Esses dias tive a alegria de ver o show de um jovem artista e, ao contemplar toda a paixão, energia e entusiasmo fui automaticamente transportado para o jovem artista Wilde Fábio, que aos 11 anos dirigiu sua primeira peça de teatro e que aos 17 entrou na Comunidade de Vida, diante de toda a sua intensidade e aventuras, uma pessoa para quem tudo era possível. Comecei a lembrar-me de tantas experiências vividas e retratadas pela arte, algumas conhecidas, outras não. E foi inevitável olhar para mim hoje e constatar: eu não sou mais aquele jovem!
Ao olhar pra mim, a primeira coisa que pensei foi: eu não tenho mais essa vitalidade, esse entusiasmo, essa paixão. Nem meu corpo, nem minha psique, nem meus afetos respondem mais da mesma forma como antes. Primeiro fui invadido por um sentimento de dor e tristeza profundas. E a minha primeira pergunta foi: o que aconteceu comigo?
Lembro que quando olhava para o jovem artista, ao mesmo tempo que me encantava, pensava em tudo que ele ainda vai sofrer, apanhar, aprender e, dentro de mim, surgia uma vontade muito grande de protegê-lo e guardá-lo. Admirava-me a paixão em seus olhos, a leveza em seu sorriso, a pureza em sua esperança, própria de quem ainda não se decepcionou.
E, por voltar a mim, procurar essas coisas e não as encontrar, a segunda pergunta foi inevitável: onde eu errei?
Entrei numa capela muito triste e me coloquei diante de Deus. Ao olhar para o Cristo Crucificado veio logo uma resposta. “Eu não dei minha vida a Deus? Ele pegou o que era Dele! Eu gastei os melhores anos de minha vida no serviço do seu Reino. Claro, que com meus limites e inconsistências humanas que carrego comigo, mas esse corpo, essas energias, esses afetos, esses dons, esses talentos, não foram gastos de outra forma”.
Assim, o sentimento de tristeza foi dando espaço a um choro tão consolador – fui tomado de gratidão. Sim, é verdade, eu dei minha vida a Deus! Sim, é verdade, a vida ofertada se gasta! Hoje não tenho mais energia para virar noites trabalhando como antigamente. Hoje, se eu forçar um pouco mais o meu ritmo e não respeitar meus limites, caio de enxaqueca e perco uma semana toda de trabalho.
O amor não é fantasioso! Em nenhum lugar! Não há como uma mãe, que ao ter bebê e passar noites acordadas, ou um pai que trabalha duro para sustentar uma família grande, não ter marcas, feridas, desgastes. Porque no amor a Deus seria diferente? Porque com Deus o caminho seria outro? Ofertar a vida a Deus é gastá-la! Perdê-la! Consumi-la! Não romanticamente, no mundo das ideias, da poesia e da canção! Mas na carne, no corpo, nas rugas, nas varizes, no joelho podre, na memória falha, nas entranhas, como a misericórdia!
Esses anos de vida ofertada, com certeza, deixaram marcas em minha carne, marcas que me acompanharão até o fim e que, com certeza, me conduzirão à morte. Mas não é pra isso que eu ofertei minha vida? Ou eu a ofertei para ser jovem eternamente?
Junto com o sentimento de gratidão, veio logo uma constatação: se aquele jovem, hoje, está vivendo essa experiência apaixonada, ele passou também pela minha vida, por eu ter ofertado minha arte a Cristo na juventude. É por isso que aquele jovem agora pode dar os passos que ele está dando.
E, automaticamente, começou a passar pela minha memória centenas de rostos que – eu sei – Deus fecundou através de minha oferta de vida. E sabendo quem sou, em minha pobreza e pecado, fiquei ainda mais grato e o choro ficou mais caudaloso sobre meu rosto, à medida que me senti responsável também por esse povo!
“Uma coisa é o conceito, outra é a experiência”
Comecei a perceber, então, que eu não perdi a paixão, a vitalidade e o entusiasmo, mas ao contrário, eles foram purificados e forjados ao longo de anos. Por isso, suas raízes em mim não se encontram mais nas camadas superficiais de meu ser, mas nas camadas profundas, onde eles crescem silenciosamente, dando frutos de maturidade de uma forma que eu nunca esperaria ou poderia imaginar.
Compreendi que, na verdade, minha paixão continua acesa, mas ela não é mais uma chama, que “horas” têm quilômetros de altura e, no instante seguinte, se apaga. Na verdade, ela é uma chama cálida, perene, que permanece viva serenamente pois não tem sua origem em mim. Compreendi que meus recursos, energia, corpo, psique, afetos são limitados e já foram bastante gastos e, por isso mesmo, nunca mais poderão se dar como antigamente, e isso é a vida, simples assim! E sou muito grato por todos os esforços que empreendi.
Quanto ao entusiasmo, percebo que ele existia, antes, muito embasado em fantasias acerca de mim, de Deus, dos outros, da Comunidade, da Igreja e da própria arte. Hoje, depois de tantas desilusões em todos esses âmbitos, fui conhecendo a insuficiência de cada uma dessas coisas. Nem a arte, nem a Comunidade, nem a Igreja, nem os outros, foram capazes de ser o que meu coração ansiava: SÓ O PRÓPRIO DEUS É. E Ele vem a mim através de tudo isso, da arte, da Comunidade, da Igreja, do outro, mas que nada disso é Deus! E quanto mais eu conheço os limites e as fragilidades humanas desses meios, mais eu me encanto e reconheço neles o meu lugar!
Antes, pensava que pra mim tudo era possível! Isso, hoje, não penso mais! Essa ingênua prepotência foi, pouco a pouco, vencida pela experiência da própria impotência. Nesse ponto me sinto muito seguro acerca de quem sou, de meus dons e capacidades, mas a frase mudou: não a mim, mas a Deus, tudo é possível!
E isso eu aprendi ao longo de anos provando de Sua fidelidade, Seu braço forte, Sua providência, Sua graça, Seu sustento! Sim, é verdade, a Ele tudo é possível! É bom lembrar que esse TUDO é o que Ele quer e não o que eu quero! Ele pensa muito diferente de nós!
Hoje não são mais aventuras pontuais, a minha vida se tornou minha maior aventura e é nela, dia após dia, que eu colho os frutos de tudo que vivi. Sei que só tenho 42 anos e ainda tenho muita coisa pra viver, se assim Deus me permitir, mas sou muito feliz e grato por tudo que vivi até aqui!
Deus, ao longo dos anos, me cercou de inúmeros amigos que foram pra mim instrumentos das mãos de Deus que me construíram, me fizeram crescer, amadurecer. Minha história inteira é marcada pela figura de amigos, alguns que permanecem até hoje, outros que já passaram, alguns que já estão na eternidade.
Encerro essa partilha com esta música de autoria própria, a qual se torna uma oração pessoal todos os dias na minha vida, onde peço a Jesus que sempre roube meu coração pra Ele. Nesse vídeo, que segue, me acompanha ao piano um grande amigo, cuja amizade me fez mais eu mesmo.
Obrigado, Eduardo Taufic, por me enxergar e me amar como sou! E na figura dele, quero agradecer a todos os meus amigos que encarnam o amor de Deus em minha vida. Porque tudo passa e a única coisa que permanece é o amor!
Se você hoje me perguntar: “- Wilde Fábio, quem é Deus?”. Eu te respondo:
- É UM AMIGO.
Ver essa foto no Instagram
Wilde Fábio
