“Aquele que sabe fazer o bem e não o faz, comete pecado.” (Tg 4,17)

“Quem poderá então salvar-se?”, perguntaram os discípulos, espantados com as palavras de Jesus. Ao que Jesus respondeu: “As coisas impossíveis aos homens são possíveis a Deus.” (cf. Lc 18,26-27)
Esse encontro revela muito sobre o dinheiro e a felicidade. Imagino o que tenha passado pela cabeça daquele jovem, naquele momento: “Não bastam todas as esmolas que dei? Se ele me chamasse a segui-lo, não hesitaria! Mas por que abrir mão da riqueza?” A pergunta correta é “Onde está a felicidade?” E Jesus conhece a resposta: “Não ajunteis para vós tesouros na terra, onde a traça e o caruncho corroem e onde os ladrões arrombam e roubam, mas ajuntai para vós tesouros no céu (…), pois onde está teu tesouro aí estará também teu coração.” (Mt 6,19-21)
A escolha de Jesus pelos pobres não era um segredo: “Felizes vós, os pobres, porque vosso é o Reino de Deus” (Lc 6,20). São Tiago dirá ainda: “Atentai para isto, meus amados irmãos: Não escolheu Deus os pobres em bens deste mundo para serem ricos na fé e herdeiros do Reino que prometeu para os que o amam?” (Tg 2,5)
Jesus conta ainda a parábola de um homem rico, vestido de púrpura e linho fino com banquetes diários requintados, e de Lázaro, um pobre que jazia à sua porta, na esperança de saciar-se com o que caía da mesa do rico (cf. Lc 16, 19-25). Aconteceu que o pobre morreu e foi levado pelos anjos ao seio de Abraão. Morreu também o rico, este, porém, foi levado ao tormento das chamas da mansão dos mortos. Como o rico suplicasse a Abraão para enviar Lázaro para consolá-lo, Abraão respondeu: “Filho, lembra-te de que recebeste teus bens durante a vida, e Lázaro por sua vez os males; agora, porém, ele encontra aqui consolo e tu és atormentado.” (Lc 16, 25)
A mensagem é forte. O risco, podemos dizer, é calculado! Em outra ocasião, Jesus falava assim: “Quem de vós, com efeito, querendo construir uma torre, primeiro não se senta para calcular as despesas e ponderar se tem com que terminar? (…) Ou ainda, qual o rei que, partindo para guerrear com outro rei, primeiro não se senta para examinar se, com dez mil homens, poderá confrontar-se com aquele que vem contra ele com vinte mil?” (Lc 14,28.31) Surpreende o modo como Jesus termina este relato: “Igualmente, portanto, qualquer de vós que não renunciar a tudo o que possui, não pode ser meu discípulo.” (Lc 14,33)
Esta mensagem foi assimilada e vivida pelos seus discípulos desde o início, quando deixaram tudo para seguir o Mestre (cf. Lc 18,28-30), e também depois da ressurreição de Jesus, nas primeiras comunidades cristãs: “Todos os que tinham abraçado a fé reuniam-se e punham tudo em comum: vendiam suas propriedades e bens, e dividiam-nos entre todos, segundo as necessidades de cada um.” (At 2,44-45)
É muito significativo o contraste entre a história do jovem rico e a de Zaqueu (cf. Lc 19,1-10). Ainda que Zaqueu não tenha sido nem de longe um exemplo no seguimento dos mandamentos, sua atitude após o encontro com Jesus foi totalmente diferente: “Senhor, eis que dou a metade de meus bens aos pobres, e se defraudei alguém, restituo-lhe o quádruplo” (Lc 19,8). E Jesus lhe disse: “Hoje a salvação entrou nesta casa.”
A questão, portanto, não é o dinheiro ou os bens, mas o que fazemos com eles. São Pedro Crisólogo já dizia (e muitos outros santos antes e depois dele): “Portanto, ó homem, para que não venhas a perder por ter guardado para ti, distribui aos outros para que venhas a recolher; dá a ti mesmo dando aos pobres, porque o que deixares de dar aos outros, também tu não o possuirás.” São Tiago diz ainda em sua carta, dirigindo-se aos ricos: “Aquele que sabe fazer o bem e não o faz, comete pecado.” (Tg 4,17) E nós, como estamos gastando a nossa vida?
Leonardo Biondo