Formação

Pe. Antonio Furtado: A Eucaristia é a garantia do amor que Jesus tem por nós

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Confira na íntegra a pregação de padre Antonio Furtado no Retiro de Semana Santa em Fortaleza, realizada na quinta-feira,24. Foi mantido o tom coloquial.

 

Quinta-feira Santa, 24/03/2016

Amou-os até o fim

Pe. Antônio Furtado

 

A igreja vive da Páscoa do Senhor. A igreja se alimenta da Páscoa do Senhor. Quando falo igreja estou falando de cada um de nós. Podemos dizer: “Eu vivo da Páscoa do Senhor. Minhas forças, as graças, tudo aquilo que eu possa realizar vem daquilo que Jesus realizou nesses três dias”.

Hoje a igreja nos chama a olhar para o cenáculo. É ali que encontraremos Jesus. Eu gostaria que abríssemos João 13. O tema do nosso retiro é “Somos mais que vencedores graças Aquele que nos salvou”. Durante os três dias estaremos vivendo este tema, mas o tema específico desse momento de pregação é: “Amou-os até o fim”. João 13, 1-17: “Antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que chegara a sua hora de passar deste mundo ao Pai, como amasse os seus que estavam no mundo, até o extremo os amou. Durante a ceia, – quando o demônio já tinha lançado no coração de Judas, filho de Simão Iscariotes, o propósito de traí-lo -, sabendo Jesus que o Pai tudo lhe dera nas mãos, e que saíra de Deus e para Deus voltava, levantou-se da mesa, depôs as suas vestes e, pegando duma toalha, cingiu-se com ela. Em seguida, deitou água numa bacia e começou a lavar os pés dos discípulos e a enxugá-los com a toalha com que estava cingido. Chegou a Simão Pedro. Mas Pedro lhe disse: Senhor, queres lavar-me os pés!… Respondeu-lhe Jesus: O que faço não compreendes agora, mas compreendê-lo-ás em breve. Disse-lhe Pedro: Jamais me lavarás os pés!… Respondeu-lhe Jesus: Se eu não os lavar, não terás parte comigo. Exclamou então Simão Pedro: Senhor, não somente os pés, mas também as mãos e a cabeça. Disse-lhe Jesus: Aquele que tomou banho não tem necessidade de lavar-se; está inteiramente puro. Ora, vós estais puros, mas nem todos!… Pois sabia quem o havia de trair; por isso, disse: Nem todos estais puros. Depois de lhes lavar os pés e tomar as suas vestes, sentou-se novamente à mesa e perguntou-lhes: Sabeis o que vos fiz? Vós me chamais Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque eu o sou. Logo, se eu, vosso Senhor e Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar-vos os pés uns aos outros. Dei-vos o exemplo para que, como eu vos fiz, assim façais também vós. Em verdade, em verdade vos digo: o servo não é maior do que o seu Senhor, nem o enviado é maior do que aquele que o enviou. Se compreenderdes estas coisas, sereis felizes, sob condição de as praticardes”. Palavra da salvação.

Tendo amado os seus, o Senhor amou-os até o fim. Sabemos que Jesus costumava cumprir as normas da lei, e Ele mesmo os diz em Mateus 5: “Eu não vim abolir a lei, mas vim leva-la à perfeição”. Encontramos Jesus aos sábados, na sinagoga, com os outros homens de Deus, a ler a palavra, a fazer as orações. Aos doze anos Ele cumpre o que qualquer criança ou adolescente cumpria, aliás, os seus pais, como lemos nos evangelhos de Lucas e Mateus, fazem exatamente tudo aquilo que a lei dizia que eles deviam fazer. Jesus, por exemplo, peregrina para Jerusalém, como todo bom judeu devia pelo ao menos uma vez no ano ir à Cidade Santa. Certamente todos os anos Jesus celebrava com os apóstolos a Páscoa, pelo menos aquelas três ultimas Páscoas Ele as celebrou com Seus apóstolos, tanto que não pareceu estranho a eles quando Ele disse: “Preparem a Páscoa”. Eles já sabiam que deviam celebrar a Páscoa, celebrar o Pessach, o Seder hebraico, aquela celebração que anualmente os judeus faziam seguindo as orientações que Deus havia dado a Moisés, cumprindo todos os rituais feitos na saída do Egito: a morte do cordeiro, as ervas amargas, os pães ázimos, os quatro cálices que eles bebiam durante a ceia, os dois momentos que repartiam o pão. Era uma celebração que desde criança os judeus se habituavam a fazer, a realizar, e Jesus praticou a Páscoa judaica, celebrou.

No evangelho de Lucas encontramos Jesus que no tempo da Páscoa, como um bom judeu, está em Jerusalém. Porém, essa Páscoa, será diferente. Ele deixa claro isso. Em Lucas isso é muito claro. Jesus está sempre a caminho de Jerusalém. É uma característica do evangelista Lucas, Dele estar sempre indo para Jerusalém. Podem prestar atenção. Todo o evangelho de Lucas é um caminho para Jerusalém, é um caminho para a Sua Páscoa, até que finalmente Ele diz: “Eu estou indo à Jerusalém, o Filho do homem vai ser rejeitado, preso, condenado, morto, mas ao terceiro dia ressuscitará”. Lucas 22, 7-20 nos mostra que Jesus naquele ano estava em Jerusalém para celebrar a Páscoa e aquilo que Ele havia anunciado em Cafarnaum, e o evangelho de João traz o grande discurso eucarístico de Jesus, todo um capítulo sobre a Eucaristia. Aquilo que Ele anunciou na sinagoga de Cafarnaum, Ele agora vai tornar uma realidade na celebração da Páscoa. Jesus escolhe o tempo da Páscoa para realizar aquilo que Ele já havia anunciado no evangelho de João, todo o discurso eucarístico. O texto mostra que Jesus amava constantemente os Seus discípulos. Toda a vida dele foi vivida em função do amor pela humanidade. Tudo, qualquer ato ou palavra de Cristo, atitude, um olhar, era sempre de amor e de misericórdia. Sempre de amor e de misericórdia.

Tendo amado os seus discípulos, Ele então resolve fazer algo que os santos dizem que nem os anjos esperavam que Ele fizesse. Há uma mística italiana, Luísa Piccarreta, que diz que na instituição da Eucaristia os anjos ficam atônitos porque já tendo amado os Seus, Ele resolve continuar amando e amando até o fim. Daí que já podemos dizer que a Eucaristia é um ato de profundo amor de Jesus por nós.

Toda vez em que você estiver em uma missa, participando da Eucaristia, toda vez que você estiver diante do Santíssimo Sacramento, toda vez que você comungar, você deve repetir: “A Eucaristia é um ato de amor de Jesus por mim”. Essa palavra pode ser aplicada a mim e a você, aquilo que Ele disse aos apóstolos, porque aquela palavra não era somente dirigida a eles. Claro que naquele momento sim. Tendo amado os seus, mas quem eram os seus? Ali estava eu e você. Tendo amado a mim e a você, amou-os até o fim. Veja que maravilha!

É fácil dizer eu te amo. Quantos de nós já nos decepcionamos com pessoas que disseram eu te amo? Maridos, esposas, filhos, amigos… Para deixar-nos uma garantia do amor, de que aquelas palavras Dele não eram palavras vazias, para garantir que o Seu amor por nós é autêntico, verdadeiro, não é falso, é constante, é eterno, Ele então institui o Sacramento da Eucaristia. A Eucaristia é a garantia do amor que Jesus tem por nós. Se em algum momento o demônio nos trouxer a dúvida, se em algum momento estivermos carentes de amor, podemos contemplar Jesus Eucarístico e dizer: “O Senhor me ama. Eu tenho a certeza de que o Senhor me ama”.

Jesus quis que os Seus apóstolos celebrassem esse ato de amor não somente um ou dois dias, algum tempo, não! Jesus ordena os apóstolos para que eles celebrassem até a Sua volta: “Façam isto em memória de mim até que Eu venha”. Hoje pela manhã eu estava na Catedral juntamente com todos os sacerdotes da Arquidiocese, sacerdotes diocesanos, religiosos, das novas comunidades, enfim, todos os padres. Ali nós renovamos diante do Bispo os nossos votos sacerdotais, tanto que no final hoje celebrando o aniversário da chegada de Dom José Antônio na Arquidiocese ele dizia: “Esse aniversário não é só meu. Meu porque se celebra hoje este dia em que assumi essa Arquidiocese, mas esse aniversário hoje é de todos os padres, porque hoje foi o dia em que Jesus ao instituir a Eucaristia teve que criar o sacramento da ordem. Ali Ele gerou no amor os sacerdotes”. Por isso São João Maria Vianney dizia que “o sacerdote é o amor do coração de Jesus”, porque para ter a Eucaristia é necessário ter o sacerdote. No ato de Jesus em se dar a nós até o fim, Ele quis também criar um sacramento, o sacramento da ordem, para que este ato de amor Dele permanecesse até o fim.

A história mostra que mesmo durante as grandes guerras, mesmo nos campos de concentração, como, por exemplo, na 2° guerra mundial em que muitos sacerdotes conseguiam um pouco de vinho, um pedaço de pão, e Maximiliano Maria Kolbe colocava uma gota de vinho numa mão e uma migalha de pão na outra e enquanto estava em pé naquelas horas e horas de castigo que eram impostas aos prisioneiros, ele celebrava a Eucaristia. Um grande bispo, Van Thuan, que está em processo de canonização, e quando fui a Roma agora visitei seu túmulo, ele passou 13 anos preso. Ele, dando desculpas para os soldados de que precisava de vinho por motivo de saúde, recebia sempre um pouquinho de vinho e ali, escondido, ele celebrava a Eucaristia na prisão. Depois colocava a Eucaristia dentro de um pedaço de cana-da-índia. Esse pedaço de cana-da-índia com a Eucaristia passava de cela em cela e era feita a adoração sem que os soldados desconfiassem que aquele pedaço de cana-da-índia era um verdadeiro ostensório. Jesus passava de cela em cela, e isso nasce numa quinta-feira santa.

Os santos, os místicos nos ajudam a entender que ali Jesus tinha uma visão que mostrava toda a humanidade, todo o futuro da humanidade. Não era apenas um ato com poucos presentes, mas era algo que Ele fazia com aqueles que ali estavam, com nós que estamos aqui, e Ele continuará fazendo com todos aqueles que ainda virão. Essa é a grandeza do amor de Cristo por nós.

Naquela última ceia que antecipa a Páscoa nova, antecipa inclusive a Páscoa de Jesus, para iniciar no Seu Corpo e no Seu Sangue uma nova aliança. Se aquela primeira aliança era a vivência de uma libertação humana, de uma escravidão humana na saída do Egito, agora essa nova e eterna aliança no Sangue de Jesus significa uma libertação total, a nossa libertação, a nossa vida nova, e para quê? Para quê Ele fez isso? Para ter comunhão conosco, para ter uma relação de amor conosco.

Uma coisa que me chocou foi quando ouvi de Daniel Ange uma vez numa pregação em que ele dizia o porquê que Jesus permite que os satanistas, por exemplo, roubem a Eucaristia, e isso tem acontecido, infelizmente, muito, no mundo inteiro. Sacrários são profanados, a Eucaristia é roubada para cultos satânicos e missas negras. Daniel Ange dizia: “Porque que Jesus permite isso? Ele permite porque Ele ama tanto a humanidade, ama tanto aqueles que estão nessas práticas de ocultismo que Ele deseja ir até eles para mais uma vez ser profanado, crucificado”, e sabemos o que é feito com a Eucaristia nesses lugares. “Porque Ele quer descer onde há a maior escuridão, onde há a maior frieza para com Ele, para amar. Na realidade Ele permite porque Ele quer amar estas pessoas”.

Meus irmãos, a comunhão com Jesus na Eucaristia aumenta a nossa comunhão com Ele. Qual é o fruto principal da Eucaristia? É a nossa união com Jesus Cristo. Às vezes, com tristeza, observamos que nossas comunhões são apressadas, como o tempo em que vivemos. Nós procuramos às vezes a missa mais rápida. “É domingo, é feriado, não tem nada para fazer, mas procuro uma missa rápida, porque quero cumprir a minha obrigação”. Essa palavra, “cumprir a obrigação”, eu acho que é uma espada que entra o coração de Cristo de novo, “vou cumprir a minha obrigação”. Você entra na fila, comunga, daqui a pouco já olha para o relógio porque já quer ir para casa, porque o horário do cinema não espera, o horário do programa na TV não espera, o compromisso com a namorada não espera, e nos esquecemos de que aquele momento da nossa comunhão com o Senhor é o momento onde colhemos mais frutos do Seu amor. É estranho receber um hóspede na nossa casa e colocar a vassoura atrás da porta para ele ir embora, e demonstrar que aquela presença é desagradável, demonstrar que estamos ansiosos para fazer outra coisa.

Em João 6, 56, no discurso de Cafarnaum, Jesus diz: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele”. Permanece em mim e eu nele. Intimidade. Comunhão. “Assim como o Pai que vive me enviou e eu vivo pelo Pai, também aquele que de mim se alimenta viverá por Mim”. Podemos lembrar João 15: “Eu sou a videira e vós os ramos. Sem mim nada podereis fazer. Se o ramo não está ligado ao tronco da videira, seca e para nada mais serve senão para ser queimado”. Precisamos de tempo com essa presença. Graças a Deus que na comunidade temos o Canto de Ação de Graças, mas o que é um Canto de Ação de Graças, ou um momento de Ação de Graças? É um tempo para que eu possa parar com Aquele que eu recebi. Como é que eu posso receber alguém na minha casa e não dar atenção? Santa Teresa fala muito sobre isso. Como é que eu posso recebê-lo e não manter um diálogo com Ele? A vida Dele está em mim! A vida Dele está em mim! O amor Dele está em mim! Um santo dizia que quem comunga, comunga fogo, porque a Eucaristia é fogo.

O Catecismo da Igreja nos diz no n° 1392: “O que o alimento material produz na nossa vida corporal, realiza-o a Comunhão, de modo admirável, na nossa vida espiritual”. E o que o alimento faz? E amanhã é jejum e todos vão sentir. Começamos a ficar fracos, perdemos as forças. Quem tem algum problema mais sério começa a ficar tonta, sem enxergar direito, as taxas caem. Como o alimento produz o sustento em nossa vida, assim diz a igreja: “A comunhão da carne de Cristo Ressuscitado conserva, aumenta e renova a vida da graça recebida no Batismo”. Três coisas: conserva, aumenta e renova a vida da graça recebida no batismo. Diz ainda o Catecismo: “Este crescimento da vida cristã precisa de ser alimentado pela Comunhão eucarística”. Se uma pessoa não comunga a sua alma está anêmica espiritualmente, desnutrida, fraca espiritualmente. Mas reforço uma coisa: não basta comungar. É necessário vivenciar o momento da comunhão.

Eu hoje quando terminei a comunhão, voltei para o meu lugar, e Deus me levava a dizer obrigado. Obrigado Jesus, porque você me escolheu, porque você me deu essa graça de ser padre, do dom de ser padre, de ter recebido o Sacramento da Ordem. E fiquei pensando: “Meu Deus! Jesus me conhece do começo ao fim”. Ele não conhece partes da minha vida. Ele não conhece o dia em que eu me ordenei somente. Ao olhar para a minha vida, e acredito que naquele momento Ele tinha a mim e a todos os sacerdotes presentes ali no cenáculo, como tinha cada um de nós ao instituir o Sacramento da Eucaristia, é óbvio que Ele sabia quem eu era. Se o Salmista diz (Salmo 138): “Tu me conheces desde a gestação”, “Tu me teceste”. Ele conhecia, Ele sabia exatamente quem eu era e me escolheu, me chamou. Fui pensando durante a ação de graças: “Realmente na minha história, na minha vida, Deus interviu e me escolheu”. Não foi uma coisa que eu fiquei brigando “eu quero, eu quero ser padre”. Não! Houve um chamado de Deus. Ele me escolheu, mesmo sabendo quem eu sou. Ele me escolheu. Ele me amou e vai amar até o fim. Eu posso dizer também para você: “Ele escolheu você, mesmo sabendo quem você é, e Ele vai lhe amar até o fim na Eucaristia. esteja como você estiver Ele vai lhe amar até o fim”.

São João Crisóstomo diz que Jesus Cristo quer de tal modo unir-se conosco, quer tanto a nossa amizade, quer tanto ter comunhão conosco, ser íntimos de nós, mesmo sabendo quem nós somos! Ele diz: “Jesus Cristo quer de tal modo unir-se a nós pelo amor ardente que nos tem, Ele quer tanto que nos tornemos uma só coisa com Ele, que Ele instituiu a Eucaristia”.  Porque foi que Jesus Cristo instituiu a Eucaristia? Por puro amor, por nos querer tanto.

Não sei se vocês já tiveram essa experiência de estar na capela em uma vigília, de madrugada, e ficar pensando: Ele só pode ser “louco” para ficar naquele ostensório às vezes até mal cuidado, porque sabemos cuidar das nossas joias com tanto zelo, as guardamos com tanto zelo, mandamos dar banho nas joias, nas coisas preciosas. Às vezes como padre encontramos tantos sacrários abandonados, tantos ostensórios até mal cuidados. Mas porque que Ele quer estar ali, olhando para aqueles pobres que às vezes estão ali cochilando ou dispersos? Porque o amor sabe que pode transformar. Porque o amor pode realizar maravilhas, e por isso o Senhor se submete, se sujeita às vezes a estar nos sacrários do mundo, muitas vezes na solidão total, por amor a nós. O único intuito é querer o nosso amor, é querer estar conosco.

O que a Eucaristia faz em nós também, a segunda coisa. A primeira é que a comunhão aumenta a nossa união com Cristo. A segunda coisa é que a comunhão separa-nos do pecado. Quem já pensou: “Se eu cometer esse pecado, amanhã não posso comungar”. Por causa da comunhão renunciamos ao pecado. A comunhão separa-nos do pecado. A comunhão em nós é um remédio. Quando alguém está com câncer procura imediatamente um tratamento que possa curar. A comunhão é um remédio, e a comunhão tem o poder de nos arrancar do pecado. Não é tanto a nossa ação voluntária, a nossa vontade de ser santo, mas uma pessoa que comunga constantemente, que tem uma vida de comunhão diária, ela vai encontrando força, vai encontrando a graça, os meios de ser arrancada da situação de pecado. Comunhão e confissão. De comunhão e confissão você chega lá. Eu chego lá. Porque a comunhão é a entrega do próprio Cristo a nós. Aquele corpo e aquele sangue que foi derramado pela remissão dos nossos pecados, em cada Eucaristia são renovados para nós. Isso não é ilusão. Isso não é faz-de-conta. Isso não é teatro. É uma realidade. Você pode em cada Eucaristia se colocar ali aos pés do altar na certeza de que tudo o que Jesus realizou na cruz se renova de modo místico. É um sacrifício incruento, místico para mim hoje.

Por isso que os santos falam tão bem da Eucaristia, por quê? Porque os santos vivem da Eucaristia, e alguns até mesmo literalmente. Martin Robin, serva de Deus, que também está em processo de canonização, viveu 40 anos só da Eucaristia. Toda quarta-feira o seu confessor, seu diretor espiritual dava-lhe a comunhão, e ali Martin entrava em estado místico, vivia a Paixão de Cristo semanalmente. No domingo experimentava como que uma Ressurreição e aí trabalhava de domingo à terça. Na quarta comungava de novo, e assim ela viveu 50 anos. É impossível humanamente uma pessoa viver de uma hóstia pelas necessidades do nosso corpo. Outra serva de Deus que citei, a Luísa Piccarreta, também em processo de canonização, durante 66 anos viveu numa cama, trabalhando fazendo bicos para se sustentar, e rezando. Sua alimentação? Só a Eucaristia. Quando alguém lhe dava alguma coisa diferente para comer, ela vomitava, porque o seu organismo não aceitava. Só a Eucaristia.

Os santos dizem que a Eucaristia é o alimento dos fracos, é o remédio dos doentes. São Tomás de Aquino dizia que: “A comunhão destrói a tentação do demônio. Você está tentado? Está vivendo um tempo de tentação? Está difícil a vida espiritual? Qual é a primeira tentação? “Não vou comungar, não estou digno”, claro que se você está em pecado tem de se confessar, mas tentação não é pecado e muitos de nós caímos numa ilusão do demônio de que “já que eu estou sendo tentado a fazer isso é melhor cair logo no pecado, porque aí depois me confesso e comungo”, não! Você está vivendo um momento de tentação? Corra para a comunhão, porque a comunhão destrói a tentação do demônio.

São João Maria Vianney dizia: “O alimento da alma é o Corpo e o Sangue de Deus”. A sua alma, a minha alma, elas só podem ser alimentadas de uma única coisa: o Corpo e o Sangue de Deus. Dizia ele: “Ó Formoso alimento! A alma não se pode alimentar senão de Deus. Só Deus pode bastar-lhe. Só Deus pode saciá-la. Fora de Deus não há nada que possa saciara a fome da alma”. “Ah, hoje eu não estou bem. Vou para o cinema”, isso não vai saciar a sua fome, porque é a sua alma que está com fome. “Ah, vou para o futebol”, não! Essa fome espiritual, a fome que a alma sente só a Eucaristia pode alimentar.

Santo Afonso Maria de Ligório, fundador dos Redentoristas, dizia: “A Eucaristia não é só a garantia do amor de Jesus Cristo, mas também é a garantia do paraíso que Ele nos quer dar”. Vimos e a igreja repete isso no Catecismo que a Eucaristia é a garantia do amor. Se você tiver dúvida do amor de Deus olhe para Jesus Eucarístico. A Eucaristia é a garantia do amor que Ele tem por mim e é a garantia do paraíso que Ele quer e vai nos dar.

Diz ainda Santo Afonso: “Uma alma não pode fazer nada que agrade a Deus mais do que comungar em estado de graça”. Você quer agradar a Deus? comungue em estado de graça, se alimente do Corpo e do Sangue do Senhor. E extasiado ele dizia ainda: “Verbo Eterno não vos bastou tomar a nossa natureza e morrer por nós na cruz, quisestes ainda dar-nos este Sacramento para ser nosso companheiro”. Ninguém é só quando tem Jesus na Eucaristia. Ninguém pode experimentar solidão se comunga. Nosso companheiro, nosso alimento e penhor da glória celeste.

Chiara Lubich, fundadora do movimento dos Focolares, também em processo já de beatificação, dizia: “Enquanto existir a Eucaristia eu nunca estarei só”. Por quê? Porque a Eucaristia é uma presença. O que proclamamos com a nossa fé? Que na Eucaristia Jesus está verdadeiramente presente: Corpo, Alma e Divindade, tão real como está no céu. Podemos até nos relacionar com a Eucaristia de uma forma devota, respeitosa, de uma forma sentimental, mas será que já paramos para pensar: “Meu Deus! Eu estou diante de Cristo. ali naquela hóstia branca, sob a aparência do pão, não é pão! Não é vinho! É Corpo e sangue e presença, é companhia, é um amigo, é Deus! Por isso Chiara dizia: “Enquanto existir a Eucaristia eu nunca estarei só”. Enquanto existir um sacrário não terei solidão. Quem é que não se sente só às vezes? Quando você se sentir só, vá para um Centro de Evangelização ou uma paróquia mais perto da sua casa. Qual o remédio contra a solidão? A companhia de Jesus Eucarístico!

E hoje, infelizmente, se acabou o costume das chamadas “visitas ao Santíssimo Sacramento”, que na tradição da igreja não eram longos tempos diante do Santíssimo. Você vai passando perto do centro de evangelização, para o carro, vai até à capela, faz uma bela genuflexão diante Dele e diz assim: “Jesus, eu te amo!”, e depois você sai. É uma visita. Chamava-se isso de “visitas ao Santíssimo Sacramento”. Breves, mas visitas.

Na vida de Santa Faustina encontramos no seu Diário várias queixas de Jesus, porque nesses santos que viveram o matrimônio espiritual – Santa Teresa, Teresinha – Jesus é um Esposo exigente, ciumento, e Ele cobra muito. Pode ler a vida desses grandes místicos: Santa Catarina de Sena, Faustina, Teresa D´Ávila. Por exemplo, com Faustina, Ele chegava e dizia: “Você nem me visitou hoje”, e ela: “Mas Senhor, eu tive de lavar roupa, que fazer a comida, aguar as plantas, atender à portaria”, e Jesus: “pois é, mas poderia ter ido lá”. Um dia, na vida de Santa Faustina, ela acordou num domingo, olhou para o céu, que estava limpo, era primavera na Europa, e ela então decidiu passar o dia com uma amiga, outra freira. Ela pediu a licença para a superiora, conversou com sua amiga, se aprontou e quando foi sair o céu escureceu. Começaram relâmpagos e veio uma chuva, onde o passeio de Faustina acabou. Ela foi à capela e disse: “Mas Senhor, eu queria tanto ir para esse passeio, queria tanto ficar com a minha amiga”, e Jesus disse: “Pois é, eu não quero que você divida o seu amor com ninguém”. É difícil entender isso, não é? Mas naquela relação de amor no matrimônio espiritual, chamado matrimônio místico, e na vida espiritual com o passar do tempo Jesus vai se tornando cada vez mais exigente, como na vida de um casal, não é assim? A vida a dois exige cada vez mais e quem é casado sabe. Assim também é na vida espiritual. O Senhor quer sempre mais, porque também Ele sabe, depois, claro, a continuação que ela escreve é que aquele passeio não ia fazer bem para a alma dela, e Ele diz: “Minha filha, eu permiti a chuva para que a sua alma não fosse contaminada”, e depois ela entendeu que aquela irmã ia encher a sua cabeça de conversas que não levam a nada, são perdas de tempo. Foi um ensinamento da vida dela.

São Gregório de Nissa diz: “Nosso corpo unido ao Corpo de Cristo adquire um princípio de imortalidade porque se une ao imortal”. E devíamos dizer: o nosso corpo doente, fraco, ao se unir a um corpo sadio, a um corpo santo, se transforma.

Santa Teresinha, doutora da Igreja, diz: “Não é para ficar numa ambula de ouro que Jesus desce cada dia do céu, mas para encontrar um outro céu: o da nossa alma, onde Ele encontra as Suas delícias”. Porque por mais que dermos um sacrário ou um ostensório de ouro puro a Jesus, não foi para isso que Ele desceu do céu e desce a cada Eucaristia. Se Ele desce do céu é para encontrar um outro céu, e aí meus irmãos quanta responsabilidade temos em comungar em estado de graça. E ninguém está dispensado da confissão se está em pecado mortal, porque às vezes encontramos inclusive pessoas consagradas que depois de uma confissão o padre pergunta: “Você parou de comungar?”, “não”, “como não?”. A nossa alma precisa ser um paraíso para o Senhor, claro que com suas imperfeições, com suas fraquezas, na luta, mas não podemos confundir as coisas. Uma alma em pecado mortal não pode receber o sacramento da comunhão porque não está apta. Como é que ela vai ter comunhão se ela acabou de feri-lo? Sobretudo se pode fazer uma boa confissão. Não vamos confundir misericórdia com vida cristã relaxada. Não!

São Filipe Néri dizia: “A devoção ao Santíssimo Sacramento e a devoção a Nossa Senhora são não o melhor, mas o único meio para se conservar a pureza. Somente a comunhão é capaz de conservar um coração puro na juventude”. Atenção, jovens! São Filipe está dizendo para vocês: somente a comunhão é capaz de conservar o teu coração puro, jovem! Diz o santo: “Não pode haver castidade sem Eucaristia”.

Tendo amado os Seus, amou-os até o fim. Hoje é o dia de celebrarmos com toda a pompa, com toda a alegria, fervor e amor este Santíssimo Sacramento, o Sacramento do amor. Daqui a pouco teremos a oportunidade de estarmos diante Dele. Tenhamos presente àquilo que ouvimos, talvez aquela única palavra que o Espírito Santo conseguiu colocar no nosso coração: eu estou diante da prova de que sou amado. Ele está ali por mim. Ele desce do céu para estar comigo, para permanecer na minha vida.

Santa Catarina de Gênova dizia: “O tempo passado diante do Sacrário é o tempo mais bem empregado da minha vida”.

Que Deus nos dê essa graça para as nossas Adorações, vigílias, para as nossas visitas ao Santíssimo Sacramento, para as nossas celebrações eucarísticas e, sobretudo, para as nossas comunhões. Livre-nos Deus de comunhões mal feitas, frias e pior ainda: sacrílegas.

Rezemos sempre como o anjo ensinou aos pastorzinhos de Fátima: Meu Deus, eu creio, adoro, espero e amo-vos. Peço-vos perdão por aqueles que não creem, não adoram, não esperam e não vos amam. Santíssimo Sacramento, eu vos adoro neste Sacrário e em todos os Sacrários do mundo, de modo especial onde a vossa presença é esquecida, vilipendiada e profanada. Amém. Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo, para sempre Seja Louvado!

Irlanda Aguiar

 


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