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Onde está o teu irmão? Pregação de Goretti Queiroz sobre o Sábado Santo

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Apresentamos a pregação completa de Goretti Menezes, realizada neste Sábado Santo, durante o Retiro de Semana Santa em Fortaleza.

iconeBoa tarde! Hoje, nesse grande dia, o dia do grande silêncio, estamos aqui para meditarmos, contemplarmos o mistério da descida de Jesus à mansão dos mortos. Não é fácil nós meditarmos um mistério tão grande e tão profundo. Rezando, quando Padre Silvio me pediu para estar aqui hoje falado para vocês, tomei como base para essa nossa meditação uma homilia do nosso Papa Emérito Bento XVI[1] que me tocou muito, uma homilia belíssima, e utilizarei, lerei trechos dessa homilia em que ele faz essa reflexão, essa meditação sobre esse momento que vivemos hoje.

Ontem contemplamos Jesus que morre na cruz, a Morte de Jesus. E hoje é o dia do grande silêncio, porque o Rei dorme. Bento XVI diz assim: “No Credo nós professamos a respeito do caminho de Cristo”. O que nós professamos no Credo? Que Ele foi crucificado, morto e depois desceu à mansão dos mortos. É o que professamos no Credo. Ele foi crucificado, morto e sepultado, desceu à mansão dos mortos e no terceiro dia ressuscitou. E o que aconteceu, então? Ele diz que já que não conhecemos o mundo da morte, temos duas coisas que podem nos ajudar a tocar e nos aproximar desse mistério: os ícones e a liturgia, a palavra.

Os ícones de alguma maneira representam aquilo que aconteceu. Temos aqui justamente o ícone da descida de Jesus à mansão dos mortos, onde aqueles que estavam ali esperavam a vinda do Senhor para libertá-los. A veste de Jesus é toda luz, o lugar todo escuro. Não há luz, mas quando o Senhor entra, a veste Dele é toda luz, porque o Senhor é luz, é vida, e o Senhor vem então e toma Adão pela mão para resgatá-lo.

 

 

A liturgia aplica também a descida de Jesus à mansão dos mortos o salmo 24, que diz: “Levantai, ó pórticos, os vossos frontais, levantai-vos, ó portas!”, por quê? Porque as portas da morte estavam fechadas. Os que estavam ali não poderiam sair, porque não havia a chave para abrir aquelas portas. Cristo, somente Ele com a Sua cruz possui a chave que abre esta porta. O Papa Bento XVI diz: “A sua Cruz, a radicalidade do seu amor é a chave que abre esta porta. Este amor é mais forte que a morte”. É o amor de Cristo que é mais forte. A radicalidade do seu amor é a chave que abre essa porta para libertar.

Esse lugar, a mansão dos mortos, onde antes chamavam de limbo, ou até na linguagem bíblica chamavam de o seio de Abraão, era onde estavam as almas dos justos que haviam falecido na amizade de Deus, mas que não podiam ingressar no céu antes que Jesus lhes abrisse a porta, trancada pelo pecado de Adão. Eles estavam ali, mas por suas próprias forças, por eles mesmos, eles não podiam sair dali, senão fosse pelo poder da cruz, do amor do Senhor. Enquanto Cristo não fosse libertá-los eles estariam privados da glória de Deus.

Na Liturgia das Horas de hoje, na segunda leitura, temos uma antiga homilia do Sábado Santo que diz que Cristo encontra Adão e todos os homens que esperam na noite da morte, e quando eles avistam o Senhor parecem clamar como Jonas: “Clamei a vós do meio da morada dos mortos” [2]. Vamos dizer, juntos, esse clamor de Jonas? Clamei a vós da morada dos mortos! Era esse o clamor deles, o clamor por Cristo, pela Sua presença, pela sua libertação.

O Papa diz: “O Filho de Deus na encarnação fez-se uma só coisa com o ser humano – com Adão. Mas só naquele momento, em que cumpre o extremo ato de amor descendo na noite da morte, Ele cumpre plenamente o caminho da encarnação”. Olha que lindo! Cristo, o senhor, desce pela Encarnação ao homem, se faz um com Adão para salvá-lo, mas, ele diz, só naquele momento em que cumpre o extremo ato de amor, descendo na noite da morte. O Senhor se abaixa, desce ainda mais, e vai até a região dos mortos, e aí Ele cumpre plenamente o caminho da Encarnação. Mas o que significa Cristo descer ainda mais, até a região dos mortos? O que essa imagem significa? Qual o significado?

O Papa diz que significa que a força do homem não basta para elevar-se até Deus. Não temos asas que poderiam levar-nos até aquela altura. Porém, nada pode contentar o homem eternamente, se não o estar com Deus. O homem não consegue chegar ao alto, mas deseja-o. É esse o clamor que está em nós no “Clamei a vós da morada dos mortos”. Nós não podemos por nossas forças chegar ao alto, não podemos simplesmente quebrar e abrir essas portas por nossas forças, sairmos da morte por nossas forças. Só o Ressuscitado pode elevar-nos até à união com Deus. Só o Ressuscitado, só a presença Dele, só a experiência com Ele, só o encontro com Ele pode elevar-nos até a união com Deus, onde nossas forças não podem chegar. Só ele pode abrir as portas das nossas cadeias.

E hoje, nesse dia da descida à mansão dos mortos, também nós somos convidados a descer pela oração para auxiliarmos os nossos irmãos. É esse o clamor e o convite do Papa nesse dia em que meditamos e contemplamos a descida do Senhor por amor, no seu ato extremo de amor, a também com Ele descermos pela oração para auxiliarmos os nossos.

Santo Agostinho diz que podemos auxiliar e socorrer as almas que estão no purgatório principalmente por três atos: pelas missas, pela oração e pela esmola. São Gregório acrescenta mais uma: pelo jejum. Nós podemos também auxiliar os nossos. Mas o Papa Francisco, nessa quaresma, ele nos fez um convite. No primeiro dia aqui no nosso retiro, o Padre Sílvio pregou sobre a Eucaristia, nos falando como somos um só corpo. O Papa Francisco vem batendo muito nisso e dizendo que dado que estamos interligados em Deus, ou seja, nós somos um corpo, nós podemos fazer algo pelos que estão longe e por aqueles que não poderíamos jamais, por nossas forças, alcançar. Nós podemos fazer algo.

Meus irmãos, acho que todos nós aqui, e como o próprio Papa Francisco fala na sua mensagem da Quaresma, nós estamos saturados de ouvir noticias, imagens impressionantes de sofrimentos, de dor dos nossos irmãos em todos os lugares. E ele diz: “Nós podemos rezar com eles e por eles para que todos se abram à obra de salvação”.  O que você pode fazer por esses irmãos, que é um com um corpo? Nós somos um só corpo, o que podemos fazer? O que o Papa Francisco disse que podemos fazer?

O Papa diz: “Nós devemos rezar com eles e por eles. Devemos ser um corpo que conhece e cuida dos seus membros”. Devemos ser um corpo que conhece e cuida dos seus membros! É isso o que o Papa Francisco quer que cada comunidade, cada igreja local seja, um corpo ligado. Devemos ser um corpo que conhece e cuida dos seus membros. Devemos sair da indiferença que simplesmente vê imagens fortíssimas de irmãos nossos sendo mortos do outro lado do mundo e simplesmente achar que não posso fazer nada, que não tenho nada a fazer.

Achei muito forte e lindo quando o Papa Francisco cita na mensagem da Quaresma Santa Teresinha. Ele diz que ela, convicta de que a alegria no céu, pela vitória do amor crucificado, não é plena enquanto houver na terra um só homem que sofra e gema, ele diz que escrevia Santa Teresa de Lisieux: “Muito espero não ficar parada no céu. O meu desejo é continuar a trabalhar pela igreja e pelas almas”. Olha o que santa Teresinha diz! O meu desejo é continuar a trabalhar pela igreja e pelas almas.

Não sei se vocês sabem qual foi o contexto em que Santa Teresinha disse essa frase. Ela já estava bem doente, sofrendo muito, e ela sofreu muito antes de morrer, e uma irmã na enfermaria ficava querendo consola-la, e algumas vezes nos aproximamos do leito de pessoas que estão para morrer, que estão doentes, e não sabemos direito o que dizer e às vezes dizemos coisas não tão acertadas. A irmã chegou perto de Teresinha, olhou, ficou morrendo de pena de ver aquele sofrimento e disse: “Irmã Teresa, não se preocupe, não se preocupe. Já, já você vai descansar no céu. Está chegando e você vai descansar”, e aí aumentou ainda mais a dor em Teresinha, porque só em ela ouvir isso, não concordou. Ela olhou para a irmã e disse: “Eu não vou descansar no céu. Eu não vejo o céu como um descanso para mim, pelo ao menos até o juízo final, quando o anjo gritar que não tem mais tempo, que acabou, e agora os justos vão para um lado, os injustos para o outro, e não vai mais ter tempo para a salvação. Aí sim eu posso entender o céu como um descanso, mas até o juízo final ainda haverá tempo para uma pessoa se converter, para uma pessoa encontrar o amor de Deus, ter uma experiência, e até esse tempo chegar eu não terei descanso”. Por isso que ela diz: “O meu desejo é continuar a trabalhar pela igreja e pelas almas”.

 

 

Mas uma pessoa não diz uma frase dessas no seu leito de morte, morrendo de dor, já perto de morrer, se ela não viveu toda uma vida assim. Ela não tem uma visão e uma perspectiva de céu desse jeito se a vida e a terra dela não foram assim, não é verdade? A Emmir, em uma pregação[3] dela dizia o que pensamos, o que fazemos quando acompanhamos pessoas que estão perto de morrer, como queremos ficar próximos, e como as pessoas quando estão bem pertinho de morrer dizem aquilo que está no coração delas e aquilo que realmente foi toda a vida delas. Por isso que Santa Teresinha, nesse momento de agonia, num momento muito especial, ela escreveu a poesia viver de amor[4].

Quem conhece aqui essa poesia ou já ouviu falar? Poucos, mas Santa Teresinha escreveu essa poesia antes da Quarta-Feira de Cinzas. As monjas faziam três dias -domingo, segunda e terça- de Adoração, em reparação pelos pecados que tinham sido cometidos durante a festa do carnaval, a festa das carnes, e elas faziam três dias de Adoração em reparação. Foi nesse momento, no momento dela de Adoração, quase na penumbra, porque só o Santíssimo ficava iluminado. Ela pegou um pedacinho de papel e espontaneamente escreveu uma poesia de quinze estrofes, onde praticamente em cada estrofe são os temas fundamentais de sua vida, onde ela foi dizendo o que era viver de amor. Às duas últimas, a quatorze e a quinze, ela então acrescenta depois: morrer de amor. Na 13° ela fala viver de amor e nas duas últimas, morrer de amor, porque para Teresinha viver de amor era também morrer de amor.

Na 11° ela diz algo que tem tudo a ver com o que estamos falando aqui, nesse descer pela oração. Ela diz: “Viver de amor é enxugar-te a Face, aos pecadores obter perdão. Oh, Deus de amor! Que eles voltem à Tua graça”. Ela rezava por aqueles que haviam pecado tanto. Ela rezava ali, horas a fio, por aqueles que não conheciam o Senhor. Como diz o Papa Francisco, por aqueles que estão perto e por aqueles que estão longe. “Viver de amor é enxugar-te a Face, aos pecadores obter perdão. Oh, Deus de amor! Que eles voltem à Tua graça”. Que eles voltem, Senhor! Que oração forte de Teresinha!

A essa pergunta que o Papa nos faz, essa pergunta do Gênesis, “onde está o teu irmão?”, onde está o teu irmão? O teu irmão está no teu coração? Está nas tuas orações? Nas tuas intenções, no teu jejum, no teu terço, na tua missa, na tua Eucaristia? Para Teresinha estava na vida dela toda, porque “viver de amor é enxugar-te a Face, aos pecadores obter perdão. Oh, Deus de amor! Que eles voltem à Tua graça”. Ela não era indiferente. Nenhum santo foi indiferente à dor do outro, à dor do irmão. Nenhum santo buscou a sua santidade de forma isolada, não sendo corpo. Mas Santa Teresinha, como ela trazia isso no coração dela! A salvação dos homens. Como a Sagrada Face era algo tão profundo e caro para ela!

Abrindo um parêntese para dizer mais uma coisa, já que lemos essa estrofe “viver de amor é enxugar-te a Face”. Num primeiro momento o nome de Santa Teresa, quando entrou no Carmelo, era Santa Teresa do Menino Jesus. Pronto. O santo da monja tem a ver com aquele caminho, aquela espiritualidade, aquela mística que ela vai vivendo. Num determinado momento, Santa Teresinha pediu para ser acrescentado o nome dela a Sagrada Face, e porque Teresinha contemplou a Sagrada Face? Como Teresinha se uniu de uma maneira tão forte com a Sagrada Face, ferida e desfigurada do Nosso Senhor? Todos os que estudam e escrevem sobre Santa Teresa estão de acordo que a pessoa que ela mais amava na terra era o seu pai. Era a pessoa que ela mais amava. Foi contemplando a face de seu pai que ela aprendeu a chamar Deus de Pai e que aprendeu a contemplar a face de Deus Pai.

Logo depois que Santa Teresinha entrou no Carmelo, seu pai ficou muito doente. Ele tinha problemáticas psicológicas. Chegou a passar três dias desaparecido. A família toda o procurando, e depois de três dias foi reencontrado. Imaginem a dor dilacerante do coração dela, e ela apenas rezava, rezava. As duas irmãs que tinham ficado em casa que cuidaram do pai. Chegou num determinado ponto, porque ele tinha momentos de lucidez e outros em que a perdia, que ficou tão perigoso estar em casa porque poderia desaparecer, que decidiram interna-lo. Foi uma dor muito forte. Ele ficou internado no hospital, as duas irmãs tiveram que deixar a casa e alugaram um quartinho para poder ficar perto, cuidando, acompanhando, rezando, de uma maneira muito concreta. Uma das irmãs relata que quando ia ao Carmelo, Teresinha dizia que estava rezando muito com o livro de Isaías, com o Cântico do servo sofredor, principalmente a partir da doença mental do pai, aprendendo a contemplar a face de Jesus desfigurado. A passagem predileta para rezar passou a ser a do servo sofredor.

Ela contemplava a face de Jesus, e ela foi descendo, descendo, descendo. Foram 5 anos de um longo martírio, mas em que Teresinha não se desesperou, não procurou respostas humanas, não tentou pelas forças dela ter uma solução, mas se uniu ao mistério da Paixão de Cristo. Olhava a face do pai agora desfigurada e olhava a Face de Jesus. Com Jesus descia naquele mistério de dor e de amor, e olhava para o pai e compreendia o mistério ali da salvação que Cristo operava. Foi nesse contexto de muita oração, de muita união, como eu dizia, ela não foi indiferente nem com os de perto nem com os de longe. Nem com aquele que estava tão perto do seu coração, que era o seu pai, nem com os que estavam longe: os sacerdotes que ela tanto rezou a vida toda, os missionários, os pecadores, os que não tinham fé, os incrédulos. Ela estava ali unida. E foi assim, nessa vida de oração, que ela chegou um dia e disse: “Madre, acrescente ao meu nome a Sagrada Face, porque esse mistério faz parte da minha vida, a Sagrada Face de Jesus”.

O que nos impressiona na vida dos santos, vamos lendo, refletindo e nos enriquecendo com a vida dos santos que viveram de uma forma tão profunda esse mistério da Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor, essa dimensão do amor do Senhor que nos impressiona tanto na vida dos santos. Não são os milagres que eles operaram, não são as coisas extraordinárias, mas o que nos impressiona é ver como eles amaram! Como eles sofreram unidos ao mistério de Cristo, como eles imitaram os gestos, as palavras, como eles foram unidos aos sentimentos de Cristo! E é isso o que o Papa Francisco nos convida, a superar toda tentação de indiferença.

O Papa Francisco diz assim: “É por isso que os santos não estão no céu indiferentes a nós, porque eles venceram e passaram pelos combates, pois aos santos é concedido já contemplar e rejubilar com o fato de terem vencido definitivamente a indiferença, a dureza de coração e o ódio graças a Morte e Ressurreição de Cristo”.

Os santos não estão no céu dizendo assim: “Bem, como eu já superei isso daí, como já vivi, já passei por isso daí, agora posso estar aqui no céu”, não! Mas é justamente porque eles passaram, eles viveram esses combates. Eles não são indiferentes a nós. Eles estão unidos a nós. E aí podemos nos perguntar: o que fazer? O que podemos fazer diante de tudo isso que vivemos, que passamos e ouvimos? O que podemos fazer? O que fazer? O Papa Francisco responde: “Podemos rezar na comunhão da igreja terrena e celeste”.

Existe uma tentação muito grande. Quando estamos passando por um momento de dor ou que nós temos um parente doente, ou um amigo, nós queremos logo resolver tudo pelas nossas próprias mãos, e às vezes é tanta coisa para fazer, um corre corre, isso e aquilo, que às vezes fazemos tudo e a única coisa que não fazemos é rezar. Quem aqui tem um conhecido seu doente? Seja psicologicamente, espiritualmente ou fisicamente? Eu estou com uma muito necessitada de muita oração. Peço até que no Corpo de Cristo vocês peçam por essa minha intenção. Primeiro temos de perguntar: e onde ele está no teu coração? Onde ele está? Ele está mesmo no teu coração? E o que você tem feito?

Às vezes nos preocupamos, tenho de comprar o remédio, isso, a cama assim, a cadeira, eu tenho de providenciar isso, tenho de cuidar disso e daquilo. Termina o dia e eu não rezei, e se eu não rezei, eu também não uni ao sofrimento de Cristo. Se eu não rezei também não vou entendendo o mistério de Cristo em meio àquele sofrimento, e aí podemos fazer um monte de coisa e ao mesmo tempo não fazemos quase nada, porque nós não nos unimos a Cristo. Nós achamos que podemos nos levantar pelas nossas próprias forças. Aqueles que jaziam nas trevas, aqueles que estavam na sombra da morte, eles se elevaram pelas próprias forças? Sim ou não? Não. Não. Só Cristo, só a Ressureição de Cristo, só o poder de Cristo, só a experiência de Cristo, e por isso a necessidade da oração.

O Papa Francisco diz: “Podemos rezar na comunhão da igreja terrena e celeste”, e ele diz: “Não subestimemos a força da oração de muitos!”, e como ele diz isso de maneira forte! “Não subestimemos a força da oração de muitos!”. O Papa Francisco não diz isso só com as palavras. Ele diz isso mesmo com a sua vida, rezando. Quando uma guerra estava para explodir o que o Papa Francisco fez? Oração, jejuemos, dobremos os joelhos, clamemos! E o que foi que aconteceu? Parou a guerra. Se formos ver na historia da igreja quantas vezes Roma mesmo foi atacada por calamidades, por pestes, por tantas coisas. Os homens tentaram fazer de tudo para parar a peste, os problemas, as pragas com as suas forças, com, talvez, meios. E quantas vezes o Papa ergue o Santíssimo e clamou, chamou, convocou a igreja como corpo e disse: “Rezemos! Rezemos! Unamo-nos!”, e a força da oração parou. Nós temos isso na história, na nossa história, na história da nossa igreja.

Por isso o Papa nos convida a sairmos das nossas ilhas de isolamento, de indiferença, e sermos ilhas de misericórdia, e nos unirmos em oração em vista do corpo, diante de tanta violência que nós assistimos, que nos deparamos, mas não podemos simplesmente nos sentir incapazes de qualquer coisa, impotentes. Talvez pelas nossas próprias forças sim, somos, mas pela força da oração não! Nossa Senhora de Fátima já dizia: “Rezem, rezem, rezem o terço, porque a oração pode parar uma guerra!”, a oração pela conversão dos pecadores que hoje se perdem e podem ir para o inferno!

Irmãos esse é o grande dia do silêncio, do silêncio santo, porque o Senhor visita as nossas regiões de morte. Nós somos chamados a sair da nossa tibieza, da nossa indiferença, para que o nosso fervor, para que o nosso amor seja uma intercessão poderosa, que suba aos céus em favor dos irmãos. É isso que nós somos convidados, a sair da indiferença. A sair de uma vida que não é uma vida de amor, e a transformar a nossa intercessão numa poderosa arma de combate. Não podemos combater com as nossas forças esse combate, mas combater com a graça do Senhor.

Antes de concluir, eu gostaria de pedir que fechássemos os nossos olhos e cantássemos duas estrofes dessa poesia de Santa Teresinha, pedindo ao Senhor.  Só uma vida de amor pode nos tirar de toda morte e indiferença. Só uma vida de amor pode nos unir ao céu, pode nos unir em amor, em misericórdia por aqueles que estão no purgatório, pode nos unir aos que estão sofrendo. Vamos cantar uma parte dessa poesia e rezarmos, clamando ao Senhor:

 

Viver de amor é dar sem medida

Sem na terra salário reclamar.

Ah! Sem contar eu dou, pois convencida

de que quem ama, não sabe calcular.

 

Ao divino Coração

Transbordante de fineza.

Eu dei tudo e leve corro com ardor.

Não tenho mais que minha única riqueza: viver de amor!

 

Podemos orar em línguas pedindo ao Senhor que nos dê esse coração. Para Teresinha, viver de amor era rezar por todos aqueles que necessitavam de conversão, rezar pela igreja, rezar pelos sacerdotes. O que é para você viver de amor? O que é para você uma vida unida a Cristo que se encarna, que se dá, que morre por você, e desce até a região mais profunda da sombra da morte, para nos trazer a vida? Ore e deixe o Senhor também dar a você esse coração e a graça de hoje descer com Ele à mansão dos mortos pela oração. Por todos aqueles que devem se abrir à salvação, os que estão perto, os que estão longe. Os que estão tão perto de nós, tão necessitados, e os que estão longe e também precisam da nossa oração. Unidos a Maria, a nossa Mãe, a primeira e perfeita discípula. Nela permanece acesa a chama da fé, esperando contra toda esperança, orando, intercedendo, unida ao Seu Filho. Ave-Maria.

 

 

[1] Homilia do Sábado Santo do Papa Bento XVI, em 07 de abril de 2007.

[2] Jn 2, 3.

[3] Pregação da quaresma, Emmir Nogueira, em Assembleia comunitária na Com. Shalom de Fortaleza, em 30/03/2015.

[4] Viver de amor, P 17. Esta poesia foi escrita por Santa Teresinha do Menino Jesus em 5 de fevereiro de 1895 e no dia 9 de junho deste mesmo ano na plenitude de sua vida espiritual se oferece como Vítima ao Amor Misericordioso e escreve o Ato de Oferenda.

Goretti Menezes

Semana Santa – 2015

“Deus é rico em misericórdia” (Ef 2,4)

Sábado Santo, 04/04/2015


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