Formação

Perdoai-me, Senhor, porque sou brasileiro!

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No dia 1° de agosto, a Igreja Católica celebrou a festa de Santo Afonso Maria de Ligório, bispo e fundador da Congregação do Santíssimo Redentor, popularmente conhecidos como Redentoristas. Nascido numa família italiana de muitas posses, pôde dedicar-se tranqüilamente aos estudos. Sua carreira foi brilhante: aos 17 anos, já era formado em “utroque iure”, no direito civil e canônico. Começou a advogar aos 19 anos. Jamais perdeu uma causa até os 27 anos, quando se saiu mal num importante processo, por não ter pactuado com os sofismas de uma jurisprudência ambígua e perversa. Assim, para salvar a sua alma, abandonou a carreira e imprimiu um rumo novo à sua vida.

Veio-me à mente este fato quando, na quarta-feira, dia 29 do mesmo mês, os meios de comunicação difundiram para todo o Brasil que o promotor Tales Ferri Schoedl havia sido aprovado pelo Ministério Público de São Paulo, por 16 votos a 15, a permanecer no cargo, apesar de ter assassinado, em 2004, o jovem Diego Mendes e ferido outro rapaz. Após o crime, fora afastado de suas funções, mas mantinha o cargo de promotor substituto, com um salário de R$ 10.500,00.

Pela decisão, Tales passaria a atuar no Ministério Público de Jales, e assumiria suas funções assim que a sentença fosse publicada no “Diário Oficial” do Estado. Nas palavras do Procurador-Geral, «Schoedl poderia trabalhar em todas as áreas, com o mesmo tratamento reservado a qualquer outro Promotor de Justiça». Permanecendo no cargo, Tales seria julgado pelo Tribunal de Justiça; caso contrário, pelo Tribunal do Júri, como uma pessoa comum.

Talvez pelo constrangimento que a sentença provocou na opinião pública nacional, uma semana após, no dia 3 de setembro, o Conselho Nacional do Ministério Público, de Brasília, suspendeu a decisão do Ministério Público de São Paulo.

Questiona e provoca a pergunta que os familiares das vítimas dirigiram à sociedade brasileira quando souberam do veredicto do Ministério Público de São Paulo: como poderia promover a justiça um criminoso que se mantinha no cargo por uma decisão iníqua? Entre lágrimas, o pai de Diego bradava: «Infelizmente, em nosso país, o homicídio compensa mais do que o roubo. A vida não tem nenhum valor». Dizendo-se disposto a recorrer à Organização dos Estados Americanos para buscar a justiça que não obtinha no Brasil, acrescentou: «Perdemos uma batalha importante numa instituição que acreditávamos fosse minimamente decente».

Na opinião do advogado das famílias das vítimas, o corporativismo falou mais forte do que a honestidade. E lembrou: «Nem tudo o que é legal é moral».

Não é por nada que a justiça é sempre apresentada de olhos vendados. Ela nada vê e nada sabe… quando interesses mais ou menos ocultos tentam comprá-la ou vendê-la.

O problema, porém, não é de hoje, se a própria Bíblia investe contra os manipulares da justiça: «Deus se levanta no conselho dos juízes e pergunta: “Até quando julgareis injustamente, favorecendo a causa dos perversos?” Mas eles não percebem nem entendem: caminham numa grande escuridão e abalam os fundamentos do universo» (Sl 82).

A conclusão do salmista não podia ser mais pessimista (ou realista?): «Eles não percebem nem entendem: caminham numa grande escuridão e abalam os fundamentos do universo».

Não pense o leitor que estou jogando no mesmo balaio a quantos se dedicam à administração da justiça. Se o fizesse, estaria incorrendo no mesmo equívoco que condeno naqueles que, pelo erro de um sacerdote, atingem a honra de todos. Sei de um grande número deles que colocam a justiça acima de tudo, até mesmo de sua carreira e… de seus honorários!

Parece que foi Dostoievski quem escreveu: «Tirem Deus da sociedade e tudo será permitido». É o que está se verificando em toda a parte. Banimos Deus do coração e da sociedade e, depois, fingimos escandalizar-nos porque a justiça é cega, a violência aumenta, as famílias se desestruturam, os jovens andam desorientados, as drogas avançam, e não se sabe mais a que santo recorrer. Tinha razão o salmista quando descobriu que «se não é o Senhor quem constrói a nossa casa, em vão trabalham seus construtores; e se o Senhor não vigiar a nossa cidade, em vão vigiam as sentinelas» (Sl 127).

Talvez alguém se pergunte porque dei ao artigo um título tão estranho. Encontrei-o em São Jerônimo, um santo estressado e briguento, nascido na Dalmácia. Ante seus momentos de fraqueza, não cansava de repetir: «Perdoai-me, Senhor, porque sou dálmata!»

Se tenho mil motivos para agradecer a Deus por ter nascido no Brasil, contudo, não raras vezes, diante do mal que nos causamos mutuamente, não posso deixar de acrescentar: «Perdoai-me, Senhor, porque sou brasileiro!»

Dom Redovino Rizzardo
Bispo diocesano de Dourados (MS)


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