A perda imprevista de um ente querido traz dor.
“A morte inesperada é sempre objeto de choque e de trauma. A pessoa fica paralisada, pois percebe que não deu tempo de se preparar, de se despedir de quem se foi de forma abrupta”, explica o missionário da Comunidade de Aliança Shalom e psicólogo, Rafael Morel.
“Por conta disso podem surgir questões capazes de favorecerem um estresse pós-traumático, início de quadro depressivo desembocando em um luto mais severo, uma vez que a pessoa teve dificuldade de encontrar um sentido”, pontua.
Para a também psicóloga e missionária da Comunidade de Aliança Shalom, Lisieux Rocha, “deparar-se com a finitude da existência, diante da morte de uma pessoa próxima da família, ou uma figura pública, por exemplo, nos confronta com o que a vida espera de cada um de nós e pode favorecer com que a pessoa desperte sua consciência para o encontro do sentido em cada situação existencial, como seres livres e responsáveis que somos”.

Segundo Lisieux, “refletir sobre a brevidade da vida pode aprimorar a capacidade humana de priorizar escolhas mais assertivas e menos inconsequentes, e que coadunem o sentido que a consciência aponta a ser realizado”.
A psicóloga pontua que essa reflexão mobiliza a sadia tensão entre o “ser” o “dever ser”, ou seja, entre o que somos e o que devemos ser.
A brevidade da vida
Diante da morte imprevista, Morel explica que existem algumas etapas pelas quais a pessoa passa.
“Primeira atitude é negar o acontecimento, a pessoa não acredita que aquilo aconteceu; em seguida ela passa por uma espécie de raiva; o terceiro passo seria a barganha, a negociação onde a pessoa queria estar no lugar de quem morreu, por exemplo. Por último vem a aceitação”.
A passagem por estas etapas varia de pessoa a pessoa, segundo o profissional.
“O sentido vem quando a pessoa consegue trilhar o caminho de aceitação do ocorrido”, frisa Morel.

“O caminho que pode ajudar a pessoa encontrar sentido na perda abrupta de alguém é buscar trocar o “Por quê” pelo “Para quê?”. “O ‘para quê’ é sempre o mais frutuoso, ele leva a pessoa a um ensinamento sobre a brevidade da vida, por exemplo. O ‘para quê’ é luminoso. Pode ser uma forma de honrar a memória da pessoa”, explica o missionário.
Encontrar a Deus face a face
Os santos sabiam lidar com a morte. Dada a união que adquiriram em vida com Deus a viam como uma passagem, a oportunidade de encontrar a Deus face a face.
“Vivo sem viver em mim, e de tal maneira espero, que morro porque não morro… Vivo no Senhor”, escreveu Santa Teresa de Jesus. São Francisco de Assis, por sua vez, chamou o fim dessa existência de “irmã morte”.
Na arte cristã é comum a figura de um crânio humano vir ao lado de alguns santos.
A simbologia serve para lembrar que todos nós vamos morrer e que tudo é vaidade.
Um dia todos nós voltaremos ao pó, apenas o amor vivido nesta terra com vistas a Deus e ao próximo permanecerão.

Em Cristo, a morte tem novo significado
No século VI, a Regra de São Bento, por exemplo, ensinava que se devíamos “manter a morte todos os dias perante os olhos”.
Mais tarde, se desenvolveu na cultura cristã a tradição denominada de “memento mori”, expressão em latim que significa, “lembre-se de que você vai morrer”, e que diz respeito a manter lembretes visuais sobre a iminência da morte, como é o caso do crânio humano retratado em alguns ícones e imagens.
Em Cristo, a morte adquire novo significado, consequentemente para o cristão que, pelo batismo, participa da morte de Seu mestre e também de sua Ressurreição.
Por isso, diante da ameaça da morte, o cristão é chamado a reagir com esperança, pois ela não tem mais a última palavra, pois tornou-se a passagem, o meio de encontrar-se com Deus para sempre.