Algum tempo atrás estava em uma fila de supermercado e havia duas pessoas discutindo sobre um determinado assunto, algo trivial como o time de futebol ou alguma realidade local em que tinham posicionamentos diferentes. Sem perceber, em pouco tempo lá estava eu tentando entender o motivo da disputa, até o celular deixei de lado. Não lembro muito bem do que se tratava, mas lembro que no meu coração eu discordava das duas posições, entretanto, nem deveria estar prestando atenção, pois não conhecia nenhum dos dois, como também não seria eu que iria entrar em um embate com duas pessoas ali.
Logo que passei pelo caixa, percebi um fato interessante: como eu fiquei incomodado de não ter posto minha opinião naquele momento, pois estava certo de que eles não sabiam a verdade, então cabia a mim explicar para eles o que era e impor meus argumentos a ponto de os convencer sobre os fatos! Que grande bobagem! Mal se formou esse pensamento e logo percebi o maior erro de todos que eu iria cometer: corações não se convencem da verdade com argumentos, mas com amor! É claro que a verdade importa, mas pode alguém escutá-la e acolhê-la quando está numa disputa de quem está certo e não em um diálogo de irmãos em busca do verdadeiro?
“Não se imponha verdade sem caridade, mas não se sacrifique a verdade sem caridade”
Saindo dali eu comecei a pensar no que havia acontecido e em como eu ajo nas redes sociais, na evangelização, no diálogo com os que não acreditam no mesmo que eu: qual deveria ser minha atitude perante aqueles que não conhecem a Cristo? Então me veio a frase de Santo Agostinho que diz: “Não se imponha a verdade sem caridade, mas não se sacrifique a verdade em nome da caridade”, onde ele sintetiza, de alguma forma, esse pilar duplo onde se apoia a vida do cristão, a caridade e a verdade, interconectadas e que foram durante toda a vida de Cristo o seu modo de agir para àqueles que ainda não o conheciam.
O Papa Bento XVI, por meio de uma de suas encíclicas, vem chamar esse modo de agir de “Caritas in veritate”, nela nos abre um horizonte claro dos riscos de deixar o agir guiado por uma coluna sem a outra, onde caminharemos sempre com algo faltante, ou no sentimentalismo mentiroso, ou na verdade insuportável, pesada; ambos insuficientes para alcançar o mundo e sem força para apresentar a figura do Salvador.
Caridade sem a verdade
Sobre o primeiro ponto, a encíclica Papal traz um trecho, logo no começo, que esclarece muito o assunto:
“Um cristianismo de caridade sem verdade pode ser facilmente confundido com uma reserva de bons sentimentos, úteis para a convivência social mas marginais. Deste modo, deixaria de haver verdadeira e propriamente lugar para Deus no mundo.” Caritas in Veritate
Que a caridade é a mais importante das virtudes, o maior dom que Deus pode nos dar, não há dúvida! É ela a única capaz de nos sustentar por toda uma vida e de animar, criar vida na alma para permanecermos fiéis ao amor que temos recebido. É ela a “verdadeira amizade sobrenatural que nos une a Deus (…) (e) nos faz amar sobrenaturalmente o próximo”¹, é ela que jamais acabará² e de todas as virtudes teologais será a única que levaremos por toda a eternidade pois é ela o fruto da graça santificante que receberemos ao vermos o Pai e todo o nosso coração for preenchido por Ele.
O problema está quando confundimos caridade com um mero sentimentalismo e renunciamos à verdade, que tem um nome, apenas para sermos aceitos na sociedade, no grupo, ou para não entrarmos em choque com os valores do outro. A Caridade sem a verdade perde a força de Cristo, pois passa a trocar o bem pelo não incomodar, e com isso a mensagem de Cristo se torna marginal, desnecessária, deixando de ser a salvação para ser um mero incomodo entre tantos outros, e que deve ser omitido para que o outro seja aceito.
“Sem verdade, a caridade cai no sentimentalismo. O amor torna-se um invólucro vazio, que se pode encher arbitrariamente.” Caritas in Veritate
A verdade sem caridade
Já no segundo ponto, a verdade sem caridade, corremos o risco de deixar esmorecer o papel essencial do cristão: anunciar Cristo, anunciar a redenção, anunciar que o Amor veio ao mundo para salvar as almas e não condená-las!³ Anunciar a Cristo é o nosso dever4, mas quando fora da caridade deixa de ser boa nova, deixa de ser a proclamação da Salvação para tornar-se um anúncio frio, uma posição entre tantas outras que vemos no mundo. Não devemos esquecer nunca que a força da verdade está encravada no amor de Deus, é Ele que atrai5, que converte e convence, pois todo ser humano anseia por esse amor.
É Cristo que é Amor, é o caminho, a verdade e a vida. Enquanto nosso diálogo sobre o mundo for pautado Nele, o amor prevalecerá e não perderemos nunca a caridade, mesmo que seja necessário proclamar verdades duras, com temas tão relevantes quanto o casamento, o aborto, a doutrina social da igreja, o sacerdócio; ainda ali haverá espaço para o diálogo mais importante que devemos ter com os que não creem, o de que existe uma salvação, um caminho, uma vida verdadeira, aquela em que o amor impera.
E assim, aprendi a resposta de como deveria ser minha atitude: antes da verdade é necessário primeiro amar, e esse amor irá dilatar o nosso coração para incluir o próximo, com um desejo de que todos encontrem a Cristo. É o amor que cobrirá os pecados6, que transformará as vidas. Quando formos capazes de antecipar o amor a Deus e ao outro, antes do julgamento, quando estivermos aptos a desejar que todos O conheçam, aí a verdade será, antes de tudo, um sinal caridoso de quem deseja que o mundo seja salvo por Ele, aí haverá diálogo, pois haverá testemunho da verdade.
1 O homem e Eternidade. Garrigou-Lagrange O.P.
2 1 Cor 13, 8
3 Jo 12,47
4 Evangelli Nutiandi – parágrafo 5
5 Jo 12,32
6 1 Ped 3,9
Rafael Rosemberg
Missionário da Comunidade de Aliança

Excelente texto. Obrigado. A caridade é mesmo o que devemos suplicar sempre, para dilatar nossos corações.