Quando se fala de fé, de transcendência, de mundo espiritual, pode ser que venha à nossa memória as figuras de anjos e de demônios. Pensamos ainda em Deus, como esse ser absoluto, pleno e perfeito. Esses princípios poderiam levar alguém a se perguntar: Qual o sentido de a Igreja parar, meditar e mergulhar no mistério do “Corpo de Cristo”?
Corpo lembra vida, lembra ação e movimento, é verdade, mas lembra também morte, passagem, transitoriedade e lembra limites. Devido ao secularismo e ao relativismo de valores em que vivemos, o corpo também pode ser erroneamente associado ao erotismo, à sensualidade, à pornografia, etc. Que mistério e que ensinamento podemos contemplar, então, nessa celebração do Corpo de Cristo?
Sentido do corpo humano
Para responder a essa pergunta, precisamos mergulhar no sentido profundo e teológico do corpo humano. A teologia da Igreja compreende o corpo humano como uma magnifica obra de Deus. O corpo é tão importante, que a Sagrada Escritura, ao narrar de forma simbólica e espiritual a criação, diz: “Deus disse: ‘Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança. Domine ele sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu, sobre os grandes animais de toda a terra e sobre todos os pequenos animais que se movem rente ao chão.’” (Gênesis:1,2).
Essa narrativa de Gênesis nos faz ter uma ideia do tamanho da ofensa que o pecado humano causa a Deus. Ele foi a única criatura pensada e criada à imagem e semelhança do seu Autor e Senhor. O mal do pecado foi tão grande, que tudo estava perdido. Deus, então, realiza algo surpreendente, que deixariam de boca aberta mesmo os grandes profetas do Antigo Testamento, leia:
“O anjo entrou onde ela estava e disse: ‘Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo!’ Maria ficou perturbada com estas palavras e começou a pensar qual seria o significado da saudação. O anjo, então, disse-lhe: ‘Não tenhas medo, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. Eis que conceberás e darás à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus. Ele será grande, será chamado Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de seu Pai Davi. Ele reinará para sempre sobre os descendentes de Jacó, e o seu reino não terá fim’. Maria perguntou ao anjo: ‘Como acontecerá isso, se eu não conheço homem algum?’ O anjo respondeu: ‘O Espírito virá sobre ti, e o poder do Altíssimo te cobrirá com sua sombra. Por isso, o menino que vai nascer será chamado Santo, Filho de Deus. Também Isabel, tua parenta, concebeu um filho na velhice. Este já é o sexto mês daquela que era considerada estéril, porque para Deus nada é impossível’. Maria, então, disse: ‘Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra!’ E o anjo retirou-se.” (Lucas:1,26-38).
O “sacramento da pessoa”
Na compreensão da Igreja, o corpo humano é o “sacramento da pessoa”. O que isso significa? Significa que o corpo é uma manifestação visível, material, daquilo que a pessoa é na totalidade. A encarnação de Jesus, então, profetiza com atos o que significa o amor. Amar significa se colocar na condição do outro, significa assumir suas causas e dores, enfrentar seus medos, estar unido a ele.
Deus, então, expressa Seu Amor de forma extremamente radical. Seu ato foi maior do que todos os Seus grandes gestos descritos nos livros do Antigo Testamento. Nesse ato amoroso, Deus se encarna, se faz homem no seio virginal de Maria.
Ele amou ao ponto de assumir nosso corpo. Celebrar então o dia de “Corpus Christi” significa fazermos memória do quanto somos amados por Deus. Ele, que não tendo nada mais belo para se inspirar em nossa criação, contempla a Si mesmo.
Que esse dia seja uma oportunidade de reavaliarmos nossa relação com o nosso corpo, amadurecermos e fortalecermos a disposição de jamais, em hipótese alguma, usarmos esse tesouro para outra coisa, que não seja: amor, pureza, serviço e doação.
Que Deus abençoe sempre você, Shalom!
Por Rodrigo Santos