Formação

Quem quebrou a corrente?

comshalom

De volta de uma viagem de quinze diasque encerra o ciclo de missões para pregação deste primeiro semestre,deparo-me, em lanche com D. Odilo Scherer, com a resposta para muitas noites deinquietação e angústia ante a constatação da destruição moral da juventude quetemos tentado evangelizar e formar: alguémquebrou a corrente!

Não há como não sofrer imensa dor aover os jovens com padrões morais cada vez mais duvidosos, que vão muito além dotão batido “ficar” ou “pegar”, mas mergulham na acolhida das idéiasaterradoramente pagãs que acolhem como “adequadas” ou como “indicadoras defelicidade”. Esse amplo universo de pseudo modernidade abraça o desejo dopossuir cada vez mais e a todo custo, a cultura gay, a evidente e angustianteconfusão da identidade sexual, o hedonismo, a indiferença vivencial para com osofrimento alheio, as questões de bioética, a rejeição do compromisso que oamor, necessariamente, exige.

O sofrimento, quando autêntico, gerasempre duas perguntas: “O que causou isso?” e “O que preciso fazer?” Veja bem:a primeira pergunta não tem nenhum cunho científico ou redução do tipoencontrou-a-causa-encontrou-a-solução! Longe disso! Ela nasce da dor daconsciência cristã, responsável pelos que gerou.

Quanto à segunda pergunta,distancia-se, em muito, da questão filosófica do que “posso” ou “devo” fazer. Overbo “preciso” traz um peso vivencial, existencial, responsável, angustiante,comprometedor.

Às minhas noites insones e meus questionamentosdiante do Santíssimo, o Espírito veio responder através de D. Odilo: o elo dacorrente da transmissão da fé foi quebrado! Sim! O grande problema dos “netosde John Lennon” não atingiu somente a responsabilidade dos pais no sentido deeducarem seus filhos a nível pessoal e social. Atingiu-os também,dolorosamente, a nível de transmissão da fé.

A tragédia não se restringe a deixar osfilhos demolirem o ambiente e a paciência dos circuncidantes sem nenhumaintervenção paterna. Não se resume a deixar os filhos abandonados a seu belprazer, eximindo-se da responsabilidade de impor-lhes limites. A hecatombereduziu ao pó a transmissão da fé e dos valores cristãos, a vivência dasvirtudes cristãs e da caridade, o respeito à Igreja e ao sagrado.

Nós, os pais desta geração sofredoraque parece navegar em águas livres, não cuidamos de lhes transmitir a fé e osjogamos em um pântano de incredulidade, impiedade e egoísmo. Quebramos acorrente da transmissão da fé!

Eis a causa. As conseqüências sãoevidentes. Nem será preciso sair por aí pregando, como eu fiz. Basta olhar, comos olhos de Cristo, ao seu redor. Perdemos uma geração no que diz respeito àfé, às virtudes cristãs, à piedade, ao Evangelho! O coração grita: “O que preciso fazer?” A mente rebate: “Comofazer?”

Sim, como voltar o tempo? Como resgatarjovens que, quando criança, foram vítimas de tanta ausência, tanto descaso,tantas violências e abusos sexuais, tanto desamor, tanta exposição aopaganismo, tanto incentivo de adesão ao materialismo? Como repor o que lhesfaltou? Como atraí-los e reconduzi-los? Ainda é possível conferir-lhes umaidentidade sexual definida? Ainda é possível conduzi-los à virtude? Ainda temoscomo levá-los à piedade, ao respeito pelo sagrado, à adesão ao Evangelho? Aindateremos como conduzi-los aos sacramentos? Como refazer o elo perdido?

A mente não tem resposta. O coração,sim! Também a Igreja. É preciso reconstruir o elo em duas ações necessariamenteconjuntas: evangelizar os jovens através da experiência com Jesus Vivo,levá-los a ver Jesus, a tocá-lO pela Palavra, a comer com Ele pelos sacramentos, a caminhar com Ele pelo discipulado, a conversar com Ele pela oração, a comprometer-se com Ele pelo testemunho.Isso tem de ser agora e tem de ser de todas as formas possíveis: nos shoppings, nas praças de alimentação,nas universidades, nas escolas, nos meios de comunicação, com todos os meios emétodos que a criatividade do Espírito nos fornecer, sem medo, sem retardo,nisto sim, sem limites.

Em paralelo, é preciso fazer os pais,especialmente os pais mais jovens, aqueles que ainda se enfiam no trabalho e seesquecem dos filhos, aqueles que foram educados como filhos de John Lennon,compreenderem conscientemente o que seus pais sabiam por intuição ou tradição:é preciso transmitir a fé de geração em geração. É preciso aceitarcorajosamente ser elo na corrente da transmissão da fé. Mais que essencial paraa saúde integral dos filhos, para sua felicidade verdadeira, para sua liberdadeprofunda, é essencial para sua salvação que recebam a fé das mãos de seus pais,como o legado mais precioso que possam lhes deixar. Deve ficar bem claro: não équestão de opção, nem de bem-estar, nem mesmo de benemerência. É mais que umaquestão de vida ou morte. É questão de salvação, de vida e felicidade eternas.

Quanto a você: o que é preciso você fazer?


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