Formação

Orfandade na fé

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    “Paijusto, o mundo não te conheceu, mas eu te conheci, e estes conheceramque tu me enviaste. Eu lhes fiz conhecer o teu nome, e o farei conhecerainda, para que o amor com que me amaste esteja neles, e eu mesmoesteja neles”! Este é o ápice da oração de Jesus, o Filho, dirigindo-seao Pai, narração do Evangelho de João 17, 25-26. Esta oração é overdadeiro reverso da gravíssima e comprometedora orfandade na fé,revelada nas incompetências humanas quando se trata da promoção e dorespeito à vida. É uma incompetência que enfraquece e diminui aresistência humana. Por isso, há uma enorme dificuldade para suportardemoras; uma impaciência diante das indicações de que é preciso mudar,uma radical rejeição a qualquer indicação de compromissos e normasmorais. Orando assim, Jesus revela aos seus discípulos o caminho únicoe insubstituível para vencer a amargura da orfandade na fé.

    Estaorfandade não é superada simplesmente por produção de discursos, ou naeleição de figuras que respondem ao perfil do próprio agrado. Não sepode viver da ilusão de que apenas iconoclastias ou determinadosgêneros literários tenham força de fazer brotar de novo a genuinidadeda experiência da paternidade. A orfandade na fé, pois, é umaincompetência contemporânea de dirigir-se ao Pai, o Pai de todos. Aperda desta direção ou o desconhecimento deste caminho levam ahumanidade, de todos os tempos, a amargar as consequências de umadelinquência nascida desta orfandade. Uma delinquência travestida dasreivindicações de autonomia total das próprias escolhas, na vivênciatirânica da própria liberdade ou na insatisfação brotada da falta delimites por não admissão de nenhuma norma ou mandamento.

    Nascedela, pois, as tiranias que se configuram em incompetências, amarguras,insatisfações, dificuldades para compreender a essencialidade dacapacidade de viver a vida como oferta de si para o bem do outro. Estaincompetência tem raízes muito profundas na cultura contemporânea,impedindo a visão de Deus. Impedindo a visão de Deus que, porconsequência, enjaula culturas, povos, grupos e pessoas numa cegueiraangustiante. Alimenta os relativismos que estão comprometendo oindispensável altruísmo na vida humana. Esta incompetência pesa sobreos ombros. São Teófilo, bispo, no seu Livro A Autólico, no século II,escreveu: “Deus é visível para aqueles que são capazes de vê-lo, porquemantém abertos os olhos da alma. Todos têm olhos, mas alguns os têmobscurecidos e não vêem a luz do sol.

    Ese os cegos não vêem, não é porque a luz do sol deixou de brilhar; a simesmos e a seus olhos é que devem atribuir a sua falta de visão”. Estaincompetência, que configura a orfandade na fé, é nascida e alimentadapela mentalidade positivista que tem distanciado a pessoa de todaalusão à visão metafísica e moral. Por isso mesmo, vai se tornandocomum dar por descontado ou negociar, espuriamente, as referênciaséticas, trazendo os nefastos riscos de não se manter no centro dosinteresses a pessoa e a globalidade de sua vida. A conseqüência é umnefasto niilismo que vai tomando conta, um dos frutos da orfandade nafé, introduzindo e alimentando a cultura que considera a existênciasomente como oportunidade para sensações e experiências onde o efêmerodetém o primado. O primado do efêmero gera nostalgias. Busca-se águalimpa e cristalina para matar a sede e não se cuida da nascente. Sem ocuidado com a nascente não se vai ter a água limpa desejada.

    Aorfandade na fé não se cura simplesmente com nostalgias, discursosrepetitivos, iconoclastias ou agrados aos ouvidos. Há um caminho,embora mais árduo e exigente, que pode responder à procura da liberdadeautêntica e da alegria duradoura, nascida da experiência de umaverdadeira paternidade.  Este caminho é o caminho da fé. Somente a fépermite entrar dentro deste mistério. Paternidade e filiação naexperiência da fé é um mistério. Não é um enigma indecifrável. É umaexperiência que não prescinde da razão e precisa da fecundidade do amormisericordioso que vem de Deus. Este percurso pode parecer muitoabstrato. Não o é. É uma concretude que revela a razão da mais profundademanda do coração humano Esta sensação de abstração comprova adificuldade advinda da cultura do efêmero que está presidindo escolhase sensações na atualidade.

    AIgreja Católica tem clareza de sua missão na oferta de processoseducativos para que a experiência da orfandade na fé dê lugar à riquezada experiência da paternidade de Deus. Este empenho missionário é umindispensável serviço em meio à confusão que se conhece na culturamoderna. Este não é um serviço qualquer. Sem a superação destaorfandade na fé, ainda que a indicação esteja na contramão damentalidade vigente, materialista e positivista, a humanidade vaiperambular amargando a distância de Deus.


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