Formação

Ensaio sobre o ciúme

E como sair desse cativeiro emocional?

comshalom

De uns tempos para cá, comecei a pensar um pouco sobre o ciúme. Quando vi as coisas que eu mesmo já sofri interiormente ou que já fiz por causa desse sentimento negativo, tive duas reações: a primeira foi rir, quando me dei conta da loucura e da imaturidade das atitudes que tive.  A outra foi a vergonha, por ter feito sofrer gente inocente, por ter machucado quem não tinha culpa nenhuma, e que eu egoisticamente pretendi amar.

Quando chamo ciúme de loucura, não estou exagerando. Vi que é quase uma megalomania, um equívoco que me faz pensar que estou no mesmo patamar de Deus, que conhece o coração de cada pessoa ou que posso ter a posse delas.

Ninguém tem propriedade sobre seres humanos. Temos posse sobre objetos, bens, lugares… e quando sou ciumento, caio na ingênua pretensão de que posso mandar e desmandar na vida e no coração de alguém, mais ainda, sou capaz de querer adivinhar os pensamentos e intenções de quem quer que seja. Esse domínio pertence a duas pessoas, mas nenhuma delas sou eu, ou qualquer terceiro de fora, ele pertence apenas à própria pessoa, que conhece as intenções do seu coração, e a Deus que conhece todos os corações.  O resto é autoengano, imaturidade.

Esse sentimento quase irracional nos leva a imaginar ser donos de coisas, pessoas, funções, elogios… porém, mais do que isso, mostra-nos uma total insegurança interior, uma baixa autoestima gritante, uma falta de fé em nós mesmos e no nosso valor próprio. E disso vem a origem desse medo de ser preterido, de não ser mais amado, escolhido… o nosso próprio olhar sobre nós mesmos é que nos coloca para baixo, imaginando que seremos rejeitados, ou que os outros vão tomar o nosso lugar, mas cada um de nós é único, e nesse aspecto, somos insubstituíveis.

Contudo, porque outra pessoa tem um dom, um bem, uma capacidade boa para alguma coisa, não quer dizer que os meus dons não têm valor. Ninguém tem que se comparar com ninguém para que os seus dons sejam valorizados também… e se o dom da outra pessoa for admirável, temos é que nos alegrar, em vez de nos deprimir porque também temos as nossas potências, e juntos podemos nos unir e alegrar as pessoas, tornar o mundo mais belo, mais feliz com as capacidades que temos em nós mesmos.

Gostaria de ressaltar o ciúme entre as pessoas, e principalmente dentro de relacionamentos, seja de namoro, amizade, casamento ou mesmo na família. Primeiro quero falar dessa insegurança na autoestima, que orgulhosamente quer a exclusividade em tudo o que a outra pessoa fizer, viver ou pensar. É uma tentativa ineficaz de aprisionar o outro numa gaiola imaginária. Aprisiona-se o corpo; mas a alma, os sentimentos e o coração. Qunto mais controlador tento ser, mais vou magoar e afastar a pessoa que, teoricamente, eu quero que me ame, até porque se for forçado, pode ser tudo, menos amor. E de que adiantaria eu ter alguém comigo que livremente não optou por mim? De que me serve ter alguém ao meu lado, mas que o coração não está ali?

Seria como me tornar escravo de uma ilusão que eu mesmo criei, e insisto com todas as minhas forças para que se torne real, mas ela só existe dentro da minha cabeça. Uma relação boa, com fidelidade mútua, nasce muito mais do desejo de fidelidade de um ao outro do que qualquer tentativa de controle que um possa querer exercer sobre o outro.  Ninguém é dono de ninguém, e por mais que eu pudesse forçar alguém a se relacionar comigo, seria a prova mais eficaz do abismo interior que existe em mim, porque, na verdade, virei um dependente de outra pessoa, que não me ama, e que, se pudesse, nunca estaria ao meu lado. É uma escravidão enorme, que acaba com todas as pessoas envolvidas nela.

Ciúme “rima” com desconfiança, mas não é tanto a falta de confiança no outro que preocupa, essa é apenas uma consequência de algo mais profundo: o ato de desconfiar de mim mesmo, do meu valor, em primeiro lugar. É um medo que surge da possibilidade de não ser amado por outrem, mas que tem uma raiz mais entranhada: a carência de amor a si, de acreditar que se tem valor, potências e qualidades, e que estes são bons, são admiráveis, que são amáveis.

Devo reconhecer, portanto, não somente o que é luz em mim, mas também as minhas trevas, as minhas mesquinharias.  Isso vai me libertar da escravidão da opinião alheia, da minha ânsia desesperada pela atenção das pessoas, por curtidas, “likes” e por necessidades de elogio ou de aplausos. Sendo assim, com desejo de mudança, seremos livres das prisões que nossas feridas interiores nos puseram, das mentiras que disseram sobre nós, das marcas na nossa história nos tornaram mesquinhos. Afinal, somos o que Deus pensa de nós.

Não podemos permitir que o nosso coração vá procurar fora, na opinião alheia, no olhar e na aprovação dos outros aquilo que nenhum ser humano pode pode preencher —, e que só Deus consegue saciar, pois só Ele é do tamanho do vazio do nosso interior.  Dessa busca insana, fora da verdadeira fonte, é que surgem as acusações sem fundamento, os escândalos, os crimes passionais e um furacão de coisas e de situações criadas dentro das nossas relações. Não existem relações reais sem confiança, nem sem o amor autêntico,  que deixa a pessoa amada livre, como ela nasceu para ser.

Que Deus nos dê a graça da maturidade afetiva!

Uerlley Soares


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