Estamos habituados a correr, a buscar, a experimentar, a buscar mais uma vez, a multiplicar as experiências e sensações. Somos uma humanidade “à flor da pele”, desejosos de novidades. E sem prevenir ninguém aparece uma situação planetária que nos confina em espaços que, por maiores que sejam, são muito estreitos e apertados para a nossa sede de viver.
O mundo físico de repente é drasticamente reduzido e nos lembra nossa finitude. Isso nos enche de angústia, ressuscita medos, subitamente as más notícias saem das telas dos telejornais e se convidam para o nosso cotidiano. Tornamo-nos reféns do medo, o inimigo é invisível e pode matar. A solução momentânea é de resguardar-se no quarto, no nosso quarto. O quarto, lar dentro do lar, espaço de repouso, de recolhimento, de ternura, de intimidade, de coesão, de reflexão…
Pensar. Refletir: eis o hábito do qual o homem foge, segundo Pascal, por medo de deparar-se com sua insuficiência, com sua mortalidade. Para se ter a ilusão da felicidade, procura-se desesperadamente por divertimentos, que venham a mascarar as misérias humanas embriagando-nos de prazer. Mas quando muitos desses divertimentos nos são subitamente tirados, resta-nos… o quarto. O quarto, porta para a interioridade, abrigo de barulhos, convite doloroso, mas libertador para conhecer um outro mundo e uma outra vida, a vida interior.
Enquanto podemos nos dispersar em milhões de atividades em uma azáfama sem fim, nos distraímos e perdemos de vista a única questão pela qual vale a pena “mover mundos e fundos” por uma boa resposta: “o que devo fazer para obter a vida eterna? “(cf.Lc 18,18). Também a nós, se Jesus nos perguntasse: “Como te chamas?”, responderíamos como o endemoniado de Genesaré: “Legião, porque somos muitos!”
Temos muitos desejos disparates, muitos anseios, mas procuramos fora de nós mesmos, “na terra da dessemelhança”, como diria Santo Agostinho: fora de nosso quarto interior, perdidos pelo espaço de tudo o que nos distrai, não percebemos mais onde está o essencial. E o segredo Jesus trouxe com uma simplicidade límpida: “… entra no teu quarto, e ora, no segredo. Pois, o teu Pai que vê no segredo te recompensará”, revelando Seu Rosto e revelando-te a ti mesmo… Toda a felicidade do Homem, Pascal, estará em saber entrar e viver nesse lugar onde o Pai habita, em seu quarto interior.
Daniel Ramos
Comunidade de Vida
