Sempre gostei de pesquisar a história por detrás das obras de arte que eu via. Era uma espécie de Hobbie escondido. Eu via uma tela, imaginava o que estava na cabeça do autor e depois ia pesquisar para saber se a verdade condizia com o que eu tinha pensado. Às vezes era uma decepção.
Eu imaginava uma história de conflito de um pintor apaixonado, não correspondido e no fim, o artista só tinha jogado um pouco de tinta vermelha e se impressionado com a forma adquirida. Mas não fazia mal, isso descansava a minha cabeça e o meu coração.
Em outras obras, a inspiração era exatamente igual à minha imaginação. Eu me sentia dentro da cabeça do artista. Que honra!
Van Gogh nessa pintura me deixava intrigada.
Eu imaginei tantas coisas…
O imaginei apaixonado, vendo a luz em meio ao breu. Encantado com os detalhes da cidade ou com as formas das nuvens espessas.
O contraste das cores talvez significasse algo como a alegria que se sobrepõe à escuridão.
Da sua janela, da sua internação e da sua solidão, ele via uma noite que continha as estrelas, mas não o alegrava.
A paisagem que ele via da sua cela física, espiritual e psicológica, não era vista da mesma forma ao longo do dia.
Ora sob o sol, ora sob as estrelas, ganhava cores diferentes em suas mãos. Nem mesmo aquelas casinhas existiam, talvez somente o desejo de contato humano que ele imaginava.
Quarentena: Tempo de contemplação
Hoje, olhei da minha janela e vi pessoas rezando o terço, separadas e distantes, enquanto outras acompanhavam da sua própria janela, em seu próprio andar.
Vi a grama, mas preferi não pisá-la descalça como sempre, porque cuido de outras pessoas e preciso cuidar de mim, por elas.
No que não vi, imaginei.
Imaginei a vila, o cipreste, a luz por sob as nuvens e o corre corre frenético de quem na semana passada brincava, se abraçava ou simplesmente caminhava ao sol.
E diante da loucura de tudo, a certeza e a calma.
Não sei o que o Verdadeiro Artista está pensando dessa vez…
Tenho suposições, mas talvez eu esteja completamente errada. Ou certa. Não importa.
Dessa vez, só dessa vez, escolho não imaginar muita coisa e só esperar…
Tenho certeza de que nada do que eu pense será tão grandioso quanto o significado de cada pincelada que sai dos dedos dEle.
E a pintura que será feita, mesmo que contenha tons escuros e marcas difíceis de esquecer, será incrivelmente perfeita.
Que assim seja. Amém.
Drica Sousa
Missionária da Comunidade de Vida Shalom na Diaconia Geral
