Mesmo por entre dificuldades e incertezas, todo homem sinceramente aberto à verdade e ao bem pode, pela luz da razão e com o secreto influxo da graça, chegar a reconhecer, na lei natural inscrita no coração (cf. Rm 2,14-15), o valor sagrado da vida humana desde o seu início até o seu termo, e afirmar o direito que todo ser humano tem de ver plenamente respeitado este bem primário. “A vida humana é sagrada porque desde a sua origem ela encerra a ação criadora de Deus, e permanece para sempre numa relação especial com o Criador, seu fim último” (Cat, 2258).
“Ponho diante de ti a vida e a morte, a bênção e a maldição; escolhe, pois, a vida, para que vivas” (Dt 30,19). A escolha pela vida deve ser renovada e vivida dia após dia, nas maiores circunstâncias como nas mais modestas. Escolher a vida nem sempre é o caminho mais fácil, mas é o único que realiza plenamente o homem, porque este tem sede de vida eterna. Escolhendo a vida, não estaremos desbravando sombrias florestas de cultura de morte, mas estaremos depositando a nossa fé nas palavras de Jesus e nos deixando cuidar pela Igreja, a qual Cristo “amou, pela qual se entregou, a fim de santificá-la” (Ef 5,26).
Toda e qualquer ameaça à dignidade e à vida do homem repercute no coração da Igreja, porque todos foram confiados à sua solicitude materna. Isto torna-se claro para nós, quando vemos que São João Paulo II esteve presente em todos os lugares onde a vida humana é ameaçada; porque Cristo jamais abandona o homem.
Anunciar a vida é particularmente urgente nos dias atuais, especialmente porque crescem as múltiplas formas de ameaças a ela.
Na carta encíclica Evangelium Vitae, João Paulo II deplora – em nome da Igreja inteira, com a certeza de interpretar o sentimento autêntico de toda reta consciência – tudo quanto se opõe à vida. Na esperança de que suas palavras cheguem a todos os filhos e filhas da Igreja (povo da vida e para a vida), que cheguem também a todas as pessoas de boa vontade, solícitas pelo bem de cada homem e mulher e pelo destino da sociedade inteira!
O Evangelho da Vida – que ressoa logo no princípio, com a criação do homem à imagem de Deus, para um destino de vida plena e perfeita (Gn 2,7; Sb 9,2-3) – vê-se contestado pela experiência dilacerante da morte que entra no mundo, lançando o espectro da falta de sentido sobre toda a existência do homem (Gn).
O Senhor disse a Caim: “que fizeste? A voz do sangue do teu irmão clama da terra até mim” (Gn 4,10). A voz do sangue derramado pelos homens não cessa de clamar, de geração em geração, assumindo tons sempre novos e diversos.
A pergunta do Senhor: “que fizeste?”, da qual Caim não se pôde esquivar, é dirigida também ao homem contemporâneo, para que tome consciência da amplitude e gravidade dos atentados à vida que continuam a registrar-se na história da humanidade; para que vá à procura das múltiplas causas que os geram e alimentam; enfim, para que reflita com extrema seriedade sobre as conseqüências que derivam desses mesmos atentados para a existência das pessoas e dos povos.
Podemos afirmar que o maior drama que o homem contemporâneo enfrenta é a falta de sentido de Deus e do homem: Perdendo o sentido de Deus, tende-se a perder também o sentido do homem, da sua dignidade e da sua vida. Vejamos o que diz o Concílio Vaticano II a este respeito: “Sem o Criador a criatura não subsiste. (…) Antes, se se esquece de Deus, a própria criatura se obscurece” (GS, 36). Ou seja, vivendo como se Deus não existisse, o homem perde o sentido não só do mistério de Deus, mas também do mistério do mundo, e do mistério do seu próprio ser.
O valor, a dignidade, a grandeza e o sentido da vida humana estão expressos no sangue redentor de Cristo. Se Deus sacrificou o seu amado, o seu Filho único pelo homem, é porque este tem grande valor aos olhos de Deus!
Devemos cultivar em nossos corações e deixar que transborde em nossos atos a gratidão a Deus pelo dom da vida. Devemos anunciar sem medo, a este mundo onde cresce assustadoramente a cultura de morte, o Evangelho da vida. Porque cada pequena semente que lançamos em favor da vida, mesmo que ninguém note e fique escondida aos olhos dos outros, o Pai “que vê o segredo” (Mt 6,4) não só recompensará como a tornará fecunda.
A nossa esperança não deve enfraquecer-se ante tantas ameaças à vida, pois a morte já foi derrotada. Poderíamos perguntar: “Por que, então, ela cresce demasiadamente e de tantas formas?” Para que brilhe com maior esplendor a vitória de Cristo na cruz através da potente força de amor pela vida que existe no coração de cada homem.
Este é o momento em que o Povo de Deus é chamado a professar, com humildade e coragem, a própria fé em Jesus Cristo, o “Verbo da Vida” (1Jo 1,1). O Evangelho da Vida não é uma simples reflexão, mesmo se original e profunda, sobre a vida humana; nem é apenas um preceito destinado a sensibilizar a consciência e provocar mudanças significativas na sociedade; tampouco é a ilusória promessa de um futuro melhor. O Evangelho da Vida é uma realidade concreta e pessoal, pois consiste no anúncio da própria pessoa de Jesus.
“Permitam que Cristo fale ao homem” (São João Paulo II). Ao apóstolo Tomé – e nele a cada homem – Jesus apresenta-se com estas palavras: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida (Jo 14,6). A mesma identidade foi referida a Marta, irmã de Lázaro: “Eu sou a ressurreição e a vida; quem crê em mim, ainda que morra, viverá; e todo aquele que crê em mim não morrerá jamais” (Jo 11,25-26). Jesus é o Filho que, desde toda a eternidade, recebe a vida do Pai (cf. Jo 5,26) e veio estar com os homens, para os tornar participantes deste dom: “Eu vim para que todos tenham vida, e a tenham em abundância” (Jo 10,10).
Formação: Junho 2004