Já vimos um pouco o que é a Palavra de Deus, sua eficácia na liturgia e a necessidade de se ter um contato pessoal com a Sagrada Escritura. Passemos agora a considerar algumas passagens que tratam da leitura da Lei (AT) ou da conservação das palavras de Jesus (NT). Isso nos dará subsídios para iniciarmos a cultivar uma espiritualidade bíblica da lectio divina.
Em Dt 6 encontramos um dos textos mais importantes sobre este nosso tema. Mandamentos, leis, preceitos, costumes, são todos sinônimos para designar a Torá, o Pentateuco (os cinco primeiros livros da Bíblia). Sem medo de errarmos, poderíamos substituir estes sinônimos por “Palavra de Deus”.
Para uma espiritualidade bíblica da Lectio Divina
“Tu escutarás, Israel, e cuidarás de pô-los (os mandamentos = Palavra de Deus) em prática: assim seremos felizes” (v. 3). Escutar é a ação mais importante para o fiel judeu, escutar os preceitos do Senhor, a sua vontade contida nas Escrituras santas. Por isso, a profissão de fé mais importante do Antigo Testamento, que se encontra neste capítulo que estudamos (v. 4b), começa com um convite imperativo: Escuta Israel! (v. 4a). Por isso também, antes de Moisés recordar ao povo o decálogo, ele convida à escuta: “Escuta Israel, as leis e os costumes que hoje proclamo aos vossos ouvidos” (Dt 5,1). É preciso escutar a Palavra do Senhor não só quando se participa de uma assembléia mas também quando se lê a palavra sozinho: “Este livro da Lei não se afastará da tua boca, murmura-lo-ás dia e noite, a fim de que tenhas o cuidado de agir conforme tudo o que nele se acha escrito” (Js 1,8); e ainda: “Feliz o homem que (…) recita sua Lei dia e noite!” (Sl 1,2).
Como nossa cultura se distanciou deste costume judaico! Hoje aprendemos a fazer leitura silenciosa, mental. Com isso perdemos muito da riqueza da Palavra de Deus. Os nossos ouvidos deixam de escutá-la. A Palavra não pode entrar em nós através do nosso sentido auditivo, mas tão somente da nossa visão. E sabemos que quanto mais nos expomos à Palavra de Deus mais podemos ser atingidos por seu poder salvador, restaurador e santificador. É preciso recuperar este costume.
Uma boa escuta implica não só na compreensão, mas também no guardar (cf. Dt 4,40), conservar as palavras de Deus no coração, sede da memória do homem bíblico: “As palavras dos mandamentos que hoje te dou estarão presentes no teu coração; tu os repetirás a teus filhos” (v. 6-7). Para o judeu, guardar as palavras no coração significa memorizá-la, decorá-la para poder repeti-la durante o dia, ou nos momentos de necessidade. Mais uma vez nossa cultura se distanciou deste aspecto fundamental da cultura judaica: decorar (a Palavra de Deus). Hoje dizemos que decorar é para quem não é muito inteligente, quem não tem muita capacidade de raciocínio. Mas é justamente o contrário. Decorar é o primeiro passo de uma compreensão mais profunda, especialmente de textos. Decorar vem da locução de cor mais o sufixo –ar. A partir daí podemos dizer que decorar significa “aprender de coração”, por isso, só se decora algo importante (uma poesia para se recitar para a amada, os nomes dos antepassados, o endereço ou o telefone da casa onde estou hospedado em uma cidade desconhecida, etc).
Por que decorar as Sagradas Escrituras?
É importante saber o porquê decorar a Sagrada Escritura.
- Em primeiro lugar porque se ama. Se recebo uma carta de alguém que amo muito e me ama igualmente, é natural que eu a leia tanto que acabe decorando.
- Outro motivo é a necessidade que temos de recorrer às palavras da Bíblia mesmo quando não a temos em mãos. Como é prazeroso contemplar a natureza recitando Dn 3,57ss; ou, vendo a aurora, dizer: “O Deus, o meus Deus és tu! Desde a aurora eu te desejo” (Sl 62,2). Ou quando se está cheio de alegria cantar salmos aleluiáticos: “Aleluia? Cantai ao Senhor um cântico novo; cantai seu louvor na assembléia dos fiéis (Sal 149,1. Cf. Sl 146-150).
- Mas a razão mais importante para decorarmos a Palavra de Deus é dado nos vv. 10-12 do texto que estamos lendo (Dt 6): “Quando tiveres comido até te saciares (na terra que o Senhor vai dar a Israel), cuida de não esqueceres o Senhor…” para não cairdes no pecado da idolatria (cf. Dt 6,13-16). “Lembrar a Palavra” significa lembrar do Senhor, dos feitos que operou em favor de seu povo para e torná-los atual, eficazes no hoje. Quem não tem memória, ou quem se esquece de Deus, é atraído pelo mundo com suas idolatrias e acaba caindo no pecado.

