1. Leitura (“buscai lendo”)
A leitura e o estudo de uma passagem escolhida é a base de toda a Lectio divina. Abrimos o texto com muito respeito. Neste momento, cada letra, cada sinal da Escritura vale muito. Os antigos veneravam as escrituras quase como a própria Sagrada Eucaristia, não se pode deixar perder nem uma migalha.
O respeito ao texto expressa-se na renúncia à imposição de qualquer idéia prévia, a deixar de lado ou adaptar seja o que for. Queremos que este brilhe, que fale. Buscamos uma leitura objetiva, cuidadosa, humilde, estando conscientes da nossa ignorância e da nossa necessidade dela. Sucede, por vezes, que se trata de uma passagem já conhecida. Então é necessário dizer como Sta. Teresinha: “Muito me vale ler mil vezes os mesmos versículos (do Evangelho) , porque de cada vez encontro neles um sentido novo.”
O que há que fazer é ler lentamente e em voz audível desde o começo até ao fim, relê-lo e voltar a lê-lo uma vez mais. Pouco a pouco os detalhes vão aparecendo e cada palavra vai fazendo sentir o seu peso. As letras convertem-se em imagem, começam a falar e nós vamo-nos apropriando delas.
A leitura é também o momento de realizarmos o nosso próprio estudo do texto. Há muitos estudos já feitos, que podem ser úteis. Sem dúvida, o importante é que esta é a nossa vez, e que vale muito ser curiosos, inquietos, insatisfeitos. Entramos na Escritura como pesquisadores, como dizia São João da Cruz: “sem outra luz e guia a não ser a que no coração ardia” (Subida,3).
A nossa preocupação, neste primeiro movimento, é perguntarmos:
O que diz o texto?
Quatro indicações simples nos podem ajudar:
a) Entender
- Sublinhar as frases que causam maior impacto.
- Subdividir o texto: quantas mais vezes subdividido, melhor. É como o pão que se come em pedacinhos. Ex.: Mt 5,17-48 (“Ouvistes o que foi dito… Mas eu vos digo…”); Mt 5,1-12 (“Bem-aventurados … porque…”); Mt 28, 16-20 (vv. 16-17: narração, verbo na 3ª pessoa, sujeito são os discípulos; vv. 18-20: discurso direto, sujeito é Jesus); Jo 9 (os personagens aparecem de dois em dois).
- Distinguir quem fala e de que coisa se fala: se é um narrador ou um ator, quem é este personagem, quais são as suas características. Nunca será a mesma coisa quando Jesus fala e quando outro personagem fala. Ex.: Lc 4,1-13 (perceber que Jesus e o demônio citam a Palavra de Deus, mas na boca do primeiro ela assume a sua verdadeira interpretação, na boca do inimigo ela é distorcida recebendo uma falsa interpretação); Jo 9; Ap 1,9-20 (perceber que as palavras do Filho do Homem continuam até 3,22); 1 Cor 7,8-10 (prestar atenção o que Paulo diz como pessoa e o que escreve da parte de Deus).
- Aplicar a nossa própria prática de leitura: para tratar de intuir o que é o fundamental e o que é o secundário. Aplica-se tudo o que se sabe.
b) Aprofundar
- Fazer perguntas pertinentes sobre o texto. Ex.:
- Lendo Mt 28,16-20 pode surgir a seguinte pergunta: Porque Mt não narra a ascensão? R. Porque para o primeiro evangelista Jesus ressuscitado permanece na sua Igreja, ele é o Emanuel (cf. Mt 1,23).
- Em Lc 4,13 se diz que o diabo afastou-se de Jesus até o tempo fixado, que momento é este? R. Lc 22,3.53.31-33
- Por que Lc coloca a pregação de Jesus na sinagoga de Nazaré antes da sua ida a Cafarnaum, contrariando a ordem de Mc e Mt (cf. também Lc 4,23)? R. Porque Lc quis fazer deste episódio o resumo programático de toda a atividade missionária de Jesus.
- Ler as anotações da versão que temos. Ex.: Nota v de Lc 4,16 (TEB); nota t de Lc 4,13 (TEB); nota x de Jo 2,4 (TEB).
- Consultar os possíveis textos paralelos ou outras referências que estejam indicados na versão. Ex: Lc 4,16-30 // Mt 13,54-58; Lc 4,1-13 // Mt 4,1-11; Mt 19,9 // Mc 10,11-12; Mt 5,1-12 // Lc 6,17-26); Lc 4,13 e 22,3.
- Perceber o contexto próximo no qual se coloca a passagem lida. Ex.: O contexto de Lc 4,14-30 é importante porque é o início da missão oficial de Jesus, assumindo assim um significado programático para tudo o que segue; também é importante o contexto de Mt 28,16-20: conclusão e chave interpretativa de todo o Evangelho, últimas palavras de Jesus (testamento do Ressuscitado).
- Remeter a algum comentário, quando o temos à mão. Ex.: ler comentário de Pesch sobre Mc 13,33-37.
c) Sentir o texto
- Dar espaço ao coração enquanto sede dos sentimentos. Talvez haja uma frase que, ainda que seja secundária, nos tenha causado impacto. Sublinhar as frases que causam maior impacto.
Deus me fala nela. O importante é respeitar o seu sentido dentro do contexto: que seja o que ela me diz e não o que eu quero que me diga. Respeitar o sentido literal do texto é a primeira regra da leitura da Bíblia.
d) Apropriar-se do texto
- Ler em voz alta a passagem. Deste modo poderemos sentir melhor a emoção das palavras, o seu ritmo, a sua respiração, os seus ênfases, os seus silêncios. Cada página da Bíblia tem a sua originalidade. Este exercício nunca nos cansará.
- Repetir uma frase ou uma idéia que sintetiza a nossa leitura. Repeti-la até memorizá-la.
- Tratar de representar o texto na nossa imaginação ( quando a passagem é narrativa): com uma representação da cena, colocando-nos na pele dos personagens. Um pouco de fantasia dá-nos a sensibilidade do texto. Que teríamos dito nós? Como nos teríamos comportado?
- Escrever de novo a passagem: é uma prática antiga que ajuda à identificação com o texto. Dizia Cassiano: “penetrados dos mesmos sentimentos com que foi escrito o texto, nós revivemos, por assim dizer, os seus autores.
Existem muitos outros recursos que podemos utilizar para o nosso estudo do texto. Não é necessário que o façamos todos. Basta usar aquilo que seja útil para ler, entender e apropriar-se do texto.
Este momento de estudo é tão rico, que corre o perigo de estender-se indefinidamente sem chegar a tirar o fruto espiritual da leitura. Por isso, há um momento que é preciso deter-se.
Quando parar? Demo-nos o tempo suficiente para o estudo pessoal do texto. Mas uma vez que este começa a ser nosso, quando uma idéia fica incomodando e começa a ressoar em nosso coração, é o momento de parar. Esta é a idéia que será o centro da nossa Lectio, a que será a manifestação do Amor do Senhor para nós.
Já estamos no segundo movimento. É o momento de fechar a bíblia e inclinar a cabeça diante do Senhor.
2. Meditação (“encontrareis meditando”)
A meditação é o efeito natural da leitura. Vem de dentro da leitura a partir do momento em que esta começou a produzir impacto em nós, fazendo com que não só falemos do texto como também de nós mesmos. A Palavra de Deus torna-se nosso espelho.
Todavia, a meditação faz-se com a Palavra ainda quente, ressoando no coração. Todo este movimento realiza-se na interioridade. Há quem o compare com o começo da gestação. Para São Clemente de Alexandria parecia-lhe ver o leitor que entrava na meditação como o beija-flor, que depois de picar as flores se recolhe para deixar que o néctar se transforme em alimento.
Na lectio divina a meditação tem características próprias, que a distinguem daquela outra que é especulação mental. Aqui se aproxima mais ao estilo do povo da Bíblia. Israel e os primeiros cristãos não eram propriamente um povo de filósofos nem de eruditos. A sua preocupação era tratar de captar a atualidade de Deus no seu caminhar, nos sucessos de todos os dias, para viver em sintonia com Ele e para dar novos passos segundo a sua vontade. É uma atividade lenta e cansativa. Por isso Cassiano preferia falar de “ruminar” a Palavra, isto é, de saboreá-la lentamente.
O povo da Bíblia sabia meditar “unindo cabos”, tratando de descobrir como unir uma coisa a outra, perscrutando o sentido dos acontecimentos, a lógica do atuar de Deus no meio de tudo, “a verdade oculta”, como disse Guido.
Também nós, “atando cabos”, podemos ver como “esta Escritura, acabada de ouvir, se cumpriu hoje” (Lc 4,21). A Palavra descobre assim a sua atualidade permanente, começam a cair os véus. Pela meditação entramos na comunhão com a mesma experiência espiritual do Povo de Deus da Bíblia e do Povo ainda peregrino na história da Igreja. Também o fazemos com tantos irmãos que cada dia procuram interpretar a sua realidade e impulsionar o seu caminhar para o Senhor a partir da Palavra de Deus (ver At 17,11)
Para fazer a nossa meditação, deixamo-nos orientar pela pergunta chave:
O que me diz o texto?
Para responder “atamos cabos” a dois níveis:
a) Associamo-la com a vida
Assim o fazia Maria, que confrontava o anúncio do Anjo com a sua própria vida (ver Lc 1,34)
- primeiro resultado é um melhor conhecimento de nós mesmos. Vemo-nos à luz de Deus, com o olhar de Deus. Emerge a história dos nossos sucessos, do nosso caminhar na direção de Deus, ou, talvez, um pouco a contra direção.
- Quando a palavra doce se torna ácida (cfr. Ez 3,3), é sinal de que se apreendeu a Palavra. É próprio dela colocarmo-nos à beira das crises , porque é espada de dois gumes que “penetra os sentimentos e pensamentos do coração” e nos deixa “nus e descobertos”diante de Deus (Hb 4,12-13)
- Neste estar despidos diante de Deus, a Palavra revela-nos que Deus é maior que o nosso pobre coração (Ver I Jo 3,20) b) Associamo-la com outros textos já conhecidos
Faz-se como “coleta” de outros textos bíblicos já conhecidos, que agrupamos ao redor da confissão de fé da Igreja. Isto permite que a Palavra se faça ainda mais viva e mais clara.
- Realizamos este exercício recordando dois princípios: “a unidade da Sagrada Escritura” e que “a Bíblia explica a Bíblia”. Um destes princípios é conseqüência do outro.
- É preciso levar em conta que não se busca a quantidade, mas sim a qualidade do alimento.
Deste modo o movimento da meditação faz com que se encurtem as distâncias: entre a experiência do povo de Deus e a minha, entre o ontem do texto e o hoje da sua mensagem, entre a Palavra e a Vida. E, certamente, com o próprio Deus, seu Autor, de quem agora ouvimos a Sua voz viva e atual, pela qual nos dá a conhecer o que quer de nós.
Fazemos a experiência de que “perto de Ti está a Palavra: em tua boca e em teu coração para que a ponhas em prática”(Dt 30,14) e de quem “põe as suas complacências no Senhor, medita a sua lei (sussurra) dia e noite”(Sl 1,2).
Pode-se prolongar a meditação ao longo de todo o dia, deixando assim repousar a Palavra em nós, ouvindo continuamente o seu “sussurro”, experimentando o efeito do contato prolongado.
O importante é que procuremos deixar todo o tempo necessário para que a Palavra faça o seu efeito, para que a semente cresça “ainda que não saibamos como”(ver Mc 4,27)
3. Oração (“chamai orando”)
A oração brota espontaneamente da meditação. A Escritura foi a nutriz que nos levou pela mão até à vizinhança da voz de Deus (cfr. Jo 10,4).
Sem dúvida que já nos encontrávamos orando desde o começo. Neste espírito fizemos a leitura e a meditação, nesta atitude acolhemos a ação do Espírito Santo, inspirador da nossa Lectio.
Se a meditação se podia comparar à concepção, a oração pode comparar-se ao parto. pela Palavra. Ali expressamos tudo o que surgiu em nossa interioridade. E “o A oração é levar até fora, por meio dos lábios, o grito do nosso coração abrasado Espírito vem em ajuda da nossa fraqueza, pois nós não sabemos como pedir para orar como convém”(Rm 8,26). Ele faz palavra o que permanecia como gemido interior (Rm 8,23) e orienta o nosso grito até Deus que se revelou em Jesus de Nazaré com rosto de “Abbá, pai”(Rm 8,15).
A nossa oração não se encerra nos limites de uma relação pessoal e exclusiva com Deus. É também a voz da criação inteira que clama pela sua libertação para “participar na gloriosa liberdade dos filhos de Deus”( Rm 8,21). A oração que brota da Lectio é oração aberta à realidade eclesial, à vida do povo. Os seus gemidos são também os nossos.
É como nos Salmos. Eles têm sempre à vista uma realidade concreta, rezam a Palavra e a vida. Na Lectio a nossa oração é sempre sálmica, porque é a resposta criativa à pergunta:
O que me (nos) faz dizer o texto?
Como é espontânea e criativa, não poderemos dar muitas indicações , apenas destacar que a quatro níveis típicos em que se pode viver essa experiência:
a) A compulsão do coração
A verificação da nossa debilidade física, moral e intelectual, pode, inclusive, levar-nos até ao “batismo” das lágrimas, porque nos sentimos desproporcionados ante o imenso Amor de Deus. Não somos Deus, somos Adão. E, como ele, sentimos vergonha, mas não nos escondemos. Orígenes dizia: “O Senhor atormenta-te com uma flecha de Amor” (Comentário do cantar).
b) A súplica
Como o cego bartimeu, exclamamos: “tem compaixão de mim!”(Mc 10,47). Cada um pode recriar e repetir essa oração e compreender como Deus o ama. Temos a certeza de que sempre que nos foi dado o Pão da palavra recebemos igualmente tudo o que necessitamos para viver. O Pai não se esquece de nós. Mas, uma vez mais, antes de tudo a que nos pedir o Espírito Santo. Isto é o essencial (Lc 11,13).
c) O agradecimento
A afirmação de que Deus se fez meu próximo. Ele é meu amigo. O Senhor fez, está fazendo e continuará a fazer maravilhas em mim (Lc 1,49) A nossa oração faz-se Eucarística e será ainda mais bela quando a podemos unir à celebração do sacramento, fazendo a unidade entre o Pão da palavra e o Pão da Eucaristia.
d) A entrega
É o nosso “amém” à Palavra de Deus, aceitação total do seu querer sobre nós, como Maria: “Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38).
Assim, então, inspirados pelo Espírito, começamos a recitar o nosso próprio salmo. O nosso coração converteu-se em liturgia viva.
4. Contemplação (“…abrir-vos-ão contemplando”)
O que o texto realizou em mim?
É a oração em sua mais alta qualidade, em toda a sua pureza. Não é a experiência nem situação paradisíaca, mas o reconhecimento pacífico, manso, da vinda do Senhor à nossa incapacidade, à nossa pobre humanidade. É uma vinda que cura e restaura.
Havemo-la vivida pouco a pouco no processo, quando nos deleitávamos em a compreender. Agora existe um novo impulso no caminho oracional. Os místicos viram aqui o prêmio de todos os seus esforços: saborear o fulgor da Graça, mesmo que esta venha apenas como gotas de orvalho. É esse submergir-se na tremenda simplicidade e doçura no grandioso Amor de Deus, ou, como disse são João da Cruz: “Estar amando o Amado”
O movimento contemplativo, prolongado no tempo, é o que permanece na Lectio. Buscávamos a Deus e Ele veio com o Dom da sua palavra. Agora não há perguntas, apenas o gozo do receber. Há um pouco de luz e nela nos recriamos. O Dom da contemplação é o Dom da visão, como a que tiveram os peregrinos de Emaús (Ver Lc 24,31).
É uma visão na qual ousamos indicar três momentos:
a) A contemplação do Senhor Ressuscitado/ Crucificado
O cume da escala da lectio divina é também o cume do Gólgota. Ali encontramos o Senhor tal como se quis revelar na história. Como em Lucas 23,48, o que se aprecia não é um espetáculo teatral, mas a tragédia de Deus, uma tragédia de Amor pela humanidade. Vemos com os olhos neste grande mistério. O contemplativo é aquele que, por inspiração do Espírito, vê na Cruz a potência da vida, a salvação de Deus.
b) A compreensão da história à luz da Palavra
A partir do alto se vê o conjunto. Aprecia-se como se relaciona o que diariamente vemos fracionado. Desde a profundidade do mistério se vê a plenitude do Plano de Deus. É como se o Senhor nos interpelasse com as palavras do Apocalipse: “Sobe aqui, que te vou ensinar…”(Ap 4,1) Desde ali podemos ver vida no projeto de Deus : a vida de cada irmão, a vida do nosso povo, o que somos chamados a ser como obra das suas mãos. Descobrimos igualmente a nossa missão dentro desse projeto. Podemos ver, como numa transparência, a lógica dos acontecimentos, mesmo nos mais desgraçados e confusos- a verdadeira dimensão dos problemas e as suas possíveis soluções. A Contemplação é o Dom dos olhos novos para olhar a realidade. Ë a escola dos profetas.
c) A degustação do sabor de Ressurreição que envolve a vida
No gozo do Espírito (ver Gl 5,22) descobrimo-nos como homens novos, como novas criaturas. É o despertar da consciência batismal: A nossa vida é Jesus Crucificado- Ressuscitado, vivendo dentro de nós (Gl 2,20). A nossa união com Ele dispõe-nos a uma vida de amor, a empreender ações valentes, assumir a morte por Amor na espera da vida.
Neste espírito entrevemos os sinais de Ressurreição que existem em nós e no nosso povo. E os desfrutamos. Acreditamos na vitória, conhecemos a solidez da nossa esperança, saboreamos um pouco do “céu na terra”, como diria a Ir. Elizabeth da Trindade ou como o ouvimos dizer uma vez a mulher simples: “O céu começa aqui na terra quando nos damos conta que os sinais de Deus acompanham a nossa vida”.
A contemplação pode-se prolongar assim sustentada pela mais bela de todas as formas de oração: a adoração e o louvor. Mas sempre com os pés na terra, com um profundo realismo. É como diz Frei Carlos Mesters: “Em sonhos eu logrei contemplar um pouco de ressurreição, porque sempre existem as sombras do sofrimento e da luta. Vai demorar…”
Germana Perdigão
Comunidade de Aliança