Tu olhas para mim todos os dias, mesmo assim, não desistes.
Pois sei que me vês Te traindo, Te machucando.
Sou tão cego nestes momentos.
Não sou capaz de reconhecer que tem Alguém a me amar.
Sou frio. Aí está a contradição.
Enquanto sinto-me perdido, Tu vens, a procurar-me.
Muitas vezes procuro o esconderijo debaixo do lixo.
Chego ao ponto de não sentir o odor da sujeira, da mesquinhez.
A cegueira se mistura com a insensibilidade.
Longe escuto. Teus passos se aproximam.
Caminhas em meio ao lixo, sem relutar, continuas a me procurar.
Os sentidos voltam quando a fragrância potente da Tua Presença
Espalha-se sobre o lugar onde estou escondido, trazendo dignidade.
É Amor. É perdão. É paciência. É compaixão. É sangue derramado.
Em meio às vergonhas, sinto o choque da vida.
O corpo, antes paralisado no escárnio, recebe de volta O Sopro.
Quando entregar-se à frieza dos meus membros corrompidos parecia ser a única opção,
O ardente escorrer do Teu Sangue, derramado por mim,
Começa a queimar o que havia secado, meu corpo, minha alma.
Elas doem, são feridas vivas. A diferença é que, agora,
O Sangue a entrar por elas é cura para o que tem dentro.
Não é fora, é no interior que Tu me encontras.
Tu vens a nós para dignificar o lugar onde podes habitar,
O coração de um insensível, o lugar da Compaixão.
Quanta contradição há no Amor que pode tudo mudar.
É o ardente desejo do Rei que só sabe amar e a ninguém quer escravizar.
