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Pentecostes, fato histórico ou ficção literária?

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Dom Cristiano Jakob Krapf


Noinício do seu Evangelho, Lucas diz que fez cuidadosa investigação detudo, para que o leitor possa perceber a solidez dos fundamentos da fé.

Noprimeiro capítulo dos Atos dos Apóstolos, o Evangelista Lucas afirmaque no seu primeiro livro apresentou tudo que Jesus fez e ensinou.Tudo? Sabendo que Lucas sabia que muitas coisas da vida e das palavrasde Jesus não foram relatadas no seu livro anterior, podemos entender apalavra “tudo” em relação ao evangelho dele: que tudo ali é relatóriode fatos acontecidos e de palavras de Jesus, tudo colhido eminformações de testemunhas consultadas por Lucas.

Nãofaz muito tempo que duas teorias dominavam o campo da exegese ditacientífica e eram copiadas cegamente pela maioria: Que o evangelhoatribuído a Lucas e os Atos dos Apóstolos seriam de dois autoresdiferentes, e que o autor dos Atos teria fingido que era companheiro dePaulo para angariar credibilidade. Alguns ainda continuam chamandoLucas de mentiroso, alegando como atenuante que os autores daqueletempo não cuidavam da fidelidade histórica dos seus relatos.

Opano de fundo dos argumentos contra a verdade histórica de muitostextos do Novo Testamento é o preconceito pseudocientífico daimpossibilidade de milagres. Eliminando a possibilidade de umaintervenção direta do poder de Deus para realizar e confirmar aRevelação Divina no Jesus histórico, precisam substituir os “milagres”por causas naturais.

Qualquerteoria derivada da exegese histórico-critica do protestantismo alemãocom sua pretensão de explicar tudo por métodos de crítica literária ede ter para tudo uma explicação que dizem científica serve para jogar oNovo Testamento na vala comum da mitologia.

Oprimeiro pressuposto para tais teorias é a demora entre osacontecimentos históricos e a redação dos textos evangélicos, um temposuficiente para a formação de mitos. No século XIX surgiram teorias quecolocaram a redação final dos evangelhos no segundo século.

Muitoscopiaram tais teorias e só recuaram diante de provas irrecusáveis pararecolocar a redação dos evangelhos para o primeiro século. No entanto,ainda prevalecem teorias que dizem que os evangelhos foram escritosmeio século depois da morte e ressurreição de Jesus.  Ressurreição ??? 

Quantomais complicada a teoria, melhor. Fica mais difícil de ser questionadapor pessoas sem doutorado e pósgraduação em ciências da religião. Entreas teorias mais complicadas temos a história das fontes com suasvariantes e seus adeptos.

Tenhoum conhecimento razoável das teorias de exegetas, mas ainda acreditoque a razão de tanta semelhança entre textos de autores diferentes temexplicação melhor que a teoria de cópias de pedaços entre os diversosautores. Os relatos são parecidos porque todos se referem aos mesmosfatos e discursos presenciados pelos autores ou recebidos por eles deoutros ouvintes da Palavra de Deus em Jesus e testemunhas dos sinaisrealizados pelo poder de Deus.

Omal não está nas teorias produzidas por especialistas estudiosos. O malé que são apresentadas como se fossem a última verdade. São muitopropagadas em comentários bíblicos e divulgadas em catecismos e manuaisde pregação. Tenho muita curiosidade, mas ainda não encontrei nenhumaprova racional para tanta demora entre a vida terrena de Jesus e aredação dos livros do Novo Testamento.

Nãohá razão objetiva para duvidar que os Atos dos Apóstolos tenham sidoescritos depois do Evangelho de Lucas. Quanto à data da redação dosAtos, tenho uma pergunta muito simples: Por que será que o livrotermina com a prisão de Paulo em Roma e não fala nada do martírio delee de Pedro ? Como se explica tal omissão estranha, se o livro foiescrito vinte anos depois da morte dos dois?

Sepodemos confiar nas afirmações de Lucas, o seu evangelho foi escritoantes do seu segundo livro, e antes do seu evangelho já existiam outrosrelatos sobre a vida e os ensinamentos de Jesus. Não seriam osevangelhos de Marcos e Mateus?

Poroutro lado, a data exata da redação dos evangelhos não é tãoimportante, pelo menos para quem crê na promessa que Jesus fez aos seusdiscípulos: O Espírito Santo vos fará lembrar e entender meusensinamentos.

Comessa promessa de inspiração divina dos evangelhos a nossa confiança napresença da Palavra de Deus nos evangelhos não depende de teorias decríticos literários, por mais competentes e dedicados que sejam.

Nafesta de Pentecostes, os cristãos celebram um acontecimento histórico,ou uma peça de literatura edificante da religiosidade popular?

Aindano primeiro capítulo dos Atos, Lucas diz que Jesus, antes de subir aocéu diante dos Apóstolos, prometeu a vinda do Espírito Santo, dentro depoucos dias.

Nosegundo capítulo, Lucas conta o que aconteceu dez dias depois, 50 diasdepois da Ressurreição. A vinda do Espírito Santo, no dia dePentecostes, marcada por sinais impressionantes, fez dos discípulosmedrosos missionários corajosos, inteiramente dedicados à sua missão deanunciar o evangelho ao mundo inteiro. Eles tinham feito a sua parte.Estavam preparados com dias de oração para acolher o dom do EspíritoSanto.

Nonosso século, o mundo está cheio de doutores da lei que não acreditamque foi assim que aconteceu. Não sabem dizer como foi, mas pretendemsaber que não foi assim como está escrito. Então, Lucas foi ummentiroso, escritor de fábulas piedosas?

Oabismo criado por modernos escribas e doutores da lei entre o Jesushistórico e o Cristo da fé tomou conta da exegese moderna que esvazia ovalor histórico dos evangelhos com preconceitos pseudocientíficos quesufocam a simplicidade da fé apostólica.

Tudoque tem cheiro de milagre, de intervenção direta de Deus na história dahumanidade, é substituído por explicações “científicas” trazidas daparapsicologia e da medicina. Onde não encontram explicações naturais,falam de mitologia, de produto do imaginário de crenças e tradiçõespopulares sem fundamento histórico. A palavra “sobrenatural”  já nãopode ser usada na teologia, por ser conhecida com significaçãodeturpada para coisas de assombração.

Ficoimpressionado com a alegação simplória que duvida da verdade históricade textos evangélicos aparentemente divergentes sobre o mesmoacontecimento ou sobre o mesmo discurso de Jesus.

Quantoà vinda do Espírito Santo, por exemplo, alegam contradições entre Lucase João. Segundo João, o Espírito Santo teria sido derramado sobre osapóstolos já no dia da ressurreição: Recebei o Espírito Santo.  A quemperdoardes os pecados…  Segundo Lucas, a vinda do Espírito Santoteria acontecido 50 dias depois. Portanto, um dos dois estaria errado,ou os dois.

Naleitura das Escrituras, assim como na vida, quem procura dificuldades,acha. O evangelista João, conhecedor dos Atos dos Apóstolos, não viucontradição, e também não viu necessidade de repetir o que já estava notexto de Lucas, assim como não repetiu o relato da instituição daEucaristia que já estava nos outros evangelhos.  Realçou o dom especialdo Espírito Santo para os Ministros do Sacramento do Perdão,confirmados na sua missão, apesar da fraqueza revelada na horadecisiva.

AIgreja de hoje também fala da presença do Espírito Santo já no Batismo.Mesmo assim, faz questão de um momento especial do Dom do EspíritoSanto no Sacramento da Crisma.

Poroutro lado, já surgem inovadores que querem abolir a Confirmação comoSacramento separado do Batismo. Outros querem aumentar cada vez mais aidade exigida para crismar, como se esse sacramento fosse um prêmioreservado aos heróis que por força própria conseguiram manter-se fiéisnas turbulências da adolescência.

Aconfirmação é uma realização especial da presença do Espírito Santopara os anos das primeiras decisões pessoais importantes para a vidatoda e para superar as dificuldades próprias dessa idade.

È por isso que as orientações sábias da Igreja não exigem mais que 12 anos de idade para a Confirmação.

Aquestão das interpretações divergentes dos textos evangélicos nasigrejas cristãs e dentro da própria igreja católica devia ser tratadacom mais profundidade, mas não resisti ao impulso de colocar algumasconsiderações, provocado por teorias alheias à fé católica apresentadaspor aí ao nosso povo justamente na festa do Espírito Santo.

Acredito na inspiração divina do Evangelho que merece nossa confiança como Palavra de Deus para nós.


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