Parresia

Para quê, afinal, temos um corpo?

O que nos diferencia dos outros seres vivos? Qual é o significado do nosso corpo? São perguntas existenciais que todo homem, em dado momento, enfrenta, uma vez que vive no seu corpo e nada possui de tão próprio.

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Em João Paulo II, a “Teologia do Corpo” surge como fruto das suas catequeses proferidas na praça São Pedro entre os anos 1979 e 1984. Um dos temas abordados por João Paulo II de especial relevo é o corpo como expressão do amor. Para iniciar esse breve itinerário, vamos fazer um recorte inicial da pessoa humana e do mistério cristológico da corporeidade, para então pousar o olhar sobre a lógica do dom de si.

Para quê, afinal, temos um corpo? Como realizá-lo? O que nos diferencia dos outros seres vivos? Qual é o significado do nosso corpo? São perguntas existenciais que todo homem, em dado momento, enfrenta, uma vez que vive no seu corpo e nada possui de tão próprio. Para compreender o corpo humano é necessário compreender antes o mistério da própria pessoa.

De partida, o simples exercício de recordar uma pessoa se traduz, efetivamente, em lembrar daquilo que ela tem de mais exterior e notório, em trazer à memória os traços físicos, porque o homem vive no seu corpo. Ele é o que temos de mais único, pessoal, visível e irrepetível; é nele que se reconhece a identidade.

Num prisma antropológico e sociológico, perpassamos a noção de que existe uma lei natural inscrita no homem e, outrossim, que a pessoa humana é um ser social. Sem uma análise exaustiva, podemos antever que o ser humano está orientado a perpetuar a própria espécie e traz em si elementos como o impulso sexual e o instinto de sobrevivência.

Numa perspectiva, a seu turno, filosófica, o homem é um ser que busca aperfeiçoar-se e, nesse intento, não pode compreender-se sem a ideia de transcendência. Em suma, o homem não encontra a si mesmo sem uma visão que vá além de tudo o que existe nessa terra.

O corpo é o cárcere da alma

A concepção platônica de que o corpo é o cárcere da alma deu espaço para ideologias dualistas muito antigas, como o maniqueísmo. Nesse contexto, estava presente uma visão do bem e do mal associados à luz e às trevas – essa visão da pessoa humana, como era de se esperar, é do corpo que aprisiona a alma.

Num passado mais recente, as filosofias que distorcem a identidade do ser humano, afastando-o cada vez mais do que é essencialmente humano [1], da visão integral do homem; demarcaram uma história que ora negava ou desprezava o corpo humano (espiritualismo), ora sobrepujava seu valor, deformando-o com o mau uso da liberdade (materialismo).

É, portanto, num período sombrio, em que o significado do corpo humano sofre deturpações e é posto em dúvida, que o tom catequético e pastoral de João Paulo II, cumprindo seu múnus petrino, vem em auxílio do povo de Deus para esclarecê-lo sobre a verdade que pode realizar a sua natureza humana.

Traçamos esse sucinto fio condutor recorrendo algumas percepções do eu humano, uma vez que para chegar a uma visão antropológica adequada é preciso nos munirmos de uma lente apropriada.

Faz-se necessário reportar-nos à criação

Tendo sido chamado por Deus do barro da terra, o Senhor soprou sobre suas narinas, dando-lhe vida [2]. Portanto, para responder ao anseio do salmista “Quem é o homem?” [3], faz-se necessário reportar-nos à criação, pois lá está contida a fonte da revelação. Somente assim, no amor da Trindade, compreende-se o homem e sua identidade ontológica. Com efeito, seu ser teológico nasce da vocação a ser imago dei [4]. Há um chamado original que vem de Deus, intrínseco e impresso no homem.

Toda pessoa assume uma forma corporal. “Viver a condição humana é viver a corporeidade” [5]. O homem se liga à terra através do seu corpo. É nele que o homem a habita e povoa. A alma espiritual traz em si a identidade pessoal de cada homem. Nosso corpo, por sua vez, é corruptível, mas vocacionado à ressurreição [6]. Ambos se separam após a morte. Entretanto, nossa alma é imortal. O homem, assim, está vocacionado à eternidade. Isso se dá porque possui animus.

Com efeito, tudo o que se vive no corpo alcança, em profundidade, a alma espiritual. Como vimos, sendo o homem um ser relacional, suas experiências afetivas alcançam o seu ser inteiro e, por isso mesmo, a alma. Essas experiências formam a personalidade de base da pessoa. Podemos imaginar desde nobres experiências vividas no corpo às experiências que não trazem boas lembranças. Essa compreensão decorre da robusta unidade entre corpo e animus na própria estrutura da pessoa humana [7].

Este homem, sendo o único ser criado capaz de decidir (capacidade volitiva), de conhecer (capacidade intelectual), dotado de liberdade e responsabilidade – temáticas tão caras à João Paulo II –, é chamado à comunhão. Na sua identidade ôntica, o homem é relação. A visão integral do homem se desenvolve, portanto, a partir da unidade substancial entre corpo e alma [8].

É na relação com Deus, com o outro, com o criado e consigo mesmo que o seu eu recebe as cores que dão tonalidade ao homem inteiro, em sua identidade e singularidade. É dessa maneira que as experiências relacionais – e, por conseguinte, afetivas – negativas, podem desordenar o homem e marcá-lo para sempre.

O homem não foi criado para fechar-se

Compreendemos aqui um outro elemento: o homem não foi criado para fechar-se em si mesmo, dado que a sua própria metafísica humana está orientada para a comunhão relacional, para a alteridade. Este é o fim do homem e podemos dizer que é o remédio para a solidão original. Toda e qualquer ideologia, ao sustentar que o homem deve voltar-se para si mesmo para encontrar seu equilíbrio e sua paz é, por conseguinte, falsa.

Como segundo postulado, passemos à natureza do corpo humano. O relato da criação, em Gênesis, revela que Deus criou o homem e a mulher. A sexualidade humana não é um mero atributo, uma opção pessoal, um anexo da personalidade, mas é constitutiva de sua própria identidade e essência. É força, potência e energia direcionada ao outro, no dom singular da pessoa.

A diferença entre os sexos não deve jamais ser interpretada como oposição entre ambos, tampouco deve destacar uma dignidade maior sobre o outro, como nos levam a crer algumas ideologias. Na verdade, a estrutura psicofísiológica do homem e da mulher robustece a complementaridade que deve reger sua relação. Ademais, põe em evidência os limites do homem, sua necessidade do outro. Tal verdade manifesta, a seu modo, os próprios limites do ser humano e a sua insuficiência [9].

Vale destacar que a sexualidade não deve reduzir-se apenas à esfera do prazer, mas deve ser integrada à pessoa [10]. “Dar-se” é mais que “querer bem” […] o amor esponsal é ao mesmo tempo alguma coisa de diferente e de mais do que todas as outras formas de amor. Faz nascer o dom recíproco das pessoas [11]. Não é outra a razão pela qual João Paulo II inaugura a Teologia do Corpo, para mostrar-nos que o corpo não é somente o biológico, mas possui um significado intrínseco, santo, chegando a afirmar que o corpo humano, ao expressar o sinal visível da pessoa, revela uma realidade espiritual.

O corpo emite, qual sacramento divino, sinais da alma [12]. Assim, o corpo exalta o mistério da pessoa (mysterium personae) pelo fato de ser capaz de exprimir e receber amor e, por isso, fala também sobre Deus – que é amor [13]. Sendo templo do Espírito [14], criado para o Senhor e não para a impureza [15], o corpo humano exprime o amor de Deus. O que plenifica o homem, portanto, é amar. Não é numa busca insofreável de amor, no fundo disfarçado da busca de si mesmo, que pode saciar um coração que nasceu para se dar.

O significado esponsal do corpo

João Paulo II afirma que a liberdade está na base do significado esponsal do corpo, fazendo menção à desnudez original [16]. Em outras palavras, ele destaca a capacidade que o homem tem de doar-se. É a liberdade do homem, outrossim, traduzida pelo domínio de si que, através da sua vontade e inteligência, deve orientar seu ser para essa doação, convertendo-o em dom [17].

Uma vez que o homem acolhe o seu ser do próprio Deus, está apto para tornar-se dom e oferta para o outro. Não há doação sem aceitação de si. Não há aceitação de si sem conhecimento da Verdade para a qual fomos criados e orientados. Não há, em definitivo, verdade sem Cristo!
Através das noções apresentadas nesse breve artigo, conclui-se que a compreensão esponsal do corpo humano não pode ser entendida fora da lógica do dom.

Nesse itinerário antropológico, constatamos que o corpo humano é dom, que não nos pertence e está direcionado para a comunhão. Ele não pode ficar retido em nossas mãos sob pena de descaracterizá-lo, fragmentá-lo, desunificá-lo. Ele tampouco pode ficar preso nas mãos de outros, pois o dom da liberdade humana está profundamente atrelado ao conceito do corpo, robustecendo-o e dando-lhe finalidade verdadeiramente humana. Todo homem está chamado a consumar esse dom através de uma oferta esponsal. Dom e doação, portanto, é o binômio, podemos dizer assim, da esponsalidade.

Por fim, em Cristo Ressuscitado está também a redenção do homem [18], com a dimensão da graça, cujo papel é revirginizar o homem e limpar de toda mancha do pecado. É Cristo que redime os jovens, as famílias, cada homem. É Cristo que opera a redenção social nos tempos hodiernos, banhados por fortes influências contra a vida e, via reflexa, contra o corpo, devolvendo o sentido esponsal e originário do corpo humano, vocacionado ao Outro, aos outros, ao Céu.

Thiago Mesquita de Sousa
Advogado e pesquisador
Comunidade de Aliança Shalom

Referências

1 – Esta é a antropologia adequada utilizada por João Paulo II, contrária à visão reducionista naturalista, frequentemente atrelada à ideia de evolução: João Paulo II, Papa. A criação como dom fundamental e original. Audiência Geral, 2 jan. 1980.

2 – Gen 2,7: “O Senhor Deus modelou o homem com o pó apanhado do solo. Ele insuflou nas suas narinas o hálito da vida, e o homem se tornou um ser vivo.”

3 – Sl 8,5: “Quem é o homem, para que nele penses; e o ser humano, para que dele te ocupes?”

4 – Gen 1,26a: “Deus disse: ‘Façamos o homem à nossa imagem, segundo a nossa semelhança.’”

5 – Cf. MANICARDI, L. Il Corpo. Magnano: Sympathetica Qiqajon, 2005, p. 8.

6 – I Cor 15,42: “Semeado corruptível, o corpo ressuscita incorruptível.”

7 – Ao enfrentar a questão do que significa o corpo e a alma humana, Edith Stein afirma que o homem tem um corpo e uma alma pessoal: STEIN, E. La estructura de la Persona Humana. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos, 2007, p. 101.

8 – O desenvolvimento integral da pessoa humana e essa visão antropológico-filosófica o acompanhou durante todo o seu pontificado. Por isso mesmo foi um grande defensor dos direitos humanos. O próprio Concílio Vaticano II, no documento Gaudium Et Spes, apresenta essa visão.

9 – Cf. K. WOJTYLA, Amor e Responsabilidade, 38.

10 – Ibidem, p. 40.

11 – Ibidem, p. 86.

12 – Giovanni Paolo II, L’uomo e donna lo creò, p. 345.

13 – I Jo 4, 14.

14 – I Cor: “Ou não sabeis acaso que vosso corpo é templo do Espírito Santo […]?”

15 – I Cor 6, 13b: “Mas o corpo não é para a devassidão, ele é para o Senhor e o Senhor é para o corpo.”

16 – JOÃO PAULO II, Papa. O homem-pessoa torna-se dom na liberdade do amor. Audiência Geral, 16 jan. 1980. “[…] em toda a realidade e verdade do seu corpo e sexo («estavam nus») e ao mesmo tempo na plena liberdade de qualquer constrição do corpo e do sexo.”

17 – Ibidem.

18 – João Paulo II trata amiúde desse assunto nas catequeses da Teologia do Corpo, notadamente nos ciclos I-IV. Para uma leitura complementar, recomendamos a leitura da encíclica Redemptoris Homini.

 


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