Formação

Papa São Gregório VII, o profeta da verdade até o fim

Celebrado no dia 25 de maio, o santo foi exilado em Salerno, onde morreu mártir. À beira da morte, retrata a síntese da sua existência: “Amei a justiça, odiei a iniquidade e, por isso, morro no exílio”.

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No ano de 1020, na cidade de Soana, região toscana da Itália, nasce Hildebrando, que viria a ser um grande instrumento da graça. Essa alma esposa de Deus veio de uma família pobre e simples, porém, esse ambiente, talvez pouco atrativo para alguns olhares mundanos, foi o espaço escolhido para a ação da graça de Deus. Esse servo, desde muito jovem, sentia-se misteriosamente atraído por espaços propícios à oração e à solidão. Por isso, não demorou muito para que encontrasse seu lugar na Igreja. Pediu ingresso e foi acolhido no mosteiro de Cluny, tornando-se monge beneditino.

Suas autoridades, vendo a capacidade intelectual que tinha, discerniram que ele deveria estudar. Por isso, iniciou seus estudos em Laterano, onde rapidamente se destacou por uma inteligência sólida e uma fé aguçada e profunda. Logo tornou-se presbítero, bispo e foi nomeado cardeal.

Hildebrando desempenhou o serviço de auxiliar direto de dois papas: Leão IX e Alexandre II, de modo que era profundamente respeitado pelo colégio cardinalício. Assim, com o falecimento de Alexandre II, em 1073, esse servo fiel foi rapidamente aclamado papa, tanto pelo povo, quanto pelo clero, assumindo o nome de Gregório VII.

Entre outras coisas, esse pastor fiel lutou incansavelmente por reformas significativas na Igreja. Essas reestruturações tornaram-se conhecidas por Reformas Gregorianas. Ele sentia muito pesar pela decadência dos costumes da sociedade. Essa crise atingia não apenas os setores laicos, mas também a Igreja, por meio da confusão entre poderes e influências seculares com os cargos eclesiásticos. Isso gerou grandes estragos e desvios de conduta e de interesses, mesmo entre o clero.

Um forte instrumento da graça

Apoiado por Pedro Damião, um outro grande servo, que mais tarde seria declarado santo e doutor da Igreja, Gregório colocou-se firme e energicamente contra essas ameaças à fé e à disciplina da Igreja. Não demorou muito para que surgissem conflitos, choques e represálias dos poderosos deste mundo, em particular, por meio do orgulhoso e prepotente imperador Henrique IV.

Na época, os monarcas podiam opinar sobre os candidatos ao alto clero. Henrique então, não poupava suas manobras de poder para conferir funções eclesiásticas a candidatos desejáveis a seus interesses. Atento em agradar mais a Deus do que aos poderosos deste mundo, Gregório apropriou-se das promessas que Jesus fez a Pedro: “As portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16,18) e excomungou o Imperador.

Um rei excomungado não teria mais a benção de Deus. Esse era o entendimento do povo. Assim, em qualquer crise econômica, militar ou sanitária, a população associaria o mal recebido à infidelidade do seu Monarca a Deus. Essa sensibilidade de fé da população diante da autoridade absoluta de Deus fez com que o monarca se rendesse. Ele então se humilhou, pediu perdão e sua excomunhão foi revista. Esse acontecimento histórico ficou conhecido como o “Episódio de Canossa”.

Vítima da maldade de um líder do povo

Porém, para a tristeza e decepção do povo, o pedido de clemência do rei não passava de mais uma bem elaborada jogada política. Pouco tempo depois, o imperador realizou sua vingança, tirando Gregório VII do governo da Igreja e nomeando um falso pastor, um antipapa chamado Clemente III. Mesmo assim, Gregório VII continuou seu empenho e labor em vista das reformas na Igreja, enfrentando a ira do governante.

O papa Gregório VII foi, então, exilado na região de Salerno, onde foi cruelmente assassinado no dia 25 de maio de 1085. Ele tinha sessenta e cinco anos de idade. Esse gigante entrou para a história como o Papa da independência da Igreja e sua autonomia diante de ideologias, setores e partidos políticos. Sua última frase, na agonia da morte, foi uma bela e profunda síntese de sua existência e missão pessoal na terra: “Amei a justiça, odiei a iniquidade e, por isso, morro no exílio”. Não demorou para que muitos milagres fossem atribuídos à sua intercessão.

Esse servo fiel foi então declarado publicamente um santo da Igreja, pelo Papa Paulo V, no ano de 1606, e sua festa celebrada no dia 25 de maio. Que Deus nos conceda, por virtude de sua graça, um mergulho no testemunho dessa santa alma esposa, para que também nós não arrefeçamos ante a urgência de um testemunho ousado, criativo e fiel de Jesus, o Shalom do Pai entre nós.

São Gregório, servo santo e fiel de Deus, rogai por nós.


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