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Hoje, Jesus, contaria a parábola do bom Samaritano do mesmo jeito?

Seguro morreu de velho, diz o provérbio. Do bom samaritano, não sabemos. Com a mania que ele tinha de se meter na vida dos outros, pode ter acabado antes do tempo. Assim acontece aos imprudentes, com àqueles que não sabem ficar fora, que não conseguem deixar pra lá. Eles têm no sangue a boa vontade, têm que ajudar alguém; se não o fazem, não ficam satisfeitos. Tem o complexo do boy-scout: no mínimo, uma boa ação por dia. O sacerdote e o levita foram mais expertos. Eles não viram nada, não sabiam de nada e nem queriam saber. Também não arriscaram nada, passaram longe.

Se Seguro morreu de velho, dizem que Desconfiado ainda está vivo. Hoje é o caminho certo. Já pensaram? E se o homem caído no chão fosse só um disfarce para os comparsas dele assaltarem a gente?

Conheço uma pessoa que parou para dar carona a uma mulher. Foi só parar, roubaram-lhe o carro e a carteira. Precisou pedir ajuda para voltar para casa. A companhia de seguros não queria pagar a perda do carro porque, diziam, ele tinha parado de livre e espontânea vontade.

Outro conhecido ajudou a um ciclista, que estava caído no asfalto. Teve que dar depoimento na polícia, porque acabaram suspeitando que fosse ele o atropelador.

O bom samaritano se arriscou demais. Foi pagar até a pensão para o homem que havia socorrido na estrada. Loucura! Alguém podia imaginar que estivesse escondendo a verdade. Ele, na realidade, podia ser o chefe dos ladrões, participar da quadrilha. Queria só resguardar a sua reputação, daí o esbanjamento do dinheiro. Já sabia como recuperá-lo, depois.

A esta altura poderíamos nos perguntar se hoje, Jesus, contaria a parábola do bom Samaritano do mesmo jeito. Contaria igualzinha, podem apostar. Jesus é o verdadeiro Bom Samaritano da humanidade.

Quem está com a cabeça poluída de desculpas para não sentir compaixão e acomodar-se na indiferença, somos nós. Em nome da prudência, do perigo de expor-se, do bom senso em não se meter na vida dos outros, acabamos ficando com um coração de pedra.

A miséria está fora da porta de casa, mas não queremos vê-la. A fome grita pelas estradas, pela boca dos excluídos, mas os nossos ouvidos estão tapados. O desemprego humilha as pessoas todos os dias, mas não nos interessa, nós temos o salário garantido.

Tem mais. O serviço de saúde pública não funciona, pouco importa, nós temos o plano de saúde. O transporte público deixa as pessoas na mão. Não temos nada a ver, viajamos de carro quando e como queremos. Há quem morre de bala perdida? È só mandar blindar os vidros. Os cofres públicos são esvaziados pelos espertalhões e os laranjas deles; melhor não mexer, podemos precisar deles um dia. Ai de nós, desgostarmos o poderoso chefão? Nunca. Vamos ficar quietos.

E assim de possíveis bons samaritanos, passamos a ser vítimas da nossa própria insensibilidade. Se nós não queremos saber de nada, por que os outros deveriam incomodar-se conosco? Na briga pela sobrevivência, que o fraco se vire. Assim pensa quem está com tudo. Mas o mundo dá muitas voltas. Somente a solidariedade, pode derrubar os muros da indiferença e do egoísmo. A Boa Samaritana paga para ajudar. Jesus dá a sua vida para ser o caminho do amor e da esperança em um mundo de novas relações humanas. Um mundo de irmãos e amigos, não de feras se digladiando.

Assim temos uma paróquia dedicada a Jesus, Bom Samaritano. Nunca vamos ter a Igreja de Jesus, prudente Sacerdote, ou de Jesus desconfiado levita.

Dom Pedro José Conti,
Bispo de Macapá

Fonte: CNBB


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