É notável a forma como o Evangelho de São João 13, 1-15 nos leva a recordar de um outro momento da vida pública de Jesus em João 2, 1-12 nas Bodas de Caná, onde Jesus afirma que sua hora não chegou, mas intervém, pedindo que os serventes enchessem as talhas d’água e apresentasse ao mestre-sala a água transformada então em vinho.
Hoje, neste Evangelho da Quinta-feira Santa, contemplamos Cristo que “sabendo que chegara a sua hora de passar deste mundo para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim” (Jo 13, 1). Eis que somos introduzidos numa profunda dinâmica de caridade, na qual, mesmo sabendo daquele que o trairia, Cristo se abaixou e lavou seus pés. O Mestre e Senhor, o mais digno e mais puro, se cinge com uma toalha, e assim como um escravo que se prepara para limpar os pés imundos de seu senhor ao retornar da rua, Jesus se abaixa e naquele abaixar-se nos convida a imitá-lo.
Ele que, em sua auto-revelação solicitou aos serventes que enchessem as talhas de água, naquele momento se fazia servente, deitando sob uma bacia a água que agora não seria transformada em vinho, mas que era o prelúdio de seu sangue derramado sob o que temos de mais imundo: os nossos pecados.
Neste gesto, não fomos chamados a lavar os pés apenas dos nossos bons amigos, mas de todos aqueles que nos cercam, fazendo do nosso Batismo um gesto concreto e, até mesmo, humilhante mediante uma humanidade que necessita de uma ação simples e concreta.
Seguindo o exemplo que Cristo nos deu, lavando os pés uns dos outros, temos por desejo sermos outros cristos em comunhão com a vontade de Deus e unidos à Igreja. Assim, nesta Quinta-feira Santa, o nosso Santo Padre, Papa Francisco celebrou a Missa da Ceia do Senhor no Instituto Penitenciário de Velletri, nos arredores de Roma, onde afirmou: “sejam irmãos no serviço, não na ambição”.
“E Jesus faz este gesto: lavar os pés. Ele faz o gesto do escravo: Ele que havia todo o poder, que era o Senhor, faz o gesto do escravo e depois aconselha todos a fazerem este gesto: sirvam uns aos outros, sejam irmãos no serviço, não na ambição de quem domina o outro ou espezinha o outro. Não. Serviço”.
Em sua homilia, o Santo Padre foi direto ao afirmar que a posição daquele que está a frente é o serviço, combatendo a ideia mundana de grandiosidade: “este gesto de hoje seja para todos nós um gesto que nos ajude a sermos mais servidores uns dos outros, mais irmãos no serviço”.
Sejamos estes que se abaixam diante da majestade encarnada de Cristo, em vista do próximo, do nosso outro. Que não seja mais um Tríduo Pascal, mas que seja uma mudança de vida rumo a santidade!
“É a regra de Jesus e do Evangelho: a regra do serviço, não do dominar, machucar, humilhar os outros”.
