Formação

Os novos Moisés

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A Bíblia é, ao mesmo tempo, o livro que nos revela os passos de Deus à procura do ser humano e o livro que apresenta as respostas do ser humano às propostas divinas. Cada pessoa ou comunidade tem muito a aprender com aqueles que exerceram missões na história da salvação. Somos convidados a olhar para suas virtudes, para imitá-los; a tomar conhecimento de suas fraquezas, para não repetirmos seus erros. De poucos personagens bíblicos temos a aprender tanto como de Moisés – ele que libertou os hebreus da escravidão egípcia, que lhes deu a Lei, promulgada no monte Sinai, e que os conduziu até a Terra Prometida.

Moisés não queria acreditar no que ouvia. Mas como não acreditar se era o próprio Senhor quem lhe falava? “Vai, desce! Porque se corrompeu o teu povo que tiraste do Egito. Desviaram-se do caminho que prescrevi; fizeram para si um bezerro de metal fundido, prostraram-se diante dele e ofereceram-lhe sacrifícios…” (Ex 32,7-8). Mais difícil ainda era acreditar que seu próprio colega, Aarão, chamado também a ser líder, tinha aceitado a proposta da multidão, para fazer um deus que marchasse à sua frente. Mais: ele é que coordenara o recolhimento de brincos de ouro, fundira o bezerro e construíra o altar diante do qual eram oferecidos sacrifícios. Se para Moisés já não era fácil ver sua gente comendo, bebendo e fazendo festas em honra de um “deus” esculpido por mãos humanas, como, então, compreender a atitude de Aarão?

Mesmo assim, Moisés não aceitou o que o Senhor lhe propôs: “Deixa, pois, que se acenda minha cólera contra eles e os reduzirei a nada; mas de ti farei uma grande nação” (Ex 32,10). Moisés concordava que era uma raça “de cabeça dura”; no entanto, sentia-se responsável por ela e pediu ao Senhor misericórdia e perdão. O terrível gesto de idolatria teve sérias consequências para aquele povo chamado a ser “um reino de sacerdotes e uma nação consagrada” (Ex 19,6); não ocorreu, contudo, a rejeição que Moisés tanto temia.

Nosso tempo tem urgente necessidade de novos Moisés. Assim como o povo escolhido se cansou, em um dado momento, dos sacrifícios da caminhada, e procurou agarrar-se a coisas mais concretas, hoje não poucos cortam de suas vidas qualquer preocupação com a vida eterna e vivem em função do imediato, do palpável, do prazer aqui e agora. Pior do que o ateísmo intelectual é o ateísmo prático: não se discute a respeito da existência de Deus ou de temas como os “novíssimos” morte, juízo, inferno e paraíso; vive-se como se nada disso fosse realidade e acaba-se construindo um estilo de vida segundo a nova situação, dando um novo vigor à tese do filósofo francês Blondel: “Quem não vive como pensa, acaba pensando como vive”.

Necessitamos de novos Moisés. Não é preciso que reajam como o primeiro que, quando se aproximou do acampamento e viu o bezerro e as danças, “sua cólera se inflamou, arrojou de suas mãos as tábuas e quebrou-as ao pé da montanha. Em seguida, tomando o bezerro que tinham feito, queimou-o e esmagou-o até o reduzir a pó, que lançou na água e fez beber aos israelitas” (Ex 32,19-20). Os Moisés de hoje tenham a capacidade de interceder pelo povo com orações e súplicas; saibam oferecer a própria vida em favor dos irmãos; sejam tão seguros do que querem que não se importem se forem incompreendidos e ridicularizados; acreditem que é possível vencer o mal com o bem e, sobretudo, sejam animados de consoladora certeza: a semente, ao ser jogada na terra, desaparece, mas depois germina, transforma-se em planta que  produz frutos; a vida nasce da morte e a Cruz, com tudo o que significou de fracasso e humilhação, foi o passo necessário para que acontecesse a ressurreição.

Surjam logo os novos Moisés! E que eles não se esqueçam de levantar sua tenda de reunião, onde possam se entreter com Deus face a face, “como um homem fala com seu amigo” (Ex 33,11). A presença desses novos Moisés na terra dos homens será a garantia de que Deus não se cansou de seu povo, apesar dos bezerros de ouro que continuam a ser fabricados e adorados.

Dom Murilo S. R. Krieger, scj


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