Já era 18:30 e eu estava em um engarrafamento infindável tentando chegar no grupo de oração que coordenava. O horário de início era 19:00 e eu não estava nem no meio do caminho; o ônibus nem pensava em se mexer!
Depois de um dia intenso de estudo e trabalho, acordando cedo, dormindo tarde e ainda com mil atividades no Reino de Deus, muito facilmente podemos perder o foco, o sentido da vida missionária e viver de cara fechada; tornamo-nos cristãos cisudos!
Pois bem, assim eu estava, confesso, mea culpa! Não imaginava quantas loucuras de Deus aconteceriam dentro daquele coletivo.
Logo de início, em pé, em um ônibus lotado, sendo espremido por todos os lados, tratei logo de pôr meus fones de ouvido e aumentar no volume máximo para me abstrair daquele estresse! Não se passaram duas músicas até que aquela voz que ecoa dentro de nós após a efusão no Espírito Santo começou a urrar mais alto que Sweet Child of Mine, do Guns in Roses:
– Ônibus não foi feito para ouvir música, mas para evangelizar!
– Desculpa, Espírito Santo, mas os ônibus foram feitos para nos levar de um lugar para o outro, e é por isso que eu estou nele agora. Tchau.
– Desligue o som. Evangelize!
– Tá bom, tá bom, desligo, mas não vou evangelizar nem a pau juvenal! Vou rezar o terço pelos passageiros. Satisfeito?
Uma senhora em um assento preferencial levantou-se e eu corri para sentar-me lá! Feliz da vida, nem reparei se tinha algum idoso! Comecei a rezar o terço.
– William, eu disse para evangelizar, não para interceder.
– Que saco!
Ainda rezando o terço olhei ao redor procurando quem evangelizar. No mesmo instante, uma mulher sentada ao meu lado olhou para mim, sorriu e voltou a olhar para o engarrafamento. “É ela!”, tive certeza.
Encarei-a por um instante, sem saber o que dizer, ela percebeu, olhou de volta, e eu, constrangido, voltei a rezar o terço! Pensei: “Você me faz passar por cada uma! Por que você não deixa eu ficar aqui na minha? Estou cansado, estressado, atrasado e só vai piorar!”
Trocamos novamente olhares e, de repente, a frase explodiu da minha boca:
– Minha senhora, eu daria tudo para ter uma moto agora! Fugiria desse engarrafamento e não me atrasaria tanto para o compromisso que tenho agora! Que cidadezinha, viu?!
Enchendo os olhos de lágrima, ela respondeu:
– Meu filho, não queira ter uma moto. Meu irmão morreu semana passada em um acidente de moto. Estou revoltada contra Deus. Um motorista de carro, bêbado, bateu no meu irmão e ele morreu na hora. Estou revoltada contra Deus porque este meu irmão deixou duas filhas, a esposa e toda sua família! Enquanto meu outro irmão, irresponsável, sustentado pela família, dependente químico permanece vivo! Não aceito! Por que Deus não o levou ao invés do meu irmão?! Antes que ele tivesse morrido!
Surpreso pela palavra de sabedoria que Deus me dera de forma inesperada, logo caí em mim e, como num choque de realidade, assumi a postura de filho de Deus, amigo de Deus, missionário de Deus e de sua Igreja! Não tinha ideia do que responderia, então comecei a orar em línguas mentalmente, pedindo socorro ao Espírito!
– Puxa vida! Eu sinto muito, senhora! Se me permite de dizer, Deus quer que você saiba que este seu irmão justo morreu dando a vida por este outro irmão que, aos nossos olhos, não tem mais jeito. Deus permitiu essa tragédia para dela tirar um grande bem: o bem da intercessão dos santos! Este sangue derramado salvará a sua família! Perdoe o motorista que causou esse acidente e junte-se ao seu irmão no céu no trabalho de salvação contínuo que Deus quer realizar na sua família!
Em lágrimas, a mulher não tinha mais palavras e eu fui impelido a pedir para impor minhas mãos sobre seus ombros e rezar por ela baixinho. Quanto mais eu rezava, mais ela chorava. Era clara a libertação que Deus estava operando no coração daquela mulher; sentia que naquelas lágrimas um novo sentido de vida emergia de seu interior, e a graça do perdão era derramada em profusão em sua vida. Bendito seja Deus!
Ao mesmo tempo que eu rezava, já estava bem preocupado com as pessoas olhando ao redor! Um homenzarrão, alto e forte, preocupado que eu pudesse estar incomodando a passageira, perguntou se ela precisava de alguma ajuda e se eu estava a incomodando. Graças a Deus ela disse que estava tudo bem e eu não fui posto a chutes para fora do ônibus!
Acontece que, sem perceber, o engarrafamento que demoraria pelo menos uma hora, desapareceu e minha parada já seria a próxima!
– Senhora, não se esqueça do que Deus falou para você essa noite. Busque conhecer mais o Senhor. Visite nossa Comunidade Shalom, você será muito bem-vinda e descobrirá muito mais da bondade de Deus! Deus te abençoe.
E desci. Lancei a semente, como aquele filho que diz não vai ajudar o pai, mas no fim, acaba cedendo e permanece unido a Ele na missão de evangelizar. Quanto a mulher, nunca mais a vi, mas tenho certeza de que, pela graça de Deus, ela nunca mais será a mesma!
E que eu me lembre sempre: ônibus foram feitos para evangelizar!
