O Espírito Santo, cosmético divino, ordena a caridade no coração do homem, atraindo o seu brilho pelo caminho da humildade e confiança na providência do Pai. É o Espírito que faz jorrar o fundamento da Beleza: ser pura e desinteressada.

Quando Deus fez a criação viu que tudo era bom, mas quando fez o homem viu que tudo era muito bom (Cf. Gn 1,24-31). Na versão grega lemos “muito belo”, pois esta palavra KALÓN, significa BELO, que para os antigos equivalia à VERDADE e ao AMOR (bem, bondade e justiça).
Sim, para Deus o homem é belo. Porém, a arrogância de querer se apropriar de uma prerrogativa de onisciência que não competia à sua condição de criatura, quando quis decidir por si mesmo o que é o bom, belo e o que é mal (feio), então o pecado (a feiura) entrou em seu coração e o fragmentou. Aprouve, pois, a Deus, salvá-lo pelo caminho inverso: recebendo no corpo de seu Filho, Cristo Jesus, toda a feiúra do pecado – sem ter pecado – para devolver ao homem a Beleza original. E enviou o seu Espírito Santo, cosmético divino, que ordena a caridade no coração do homem, atraindo o seu brilho pelo caminho da humildade e confiança na providência do Pai. É o Espírito que faz jorrar o fundamento da Beleza: ser pura e desinteressada.
Se queremos educar nossos filhos na Beleza, temos que optar pela gratuidade dos nossos relacionamentos. Na atualidade, desde a mais tenra idade, as crianças assimilam de maneira osmótica e subliminar as várias mensagens da sociedade de consumo, através de propagandas em revistas, outdoors, comércio. São mensagens que não transmitem gratuidade, mas querem vender algo, portanto, a raiz desta comunicação considera o homem como um consumidor. Lentamente, vamos entrando num mundo virtual de fantasias, buscando a gratuidade que nos sacia, através dos bens de consumo. E, ao usá-los, ficamos cada vez mais frustrados e insaciáveis, compulsivos e adictos.
É tempo de deixarmos o Espírito Santo purificar nossas relações virtuais e funcionais, para serem reais e gratuitas. A civilização de consumo banaliza cada vez mais as relações familiares (de pai e filho, esposo e esposa), de amizades e de trabalho, levando-as a serem manipuladoras, interesseiras, comerciais. O consumismo banaliza a relação sexual, de forma que muitos amantes não sabem se amam ou se são adictos do prazer da relação, porque já se tornaram adictos do prazer das roupas, dos cosméticos, da comida, da aparência, dos jogos.
O Espírito Santo, cosmético divino, nos cura da feiúra, ordenando a Beleza em nós, nos fazendo passar da passividade do consumir para a participação divina no criar, do fazer para o ser, do ser para o resplandecer, do resplandecer para o celebrar.
Os direitos humanos só consideram as necessidades básicas do homem no sentido utilitarista e produtivo; inclusive na educação, em seus métodos competitivos, produtivos e de sucesso. No entanto, todo ser humano possui necessidade do belo e, por isso, direito à Beleza, que podemos enumerá-los em três:
1) A liberdade, criatividade: é a participação das características sublimes do Altíssimo. Uma comunidade passiva, televisiva, que se nutre de jogos, Playstation e filmes, em detrimento da leitura, sadia iniciativa e criatividade, é uma comunidade pobre no desenvolvimento de seus talentos (Cf. Mt 25,14-30), subdesenvolvida e, consequentemente, não brilha o suficiente para evangelizar e atrair para o belo.
2) Reproduzir o que se é: imagem e semelhança de Deus (Cf. Gn 1,26-27). O seu “eu” maior, aquilo que se é em essência, numa inteligência iluminada para o bem, que conduza a vontade para o verdadeiro sentido da vida: possuí-la em suas mãos para doar-se gratuitamente aos seus semelhantes.
3) A festa, a celebração. “Moisés e Aarão apresentaram-se ao Faraó e lhe disseram: assim diz o Senhor, deixa partir o meu povo para que me celebrem uma festa no deserto” (Cf. Ex 5,1). A coragem e a força para sairmos do Egito de nossos pecados vêm da visão da festa. Celebrar é elevar-se metafisicamente, é antecipar o fim, é viver na plenitude do prometido, recuperar sua integridade para suportar o caminho do deserto. “É viver da esperança que não engana, pois o Espírito Santo foi derramado em nossos corações” (Cf. Rm 5,5). A celebração é a causa da Beleza. Uma comunidade que não celebra é pobre, triste, não vive a seiva do cristianismo nem atrai ninguém. Uma das condições para se entrar na ordem das Missionárias da Caridade, de Madre Teresa, é a alegria, que é fruto da Beleza e da esperança. A celebração é a causa da Beleza.
Oremos: “Vinde, Espírito que ordena e faz brilhar a Beleza da caridade divina, vinde curar nossas chagas de feiúra, recria em nós um coração puro e belo; reforça na humanidade a visão da Beleza Misericordiosa e a faz caminhar para a fenda da rocha do coração misericordioso de Cristo Jesus, o mais Belo dos Filhos dos homens!”
Cassiano Rocha Azevedo
Missionário da Comunidade Católica Shalom
Artigo originalmente publicado na Revista Shalom Maná