Formação

Ouvidos de discípulo

comshalom

A profecia de Isaías focaliza uma perspectiva importante para que o povo reencontre o caminho de sua libertação, resgatando a ordem social e política e recompondo o tecido de sua moralidade. Esta profecia ecoou num tempo de grandes dificuldades. Fácil é perceber o quanto a soberba tinha sido o veneno que levara ao fracasso a vida de um povo. A soberba orgulhosa que destrói tudo, mesmo em meio a progressos e avanços. Um fracasso incontestável corroendo o que a inteligência humana conquistava. Este fracasso não poderia jamais ser debelado apenas com mais progressos e conquistas. As conquistas e progressos eram sempre menores que a avalanche destruidora da soberba orgulhosa. Aquela soberba orgulhosa que está no coração humano em todos os tempos e que provoca os mesmo efeitos daninhos e destruidores no caminho da sociedade, obscurecendo o verdadeiro horizonte e incapacitando para a percepção do que conta de verdade.

Esta soberba orgulhosa derruba poderosos e governantes, esvazia o sentido da vida de muitos, confunde o verdadeiro sentido das coisas, e é perversa com a sorte de todos, particularmente dos mais pobres e sofredores. No centro de toda esta confusão que se repete, de geração em geração, como agora neste tempo do terceiro milênio, com as sofisticações próprias e perversas de sua soberba orgulhosa, ecoa esta profecia indicando o caminho e a experiência para desmontar este mecanismo destruidor. Um mecanismo destruidor que brota, cresce e dá fruto em qualquer coração sem que se faça muito esforço e sem que se perceba. Não é raro encontrar quem se pensa humilde e simples, próximo, encharcado de orgulho e soberba por fazer conta de algum feito próprio e de se considerar como ícone de alguma coisa e referência em alguma realidade. Esta é a vala que está enterrando a humanidade em contraponto com suas conquistas e avanços pela perda de um sentido mais profundo, ancorada que está na ilusão do poder e do dinheiro, do mando e dos avanços tecnológicos.

A indicação da profecia de Isaías parece simples. Tão simples que pode facilmente ser desconsiderada por parte de quem detém poderes, o domínio intelectual, a segurança das posses e o estar cheio de si mesmo. A profecia diz: “Toda manhã o Senhor desperta meus ouvidos para que, como bom discípulo, eu preste atenção. O Senhor Deus abriu-me os ouvidos” (Is 50,4-5).

O Documento de Aparecida, fruto da V Conferência Geral dos Bispos da América Latina e do Caribe, maio de 2007, focaliza esta experiência de discipulado como central e insubstituível, mostrando a aposta que a Igreja Católica faz, dando continuidade e, ao mesmo tempo recapitulando seu caminho de fidelidade e o sentido do seu serviço evangelizador para ajudar a humanidade contemporânea a reencontrar o seu caminho. Este serviço evangelizador é para fazer de todos discípulos e discípulas, qualificando os que pertencem e professam a fé como membros da Igreja, e para ofertar à humanidade inteira a possibilidade desta experiência. Esta experiência é de escuta. Escutar não é tão fácil. Não é fácil porque se fala muito, a respeito de tudo. O tempo todo tudo está preenchido por muitas falas. A superficialidade medra em tantas falas. Uma superficialidade que nasce, apesar de tanto para ser ouvido, particularmente quando se trata das dores e sofrimentos dos outros, especialmente os mais pobres, porque não se sabe ouvir.

Pensando o Evangelho de Jesus Cristo, o conjunto dos seus verdadeiros discípulos, no centro está, incontestavelmente, Maria, a Mãe de Jesus, perfeita discípula e pedagoga da evangelização. É perfeita discípula porque escuta. Escuta o seu Deus e diz o seu sim que se transforma, para além de qualquer interesse, em serviço à vida, aos outros. Só a capacidade de escutar se contrapõe diametralmente, e com força de vitória, à soberba do mundo contemporâneo, das instituições todas, mesmo as religiosas. Só o exercício do discipulado como escuta pode capacitar à inteligência humana a ultrapassar os limites da racionalidade e ordená-la na direção dos valores que respeitam a vida e compreendem o seu verdadeiro sentido, e a dinâmica mística de sua conquista definitiva.

A conquista definitiva da vida, e da vida definitiva, tem um caminho. É preciso admitir com humildade. Do contrário, corre-se o risco de continuar vendo o cenário em que a vida vai desabando mesmo no afã de sua construção. Este caminho tem um nome, é uma pessoa, Cristo Jesus. Ele é a pérola preciosa (Mt 13,45-46), um tesouro incalculável. É uma pessoa. Supõe o cultivo de um relacionamento comunitário, pessoal e íntimo. É preciso recomeçar sempre, cada dia, a partir de Cristo, pois Ele, como diz o Papa Bento XVI na sua Carta Encíclica ‘Deus é amor’, é quem “dá um horizonte novo à vida e, com isso, uma orientação decisiva”.

Dom Walmor Oliveira de Azevedo
Arcebispo de Belo Horizonte (MG) e presidente da Comissão Episcopal para a Doutrina da Fé da CNBB

Fonte: Site CNBB
—-> ronaldshalom


Comentários

Aviso: Os comentários são de responsabilidade dos autores e não representam a opinião da Comunidade Shalom. É proibido inserir comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem os direitos dos outros. Os editores podem retirar sem aviso prévio os comentários que não cumprirem os critérios estabelecidos neste aviso ou que estejam fora do tema.

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *.

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *