O cinema e as outras artes, no entendimento do Magistério da Igreja, tem como finalidade e como razão-de-ser, tornar-se um meio frutífero para o ser humano se aperfeiçoar, crescer na vivência das virtudes. As produções cinematográficas podem ser nossas aliadas na busca pela santidade ao evidenciar a virtude sob um aspecto atraente e positivo, ao ser epifania da Beleza, ao nos manifestar Deus e Suas obras através da sétima arte. Ainda que o filme não fale explicitamente em Deus ou sobre o Evangelho, é preciso recordar que as sementes do Verbo estão em todos os lugares.
Como nos lembra São João Paulo II, na Carta aos artistas, em contato com as obras de arte, entre elas, a obra cinematográfica, “a humanidade de todos os tempos — também a de hoje — espera ser iluminada acerca do próprio caminho e destino”. Assistir a um filme pode ser um ótimo programa para nos divertirmos e descansarmos em meio às atividades cotidianas, contudo o filme é chamado a ser mais do que um entretenimento. Sua vocação é, nas palavras do Papa Pio XI, ser uma “lição de coisas”; é ser auxílio ao iluminar nosso caminho rumo a meta a nós proposta, ao prêmio celeste, ao Céu (Fl 3,14).
Muito mais que nostalgia
Foi esta a minha experiência ao ver O Rei Leão (2019). De fato, reviver, em animação fotorrealista o clássico da infância me causou muito mais do que uma nostalgia, uma lembrança feliz do passado. Alguns trechos do filme me impactaram, me constrangeram e me impeliram a buscar o Pai e, Nele, me conhecer mais.
A história de Simba, muitas vezes, pode se confundir com a nossa. O pequeno leão, em sua atitude infantil, negligencia as recomendações de seu pai, Mufasa, e visita áreas que não condizem com a sua dignidade e o leva ao perigo. Diante das consequências das suas escolhas e das maquinações do seu tio Scar, o pequeno Simba dá ouvidos a conselhos ímpios e imputa a si mesmo uma culpa que não deveria estar sobre seus ombros. Foge. Esquece seu lugar, sua família, sua amiga, suas bases e – o pior! – sua natureza, sua própria essência, sua identidade. Abandona sua vocação régia.
“Hakuna Matata”
Nesta fuga, encontra Timão e Pumba. Passa a viver como eles, aderindo as ideologias deles. Hakuna matata é muito mais do que esquecer os problemas; é esquecer os outros. “Se o mundo vira as costas para você, você vira as costas para o mundo“, ensinam a Simba. Trata-se da cultura da indiferença, da qual o Papa Francisco nos alerta. Imbuído de ideologias e pensamento contrários a sua natureza, o pequeno Simba acaba por se saciar com insetos e larvas, símbolos daquilo que há de mais vil e baixo.
“Lembre-se de quem você é”
Só depois de perceber a incoerência de sua “nova vida” que Simba, com o auxílio do macaco Rafiki, se reencontra com o pai e, por tabela, com ele mesmo. É interessante notar as palavras de Mufasa ao filho: “Você esqueceu quem você é, e esqueceu de mim. Olhe para dentro de você. Você é muito mais do que pensa que é. Você tem que ocupar o seu lugar. Lembre-se de quem você é.”. Simba não tinha esquecido apenas quem era, mas esqueceu o pai. Somente depois de encontrar Mufasa é que Simba se reconhece como rei.
Uma história parecida com a minha e a sua
A história de Simba, com certeza, possui uma trama parecida com a nossa. Não raras vezes, dando ouvidos aos profetas da desventura e ao Tentador, permitimos que os nossos erros e debilidades falem mais alto do que a nossa natureza de filhos de Deus, gerando uma confusão na nossa identidade. Não há mais clareza e beleza original de nossa natureza e de nossa vocação. O pecado e a autoacusação nos separa dos outros, de Deus e de nós mesmos, tornando-nos incapazes de nos enxergarmos como Deus nos vê e de nos conhecermos como Deus nos conhece.
Depois disto, nos contentamos com as ideologias, com os pensamentos antievangélicos, com o mundanismo e acabamos por aviltar nossa dignidade tão alta de filhos de Deus ao ceder às concupiscência. Assim como Simba, para nós resta apenas um caminho: tal como o filho pródigo, reencontrar o Pai e, Nele, nos reencontrarmos.
Redescobrindo a dignidade de Filho de Deus
Se Simba encontra o pai e a si nas águas de um rio, há uma fonte na qual podemos encontrar o nosso Pai: Jesus Cristo. Não precisamos fazer como Felipe e perguntar pelo rosto do Pai (Jo 14, 8). Jesus é o rosto misericordioso do Pai; Ele é a imagem visível do Deus invisível, como nos relembra São Paulo. Nele, nos é recordado que somos imagens e semelhança do Pai Amantíssimo. É em Jesus que pode se realizar a plenificação daquilo que somos chamados a ser, aquilo que Deus pensa de nós. É olhando para Jesus, fazendo uma experiência viva e pessoal, crescendo na amizade profunda com Ele que podemos nos encontrar e viver nossa vocação: ser santo, ser feliz!
Deus se utiliza de tudo para realizar os Seus propósitos e Suas obras de amor. Inclusive de filmes. Não deixemos de seguir as pistas deixadas por Ele. Depois da Encarnação, explica o papa emérito Bento XVI, Deus se faz presente em todas as realidades humanas: não só no templo de Jerusalém, mas também na gruta de Belém e na casa simples de Nazaré. É real: o Amor nos espera e nos deseja encontrar nos locais mais improváveis – inclusive nas salas de cinema.
Livro “Tecendo o Fio de Ouro”
Baseado no pensamento agostiniano de “passado inconcluso, memoria amoris e ordo amoris”, bem como em conceitos modernos de psicologia humanista, especialmente da logoterapia, o livro Tecendo o Fio de Ouro é indicado para todas as pessoas que desejam conhecer-se melhor e verdadeiramente, e reorientar todas as áreas do seu ser para o bem, para o amor.
De autoria de Maria Emmir Nogueira, formadora geral da Comunidade Católica Shalom, e da neuropediatra Silvia Maria Lemos, a obra já foi traduzida em inglês e espanhol, e chega à 12ª edição em língua portuguesa. Ao longo dos anos, o método tem sido utilizada por jovens e adultos de quatro continentes, independente de sua fé, quer em forma de curso, quer individualmente em oração.
Francyjonison Custódio, postulante da Comunidade de Aliança, em Natal/RN


Como é belo perceber o quanto Deus se utiliza de cada coisa para nos salvar, nós salvar do nosso engano próprio e cada vez nós mostra que somos a sua imagem e que reconhecidos na imagem de Cristo é que podemos ser Santos nos livrando das ideologias que nos afastam de Deus. Belo texto!