanecer para ver as Maravilhas
A permanência é essencial. A cruz não é lugar de passagem rápida, mas de encontro. É preciso permanecer para ver as maravilhas do alto, para contemplar com o olhar de Cristo a vida que continua a pulsar, a Igreja que nasce do lado aberto, a esperança que floresce onde tudo parecia perdido.
Foi assim no Calvário: aos pés da cruz estavam Maria e João, testemunhas de que ali, no lugar da dor, nascia a vida nova. “Mulher, eis o teu filho… Eis a tua mãe” (Jo 19,26-27). A cruz é também escola de comunhão.
Por fim, subir à cruz é privilégio porque nela se encontra o Amado. É despojamento, confiança, entrega total. É permanecer onde muitos fogem, porque só ali a lógica do amor se revela em plenitude: amor que não mede, não calcula, não se protege. Amor que dá tudo, que transforma tudo, que ressuscita tudo.
“Quanto a mim, que eu não me glorie a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo” (Gl 6,14).
E assim compreendo: subir à cruz não é perder, mas ganhar um olhar privilegiado. É ali que se aprende a amar como Ele ama, a confiar como Ele confia, e a permanecer até o fim, porque o fim é apenas o começo da ressurreição.
Por Noor Gonzalez
Shalom, Comunidade vida – Missão Fortaleza