Formação

O valor de ir além de si mesmo

Por meio do autoconhecimento e da logoterapia, encontra-se uma autotranscedência que auxilia no processo de descobrimento pessoal, possibilitando ressignificar os fatos e sentimentos da vida.

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O ser humano se completa quando se relaciona. É nesse relacionar-se que poderá viver sua plenitude para além da dimensão individual do seu ser, ou seja, no aspecto da vivência social e das relações interpessoais, identificando tanto o que é da sua individualidade e seus limites, como o que é da individualidade da outra pessoa. Diferenciando–se do outro, completa-se no outro.

Segundo Max Scheler, pertence à essência do homem o ser aberto ao mundo. Ser humano é estar orientado para além de si mesmo. Assim, para a logoterapia e para a análise existencial o que é essencialmente humano encontra-se na autotranscedência.

E do que se trata a autotranscedência?

Segundo Viktor Frankl, [autotranscedência] é estar dirigido a algo ou a alguém, a um outro ser humano, a quem se ama; é estar dedicado a um trabalho que se enfrenta, ou a Deus a quem serve. Assim, podemos realizar os valores citados tantas vezes pela logoterapia, ou seja, os valores criativos, experienciados quando criamos algo, trabalhamos, oferecendo algo de nós ao mundo por meio da realização de um trabalho.

Há também os valores vivenciais realizados quando nos relacionamos com outro(s) ser(es) humanos(s), amando e sendo amados, recebendo algo significativo do mundo e, por fim, os valores de atitude, quando encontramos sentido apesar de situações adversas nas quais comumente não se acharia a tão sonhada felicidade, porém, ainda assim, podemos encontrar o sentido da vida.

Citemos como exemplo uma pessoa que sentia a vida passar por si de modo pesaroso e tedioso. Por motivo de uma doença grave, a mesma muda seu olhar diante da vida, percebendo-a como inigualavelmente valorosa, querendo assim, desfrutá-la em toda sua plenitude.

Todos esses aspectos falam em algum momento a respeito de muitos de nós, não é mesmo?

Muitos passamos por situações dolorosas na vida e nesses momentos tão difíceis, é justamente aí, que se dá o ponto supremo do nosso encontro com o que de fato é essencial em nossas vidas. Claro que ninguém em sua sã consciência busca o sofrimento, mas ele sem dúvida pode bater a nossa porta, tirando-nos de situações confortáveis e planejadas. Podemos muito bem tomar como exemplo o contexto no qual todo o planeta Terra se encontra: a pandemia do Covid. Nele, repentinamente, nossas rotinas foram drasticamente mudadas e tivemos que refazer nossos planos e sonhos. Adquirimos novas capacidades para vivermos melhor uma situação completamente ímpar.

Mas, o que podemos fazer com isso? Como podemos lidar com situações adversas e inesperadas?

Sim, reflitamos: a forma como lidamos com uma situação extraordinária, como reagimos à realidade, como criamos outros modos de reagir à partir da nossa percepção da realidade, isso conta e muito! Podemos dizer que faz toda a diferença.

Afinal, o que acontece com cada pessoa pode até ser muito parecido, mas a forma como cada um reage, certamente, será diferente. Diante disso, importa a consciência de que para sair-se bem em uma situação desfavorável o foco não deve estra naquilo em que a vida fez com você, mas voltar a atenção para o que você fará com os acontecimentos que ela presenteou a você.

 A importância fundamental de encontrarmos o tesouro dentro de nós.

Para isso, precisamos olhar para dentro, mergulhar interiormente. E sabemos que existem alguns imprescindíveis recursos para bem vivermos esse mergulho interior, tais como o autoconhecimento – vivenciado algumas vezes através da psicoterapia, ou mesmo da troca de experiências e vivências com pessoas significativas em nossas vidas. Contudo, é acima de tudo indispensável a nossa vida interior ser alcançada por uma vivência espiritual, na vida de oração.

Assim, certamente podemos nos orientar através  da oração aos moldes de Teresa D`Ávila , quando nos diz:

“Enquanto digo uma prece, estou vendo e entendendo bem que falo com Deus, com advertência nas palavras que pronuncio, juntas estão a oração mental e vocal… Nunca permitais Senhor, que se tenha por lícito alguém se entreter convosco e vos falar só com os lábios… Antes de começar a reza das horas do oficio Divino ou do Rosário, primeiramente pensemos quem é aquele com quem vamos falar, quem somos nós que lhe falamos para ver de que modo o havemos de tratar… Justo é procurar conhecer quem é Ele e qual a sua pureza e majestade. Na verdade, logo que nos chegamos a Ele, logo Ele se dá a conhecer… Em sua presença tremem os anjos. Ele tudo governa, tudo pode. Seu querer é realizar. Sendo assim, procuremos nos deleitar nessas grandezas do nosso Esposo, vendo com quem estamos desposadas e que vida devemos levar com Ele”.

Diante de tão eloquentes palavras de Teresa, podemos perceber quão imensa e profunda é a largura, a altura e comprimento da nossa vocação e quão dignos somos na essência. E como, em contrapartida, devemos ser pequenos, porque, só assim, agradaremos o nosso esposo Amado.

 

Martha Maria Veloso
Discípula da Comunidade Shalom.


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