Assim Deus escolheu o profetaJeremias: “A palavra do Senhor me foi dirigida nos seguintes termos: Antesmesmo de te formar no ventre materno, eu te conheci; antes que saísses do seio,eu te consagrei. Eu te construí profeta para as nações” (Jr 1, 4.5).
O Apóstolo Paulo tinha consciência de ter sido escolhido porDeus desde o ventre materno. Ele mesmo escreve: “Quando, porém, aquele que meseparou desde o seio materno e me chamou por sua graça, houve por bem revelarem mim o seu Filho, para que eu o evangelizasse entre os gentios” (Gl 1, 15).
São Lucas, o primeiro historiador da Igreja e discípulo dePaulo, confirmava essa grandeza de vocação: “Maso Senhor insistiu: “Vai, porque este homem é para mim um instrumento de escolpara levar o meu nome diante das nações pagãs dos reis, e dos filhos de Israel”(At 9, 15; Capítulos 22 e 24).
Para realização de uma grandeobra, sempre haverá uma grandeza de vocação.
São Paulo Apóstolo foi escolhido para fazer uma missãojamais visto e repetida na História da Igreja.
Na história do povo de Deus, houve tarefas especiais queforam executadas por homens especiais na unção do Eterno e Todo-Poderoso. Paulofoi um deles.
Apóstolo e Profeta
“Pois o Senhor Deus não faz coisaalguma sem revelar o seu segredo a seus servos, os profetas” (Am 3,7).
Realmente, muitas revelações noNovo Testamento foram predestinadas ao profeta da graça: Paulo. “Em Antioquia,na Igreja local havia profetas e doutores: Barnabé, Simeão, Lúcio, Manaém eSaulo” (At 13,1).
Segue seu testemunho: “Paulo apóstolo – não da parte doshomens nem por intermédio de um homem, mas por Jesus Cristo e Deus Pai que oressuscitou dentre os mortos – e todos os irmãos que estão comigo, às Igrejasda Galácia. É porventura o favor dos homens que agora busco, ou o favor deDeus? Ou procuro agradar aos homens? Se eu quisesse ainda agradar aos homens,não seria servo de Cristo. Com efeito, eu vos faço saber, irmãos, que oevangelho por mim anunciado não é segundo o homem, pois eu não recebi nemaprendi de algum homem, mas por revelação de Jesus Cristo” (Gl 1, 1. 2. 10-12).
Por que entre vários apóstolos,profetas, doutores, evangelistas, pastores, Paulo foi escolhido para receber eescrever a maior parte das revelações neotestamentária?
Jesus responde: “Ninguém conhece o pai senão o Filho eaquele a quem o Filho o quiser revelar” (Mt 11,27).
“Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vosescolhi” (Jo 15, 16).
Pela graça de Deus Paulo recebeu extraordinárias revelaçõese fez jus delas, trabalhando mais do que todos os apóstolos (1 Cor 15, 10).
Para não se encher de soberba, foi lhe dado um aguilhão nasua carne, com isso freava seu instinto de exaltação (2 Cor 12, 7).
Amós não era profeta nem filho de profeta: era vaqueiro e oSenhor Deus, o tirou de junto do seu rebanho para profetizar ao povo de Israel(Am 7, 14.15).
Paulo não teve o privilégio de fazer parte do ColégioApostólico escolhido por Cristo e nem se converteu pela pregação apostólica outestemunho cristão.
Ele diz: “Posteriormente, apareceu a Tiago, e, depois, atodos os apóstolos. Em último lugar, apareceu também a mim como a um abortivo.Pois sou o menor dos apóstolos, nem sou digno de ser chamado apóstolo, porquepersegui a Igreja de Deus” (1 Cor 15, 7-9).
Essas palavras são referências aocaráter anormal, impetuoso, “cirúrgico” da grandeza vocacional de Paulo. Elenão faz diferença alguma entre a aparição no caminho de Damasco e asmanifestações divinas de Jesus desde o batismo até a ascensão (Cf. At 1, 22; Ef3, 1-8).
Pela graça e misericórdia de Deus, Paulo foi constituídoprofeta, apóstolo, pregador e doutor das nações. O grande missionário dosgentios (At 13, 1-4; 1 Tm 2, 7).
A Igreja está edificada sobre o fundamento dos apóstolos edos profetas, do qual é Jesus Cristo a pedra angular (Ef 2, 20).
Paulo faz parte desse fundamento da Igreja de Deus que eletanto o perseguiu.
Sempre se refere como perseguidor da Igreja de Deus (Cf. 1Cor 15, 9; Gl 1, 13; Fl 3,6).
Por amor a Igreja, Paulo sofreu muito, andou e governou bema casa de Deus e morreu gloriosamente por ela (At 9, 16; 1 Cor 11, 23-28; 1 Tm3, 4.5.15; 2 Tm 4, 6-8).
Tudo Para Todos
O monsenhor alemão Josef Holzner,que estudou trinta anos a vida do Apóstolo Paulo escreve: “Saulo só se moviapor um único interesse, que devorava todos outros: o interesse religioso.Explica-se assim que tenha ficado solteiro, embora o casamento fosseconsiderado obrigatório entre os rabinos. Certamente isso teria o seu quê deinsólito, mas o caso tinha precedentes entre os grandes vultos da história,como Elias e Jeremias. Um célebre rabino, que também permanecera solteiro,justificava o seu celibato com esta frase: “Que posso fazer? Toda a minha almapertence à Torah. Que os outros perpetuem a raça humana!”É possível que Santopensasse assim: mais tarde, já cristão, pôde fundamentar o seu celibato emmotivos mais profundos, baseando-se na mística da “esposa de Cristo”.
Escreve Paulo: “Quisera que todosos homens fossem como sou; mas cada um recebe de Deus o seu dom particular; um,deste modo; outro, daquele modo. Contudo, digo às pessoas solteiras e às viúvasque é bom ficarem como eu. Mas, se não podem guardar a continência, casem-se,pois é melhor casar-se do que ficar abrasado” (1 Cor 7, 7-9).
Toda vocação é especial, é impar, com carisma próprio e cheia demistérios, com características algumas reveladas e outras misticamente não.Daí a pergunta: por que com aquele foi realizado tal obra e com esse não? E porque não temos respostas para tão grande projeto e seu protagonista?
Existe vocação especialíssima e realizações grandiosas quevai além da razão e da força humana? Com certeza, isso é tremendo. É mistério.Só o Divino Espírito Santo sabe tudo e como operaracionar tal engenharia.
Uma força sobrenatural toma posse da mente e do corpo pararealizar os seus desígnios. Tanto para o bem (Dn 3, 16.17; At 19, 11.12) quantopara o mal (Dn 3, 1.15; At 19, 13-19).
A história prova a bondade dospacificadores e a crueldade dos ditadores.
Deus chamou Paulo para uma vocação especialíssima e um amorincondicional a seu Filho.
Ele mesmo escreve: “Mas o que era para mim lucro eu o tivecomo perda, por amor de Cristo. Mais ainda: tudo eu considero perda, pelaexcelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor. Por ele, eu perdi tudoe tudo tenho como esterco, para ganhar a Cristo e ser achado nele, não tendo ajustiça da Lei, mas a justiça que vem de Deus, apoiada na fé” (Fl 3, 7-9).
“Quando a mim, não aconteça gloriar-me senão na cruz denosso Senhor Jesus Cristo, por quem o mundo está crucificado para mim e eu parao mundo. Pois eu trago em meu corpo as marcas de Jesus” (Gl 6, 14.17).
“Já não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim. Minha vidapresente na carne, eu a vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e seentregou a si mesmo por mim” (Gl 2, 20).
“Pois para mim o viver é Cristo e o morrer é lucro” (F 1,21).
Paulo sabia que em tudo Cristo tinha aprimazia (Cl 1, 18), por isso ele escreve: “Tornei-me tudo para todos, a fim desalvar alguns a todo custo. E isso tudo eu faço por causa do evangelho, paradele me tornar participante (1 Cor 9, 22.23).
Por amor a Cristo a Igreja e o Evangelho, o Apóstolo dosGentios é considerado o segundo fundador do cristianismo pela obra colossal nateologia e nas missões.
O teólogo alemão Willian Wrede diz: “Paulo é o segundofundador do cristianismo. Foi ele que fez do cristianismo uma religiãosalvífica”.
O renomado historiador inglês Paul Johnson afirma: “Paulofoi a primeira e a maior personalidade cristã; sempre foi a mais controvertida,e, com freqüência, a mais malcompreendida. Porém, a verdade é que Paulo nãoinventou o cristianismo, nem o perverteu: ele o salvou da extinção”.
Para o grande estudioso dateologia paulina, que cerca de 40 anos tem se dedicado a esse assunto, o teólogobritânico James D.G. Dunn escreve: “Paulo mais do que qualquer outra pessoacontribui para que o novo movimento originário de Jesus torna-se religiãorealmente internacional e intelectualmente coerente. Paulo foi efetivamentechamado o “segundo fundador do cristianismo”, que, “em comparação com oprimeiro, exerceu, sem dúvida alguma, a influência … mais forte”. Ainda que sedeva considerar isso uma avaliação exagerada da importância de Paulo, permaneceo fato de que a influência e os escritos de Paulo moldaram o cristianismo maisdo que o fizeram os escritos / a teologia de qualquer outro indivíduo. Mas se ateologia é medida em termos de articulação da fé cristã, as Cartas de Paulolançaram um fundamento da teologia cristã que nunca teve rival nem substituto”.
Dunn afirma: “Paulo é o maior teólogo cristão de todos ostempos”.
Escatologia Paulina
Paulo descreve três grupos depessoas: os judeus, os gregos e a Igreja de Deus (Cf. 1 Cor 10, 32).
O profeta Paulo é completo em sua escatologia.
Sobre o futuro de Israel ele dedica três capítulos naEpístola aos Romanos: 9, 10 e 11.
Ele escreve: “O endurecimento atingiu uma parte de Israelaté que chegue a plenitude dos gentios, e assim todo Israel será salvo” (Rm 11,25-28).
Paulo foi escolhido por Cristo para levar o seu nome asnações pagãs (gentios) dos reis e dos filhos de Israel (At 9, 15).
Em Atos 18, 6 Paulo definiu a sua missão aos gentios. NaCarta aos Efésios ele diz: “A mim, o menor de todos os santos, me foi dado estagraça de anunciar aos gentios a insondável riqueza de Cristo (Ef 3,8). Daí otítulo que recebeu: Pregador, Apóstolo e Doutor dos gentios (1 Tm 2,7).
Sobre a Igreja, ninguém recebe tão profunda revelação doCorpo de Cristo como o Apóstolo Paulo. “Por meio da Igreja conhecemos osmistérios de Deus oculto desde os séculos” (Ef 3, 9-11). “Todo poder de Cristoe da Igreja e o seu mistério relacional (Ef 3, 20.21; 5, 32).
Pela misericórdia e pela graça da conversão (Rm 11, 30-32;Ef 2.8), segundo a eficácia da ação do poder de Deus (Ef 1, 19; Fl 2, 13),Judeus e gentios são reconciliados pelo sangue de Cristo (Ef 2, 13).
Em Jesus Cristo, não há mais separação ou estrangeiros, todossão um em Cristo Jesus,formando assim a grande família dos santos de Deus (Gl 3, 28; Ef 2, 18.19; Cl3, 11).
No desenrolar escatológico dePaulo, nada pode vencer essa Família. Todos os inimigos dela serão derrotados.
Vejamos: os Principados, as Autoridades, os Dominadoresdeste mundo de trevas e contra os Espíritos do Mal, que povoam as regiõescelestiais (Ef 6, 10-12). O anticristo e todo o seu império de injustiça (2 Ts2, 1-12). A terrível apostasia (1 Tm 4, 1-5). A corrupção e a deprovação doshomens nos últimos tempos (2 Tm 3, 1-9). A falsa ciência (1 Tm 6, 20). E oúltimo inimigo a ser destruído será a morte (1 Cor 15, 25).
Paulo tinha um desejo enorme para estar com Cristo. É tãobelo e tão abissal a sua vontade que nos encanta.
Diz ele: “Pois isso me é muito melhor” (Fl 1, 21-23).
Se ele não podia partir para Cristo; com ânsia esperava asua vinda.
Paulo emprega a palavra grega parousia que significacomumente “chegada” ou “retorno” para vinda de nosso Senhor Jesus Cristo comtodos os santos (1 Ts 2, 19; 3, 13; 4, 15; 5, 23).
Paulo usa a palavra grega apantésis para falar a respeito daocasião em que os cristãos tessalonicenses forem arrebatados com ele nas nuvensem sua parousia (1 Ts 4, 17).
Na parousia de Jesus Cristo,Paulo afirma que os mortos ressuscitarão primeiro e os vivos, em seguida, irãocom ele para encontrar com o Senhor, nos ares. E assim, estaremos para semprecom o Senhor (1 Ts 4, 13-17).
Aos impenitentes, injustos, que não quiseram conhecer a Deuse não quiseram obedecer ao evangelho do Senhor Jesus Cristo, vão padecercastigo na eterna perdição (2 Ts 1, 8.9).
Quem não fez do seu corpo templodo Espírito Santo, mas do contrário, fez dele teatro do pecado, não herdarão oReino de Deus (1 Cor 3, 16.17; 6, 9-11).
São Paulo Apóstolo, o pregador do Evangelho da graça de Deus(At 20, 24), nunca deixou de anunciar todo o desígnio de Deus (At 20, 27).
O teólogo irlandês e maior estudioso do Jesus histórico JohnDominic Crossan e o teólogo americano Jonathan L. Reed, ambos autores do livroEm Busca de Paulo – como o apóstolo de Jesus opôs o reino de Deus ao ImpérioRomano, no final da obra escrevem: “Demos a este livro o título Em Busca dePaulo. Não usamos a forma “São Paulo”para que o título não viesse a prejudicaro resultado. Mas agora sabemos plenamente e com clareza que encontramos umsanto não apenas para a sua época, mas para sempre”.
Conclusão
Para trabalhar na messe do Senhor Deus, temos que terconsciência de duas coisas: primeira, convicção da vocação para desempenhar comamor o serviço em prol do Reino de Deus.
Segunda, convicção da necessidade da graça do bom Deus emnossas vidas e o sofrimento e glória em nosso ministério.
Nada é superior a vocação divina. Nenhum sucesso preenche afuga de uma vocação. O sagrado bem que se faz respondendo o chamado celestial éincalculável e incomensurável.
A graça da vocação leva a pessoa ao caminho doauto-conhecimento e a busca ardente de perfeição.
A alma é ínclita do vocacionado, salva e eterna em Cristo Jesus. É afelicidade da vocação que da sentido a vida, e que iluminado pela SantíssimaTrindade constrói obras imortais.
A paz e a justiça, o amor e o belo, ainda se praticam devidoa valentia dos consagrados vocacionados que se arvoram a propalar seus valoreseternos numa sociedade tão corrompida.
Que o diga o Apóstolo dos Gentios, Paulo: a grandeza de umavocação.
A grandeza da vocação está na radicalidade do amor ao bomDeus e ao próximo.
Padre Inácio José do Vale, OSBM