Formação

Palavra de Deus: uma carta de amor

Este é o primeiro de quatro publicações sobre a Palavra de Deus, em que Germana Perdigão nos ajuda a mergulhar na Lectio Divina!

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Para falarmos de lectio divina, leitura orante da Palavra de Deus, precisamos antes aprofundar o que é a Sagrada Escritura. 

A Bíblia é antes de tudo uma mensagem de Deus ao homem. S. Agostinho fala de uma carta que o Senhor nos escreveu. A Dei Verbum retomando este dado da Tradição afirma: “nos livros sagrados o Pai que está nos céus vem muito amorosamente ao encontro dos seus filhos e conversa com eles” (DV 21). Podemos então dizer que a Bíblia é uma carta de amor que o Senhor nos escreveu. Nesta carta Deus fala de si mesmo, como uma pessoa que abre seu coração a seu amigo e se dá a conhecer na sua intimidade. Mas Deus vai além, Ele convida seus amigos a participarem de sua vida, de sua intimidade. Naquele escrito amoroso o Senhor nos chama a uma vida de comunhão com Ele (cf. DV 2).

Uma imagem poderia nos ajudar a entender melhor esta comparação. Digamos que sua (seu) noiva(o), a quem você ama muito, foi enviada em missão de trabalho para o coração da floresta amazônica. O único meio de comunicação que se dispões é o correio, quando o carteiro não se perde pelo caminho ou é devorado por algum animal selvagem. Após três meses você não recebeu nenhuma resposta às noventa cartas que você enviou. Após 4 meses finalmente chega uma carta da(o) sua(seu) amada(o). O que você faria então? Será que você vai fazer um belo altar e coloca a carta lá com uma vela na frente sem nem mesmo lê-la? Acho que o mais normal seria abri-la imediatamente e devorar o seu conteúdo. Depois que terminasse de ler a primeira vez, iria ler uma segunda e uma terceira vez. Depois ia ler lenta e cuidadosamente para ver o que conseguia descobrir nas entrelinhas. Com certeza, depois de tantas leituras, chegaria a decorar partes dela. Por que não fazemos a mesma coisa com a carta de amor que o Senhor nos escreveu?

Escrita na nossa linguagem

Mas imagine se sua (seu) amado tivesse escrito em chinês, seria muito difícil entendê-la, seria preciso buscar um tradutor. Imagine se a carta que você recebeu da parte de Deus fosse escrita na linguagem própria de Deus, na linguagem divina, seria impossível compreender alguma coisa e não encontraríamos tradutor capacitado para nos fazer conhecer seu conteúdo. Por isso Deus escolheu nos falar segundo a nossa linguagem. Ele “aprendeu” a se comunicar da nossa maneira para que pudéssemos entendê-lo. Veja quanta delicadeza da parte de Deus. A Dei Verbum fala sobre isso com palavras muito bonitas: “As Palavras de Deus, com efeito, expressas por línguas humanas, tornam-se intimamente semelhantes à linguagem humana, como outrora o Verbo do eterno Pai, tomando a carne da fraqueza humana, se tornou semelhante aos homens” (DV 13). Este é o mistério do amor de Deus por nós.

Jesus, a única palavra da Escritura

Talvez você me diga: “Que carta grande! Deus não poderia ter escrito algo menor?” O tamanho da carta revela o tamanho do amor e da saudade que uma pessoa tem pela outra. Este é o tamanho do amor de Deus por você. Além disso, atrás de todos e de cada livro da Sagrada Escritura, atrás de cada frase nós encontramos uma única palavra: Jesus! É o que Santo Agostinho afirma: “Lembrai-vos que é uma mesma a Palavra de Deus que se ouve em todas as Escrituras, é um mesmo o Verbo que ressoa na boca de todos os escritores sagrados, ele que, sendo no início Deus junto de Deus, não tem necessidades de sílabas, por não estar submetido ao tempo”.

Por isso, nós lemos a Sagrada Escritura para buscar Cristo escondido nos livros, nas frases, nas expressões, nas palavras… inspiradas. Não lemos para conhecer mais, para nos tornamos mais inteligentes, mas para termos um encontro pessoal com o Filho de Deus. Lemos a Palavra de Deus para nos encontrar com o Deus que nos fala hoje.

Alimento espiritual (“o pão da Palavra e o pão Eucarístico”)

“Eu não sou nem protestante para ficar lendo a Bíblia, eu já tenho a Eucaristia que é mais importante”. Alguns católicos, ainda que não digam, pensam assim. Mas será que isso é verdade?

Encontramos a resposta na vida e na doutrina da própria Igreja. Olhemos para a santa missa. Nela a Igreja tem o cuidado de preparar para seus filhos não só a mesa da Eucaristia mas também a mesa da Palavra. Não existe preeminência de uma sobre a outra. Além disso a Dei Verbum vem em nosso auxílio dizendo a Igreja sempre venerou as divinas Escrituras como venera também o corpo do Senhor (cf. DV 21). Por fim, temos a ajuda de S. Jerônimo que diz: “Comemos a carne e bebemos o sangue de Cristo no mistério (da eucaristia), mas também na leitura das Escrituras (…) Para mim penso que o Evangelho é o corpo de Cristo”.

Como você percebe pela doutrina e vida da Igreja, a Palavra de Deus é tão importante quanto a Eucaristia para nossa vida espiritual. Precisamos nos alimentar do pão da Palavra e do pão Eucarístico. Vamos aprofundar um pouco mais esta questão.

  1. Jerônimo faz uma afirmação que para uns pode parecer escandalosa, mas é verdadeira: “a ignorância das Escrituras é a ignorância de Cristo”. Se fui tocado pelo amor de Deus, se fui resgatado por seu Filho, como não vou querer conhecê-Lo para poder amá-Lo também? Alguns dizem que amam a Deus, que oram todos os dias a Ele, mas se perguntamos se leem as Escrituras respondem, “quando vou a missa nos domingos”, ou quando alguém ler no meu grupo de oração e explica. Mas a quem estou amando e orando se não conheço as Sagradas Escrituras? Estou amando e rezando a um Deus desconhecido? Um Deus fruto da minha imaginação, das minhas necessidades e traumas? Será que não estou rezando a mim mesmo e amando a mim mesmo? Precisamos considerar seriamente esta hipótese se não tenho costume de ler a Palavra de Deus com a mesma freqüência que faço minha oração. É preciso orar todos os dias como também ler a Sagradas Escrituras com a mesma frequencia.

Nas Sagradas escrituras a Igreja, e cada fiel, encontra a sua força e seu alimento porque nela não se colhe a palavra humana, mas a Palavra de Deus (cf. DV 24). “Com efeito, nos livros sagrados, o Pai que está nos céus vem amorosamente ao encontro dos seus filhos, a conversar com eles” (DV 13).

A Palavra na Liturgia

A carta de amor que Deus nos escreveu foi dirigida primeiramente aos autores sagrados e foi fixada em um escrito para que ela pudesse se tornar instrumento de salvação para todos homens até o final dos tempos. Para que a Sagrada Escritura possa se tornar este instrumento é preciso que ela deixe de ser apenas um códice escrito, letra, e passe a ser Palavra viva.

O lugar privilegiado onde a Bíblia se torna Palavra é a liturgia: “Quando se lêem as Sagradas Escrituras na Igreja, o próprio Deus fala a seu povo, e Cristo, presente em sua Palavra, anuncia o Evangelho”. A Palavra se torna poder de Deus, capaz de criação, de santificação, de cura, de recriação.

Neste momento seria interessante estudarmos dois textos bíblicos, um do Antigo e outro do Novo Testamento, que mostram uma verdadeira liturgia da Palavra.

O primeiro encontramos em Ne 8. O povo, tendo retornado do exílio, se reúne em assembleia para uma solene liturgia da Palavra. Não só os homens, mas também as mulheres e criança podem participar deste momento. Esdras, de pé no estrado de Madeira, o que para nós seria o ambão, abre o livro aos olhos de todos (v. 4s). Neste momento todos ficam de pé. Esdras louva a Deus e todo o povo, erguendo as mãos, aclama “Amém, amém”. Depois se prostram em adoração ao único e eterno Deus (v. 6). Em seguida os levitas liam e explicavam a lei (v. 8). Louvor, gestos, prostração, adoração, escuta, explicação… Que beleza de liturgia, de participação de encontro com o mistério, com o próprio Deus. Quando o homem entra em contato com o divino ele não consegue fazer outra coisa que chorar, arrepender-se de seus pecados (v. 9). Através da Palavra Deus toca os corações dos fiéis e neles penetra. “Mas a Palavra do Senhor deve levar a lagrimas salutares; ela é uma semente lavrada nas lágrimas para uma colheita na alegria. Então eis a palavra de consolo:” “Este dia é consagrado ao Senhor, vosso Deus. Não estejais de luto nem choreis” (Ne 8,9). 

Em Lc 4, 16-22 temos um verdadeiro exemplo de liturgia sinagoga. Como de costume, Jesus foi a sinagoga no dia de Sábado. Tendo sido escolhido para fazer a leitura e sua explicação, ele se levanta, recebe o rolo do profeta Isaías e encontra a passagem que fala do Espírito do Senhor (Is 61,1). Terminada a leitura ele entrega o livro, senta-se e começa sua homilia, curta mas eficaz, ao ponto de deixar seus ouvintes atônitos: “hoje, esta escritura se realizou para vós que a ouvis” (v. 21). Na homilia a palavra de Isaías encontra em Jesus um hoje porque ele realiza em si o que ela dizia e porque atualiza aquelas palavras que tinham muitos séculos de vida. É isto que se deve fazer a cada homilia e a cada lectio divina, encontrar o hoje da Palavra de Deus. “Se sabemos compreender assim a antiga palavra, nós a tornamos atual, contemporânea, e compreendemos então a significação da Palavra de Deus em toda a sua plenitude”. Mas só em Cristo nós conseguiremos encontrar o hoje da Palavra.

“A liturgia da Palavra possui então uma primazia indiscutível, porque nenhuma palavra da Escritura é objeto de interpretação pessoal (cf. 2Pd 1,20), e toda lectio divina pessoal deve encontrar na liturgia da Palavra seu termo final; ela deve ser, em relação a esta, ao mesmo tempo, preparação e prolongamento”.

Embora a liturgia da Palavra tenha a primazia sobre qualquer contato pessoal com a Escritura, este permanece indispensável pelas seguintes razões:

  1. Porque existe uma Palavra de Deus implícita nas Escrituras que é dirigida a cada um de nós pessoalmente. É uma palavra que percebemos de maneira pessoal, que não se tornará palavra escrita, mas que continua a ser Palavra de Deus. Quando Paulo escreve: “Sobre o amor fraterno, não tendes necessidade que vos escreva, pois vós mesmos aprendestes de Deus a vos amardes uns aos outros” (1 Ts 4,9); e quando João diz: “Nos profetas está escrito: ‘Todos serão instruídos por Deus’” (Jo 6,45), eles revelam que há possibilidades de uma Palavra de Deus dirigida diretamente ao homem. O lugar privilegiado para esta escuta não seria lá onde se reza a palavra?
  2. Porque a lectio divina é a preparação para a liturgia. Se a Palavra for recebida sem fé, sem amor e sem conhecimento, ela não vivifica mais, torna-se para nós palavra morta. As passagens escolhidas pela Igreja para o lecionário são o mínimo para vivência da fé, mas é preciso conhecer toda a Palavra para a saborear em profundidade.
  3. Porque a Lectio divina personaliza a Palavra proclamada. Na liturgia Deus fala ao povo, mas isto é apenas o começo e a causa do que deve tornar-se um encontro pessoal com Deus. Se no texto Deus chama Abraão (cf. Gn 17), esta chamada deve tornar-se uma voz que repete meu nome. Deus muda o nome do homem (cf. Gn 17,5), mas esta mudança que me sugere o texto, devo senti-la em mim mesmo. O diálogo coletivo com o povo na liturgia deve tornar-se diálogo individual, pessoal, na lectio divina.

“Alguns dentre vós dizem: ‘Não sou monge, tenho mulher, filhos e negócios do meu lar pelos quais sou responsável!’. Mas aí está o que destrói tudo: você estima as leituras das divinas Escrituras reservadas só aos monges, quando ela seria bem mais necessária a você que a eles. Quem vive no mundo, e aí recebe cada dia feridas, tem muito maior necessidade de remédios. Também há um mal maior do que não ler, é acreditar que a leitura é vã e inútil”. Estas palavras de São João Crisóstomo são muito fortes e nos levam a refletir seriamente. Se você tiver oportunidade partilhe com algum irmão de caminhada sobre esta realidade.

Até a próxima semana! 

Germana Perdigão


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