Formação

Para que existem os Milagres?

comshalom

milagreEnquanto Jesus estava a caminho para Jerusalém, ao entrar em uma aldeia, vieram-lhe ao encontro dez leprosos, que pararam ao longe e elevaram a voz, clamando: «Jesus, Mestre, tem compaixão de nós!». Jesus se apiedou deles e lhes disse: «Ide, mostrai-vos ao sacerdote». Durante o caminho, os dez leprosos ficaram milagrosamente curados. A primeira leitura também fala de uma cura milagrosa da lepra: a de Naamã, o sírio, por obra do profeta Eliseu. É clara, portanto, a intenção da liturgia de convidar-nos a refletir sobre o sentido do milagre e em particular do milagre que consiste na cura da doença.

Digamos antes de tudo, que a prerrogativa de fazer milagres é contada entre as mais testemunhadas na vida de Jesus. Provavelmente, a idéia dominante que as pessoas tinham de Jesus, durante sua vida, além da que ele fosse um profeta, era a de ser alguém que fazia milagres. O próprio Jesus apresenta este fato como prova d autenticidade messiânica de sua missão: «Os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são limpos, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam» (Mateus 11, 5). Não se pode eliminar o milagre da vida de Jesus sem desfazer toda a trama do Evangelho.

Junto aos relatos de milagres, a Escritura nos oferece também os critérios para julgar sua autenticidade e seu objetivo. O milagre nunca é, na Bíblia, um fim em si mesmo; menos ainda deve servir para exaltar quem o realiza e exibir seus poderes extraordinários, como quase sempre acontece no caso de curandeiros e taumaturgos que fazem propaganda de si mesmos. É incentivo e prêmio da fé. É um sinal e deve servir para elevar a um significado. Por isso Jesus se mostra tão entristecido quando, depois de ter multiplicado os pães, percebe que não entenderam do que isso era um sinal (cf. Marcos 6, 51).

O milagre aparece, no próprio Evangelho, como ambíguo. Algumas vezes é visto positivamente, em outras, negativamente. Positivamente, quando é acolhido com gratidão e alegria; suscita a fé em Cristo e abre à esperança em um mundo futuro já sem doenças nem morte. Negativamente, quando é solicitado, ou inclusive exigido para acreditar. «Que sinal fazes para que, vendo-o, acreditemos em ti?» (João 6, 30). «Se não virdes sinais e prodígios, não credes», dizia Jesus com tristeza àqueles que o escutavam (João 4, 48). A ambiguidade continua, sob outra forma, no mundo de hoje. Por um lado, estão aqueles que buscam o milagre a todo custo; estão sempre à caça de fatos extraordinários, detêm-se neles e em sua utilidade imediata. No lado oposto, estão aqueles que não admitem nenhum milagre; contemplam-no até com certo incômodo, como se se tratasse de uma manifestação inferior de religiosidade, sem perceber que, dessa forma, se pretende ensinar ao próprio Deus o que é ou não a verdadeira religiosidade.

Alguns debates recentes suscitados pelo «fenômeno Padre Pio» evidenciaram quanta confusão ainda existe com relação ao milagre. Não é verdade, por exemplo, que a Igreja considere milagre todo fato inexplicável (disso, sabemos, o mundo está cheio, e a Medicina também!). Ela considera como milagre somente aquele fato inexplicável que, pelas circunstâncias em que ocorre (rigorosamente comprovadas), reveste o caráter de sinal divino, isto é, de confirmação dada a uma pessoa ou de resposta a uma oração. Se uma mulher que nasceu sem pupilas, em um determinado momento começa a ver, ainda sem pupilas, isso pode ser catalogado como fato inexplicável, mas se isso acontece precisamente enquanto ela se confessa com o Pe. Pio, como de fato ocorreu, então já não basta falar simplesmente de «fato inexplicável».

Nossos amigos «leigos», com sua atitude crítica ante os milagres, oferecem uma contribuição belíssima à própria fé, porque se mostram atentos às falsificações fáceis neste campo. No entanto, também eles devem ser contemplados desde uma aproximação acrítica. É igualmente errado acreditar a priori em tudo o que circula como milagroso, como rejeitar tudo a priori, sem se preocupar sequer por examinar suas provas. É possível ser crédulos, mas também… incrédulos, que não é (uma atitude) tão diferente.

Textos: 2 Reis 5,14-17; 2 Timóteo 2, 8-15; Lucas 17, 11-19.

Fonte: Site Frei Raniero Catalamessa 2008


Comentários

Aviso: Os comentários são de responsabilidade dos autores e não representam a opinião da Comunidade Shalom. É proibido inserir comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem os direitos dos outros. Os editores podem retirar sem aviso prévio os comentários que não cumprirem os critérios estabelecidos neste aviso ou que estejam fora do tema.

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *.

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *