Fugi das perguntas sobre os “namoradinhos” como quem escapa do “corte da gravata” em festas de casamento. Quando menos se dá conta, a pessoa desaparece. Encontros familiares no Natal ainda podem ser desconfortáveis a uma mulher de 30, solteira. Sou analisada com curiosidade, como um bicho.
“Qual é o problema?”. “Deve ser muito exigente”. “Ela era apaixonada por aquele rapaz que morreu”. E me olham com tristeza porque isso já faz uns anos. “Você vai superar”, alguém diz. Apenas aceno, pois na maior parte do tempo tenho muita preguiça de me explicar.
Existem também os amigos desesperados. Propostas de um “encontro às escuras”, um tal de “conheci alguém que é a tua cara”, ou instala um aplicativo mas faz alguma coisa pelo amor…
Você pode morar só, ter uma carreira bem sucedida, viajar pelo mundo e carregar sua bandeira de libertas quæ sera tamen. A única coisa inaceitável é você estar bem – sozinha. Procuram um vazio, uma solidão, um luto, uma doença… Eu compreendo. Em uma sociedade hipersexualizada, em um país pseudoconservador, repleto de piadinhas e canções com duplo sentido, escolher estar só é uma afronta.
Porque estar só é diferente de não ter um namorado. Você não tem contatinhos. Você está só com você mesma. De verdade. E mais ninguém. E isso parece um insulto, não é?
Sempre gostei do silêncio. Era uma criança dividida entre as brincadeiras de rua e as leituras no meu quarto fechado. A menina engraçada rodeada de amigos era a mesma que passava metade do tempo isolada meditando. Ainda hoje, divido meus horários entre o “quero encontrar todo mundo” e o “quero essa taça de vinho na janela de casa que tem a árvore bonita que fica ainda mais bonita quando chove”.
E quero desligar meu aparelho celular. Por dias! Supõe-se que estou ficando louca ou perdendo a vontade de viver. O que pouca gente sabe é: estou em meu momento de glória.
Sou uma excelente companhia. Eu e eu adoramos sair para jantar, pedalar no parque, acompanhar uma série nova na Netflix, ir à praia, cozinhar, fazer trilhas, e nunca perdemos uma aula de Sh’bam. Eu, na companhia de mim mesma, adoro passar o tempo livre estudando simbologia nos sonhos (afinal, por que a gente sonha? Vocês têm também essa curiosidade?).
Percebo que, enquanto isso, não existe possibilidade de me ver envolvida em relacionamento tóxico, abusivo, de codependência afetiva, ou de perder o controle da vida por alguém que, no fim das contas, era apenas muito sedutor. O instinto está mais aguçado e tenho o faro de uma loba atenta a cada passo. Não me distraio com caprichos.
Enquanto isso, descubro coisas novas: convicções, propósitos, o que me move e o que dá sentido a minha vida. Vez ou outra se me deslumbro com alguém acho fantástico, mas, hoje, não quero meus afetos voltados a um único ser humano – o que me torna mais disponível ao trabalho voluntário, social, missionário, e para organizar, veja bem, mais aquele outro evento sem fins lucrativos.
Esses braços que ainda não carregam crianças no colo estão disponíveis para o serviço, para ser abrigo, e para acolher uma comunidade inteira!
Neste “enquanto isso”, permito que Jesus descanse em meu coração e me aquieto dentro desse barco que eu não sei pra onde vai, nem se está perto ou longe de chegar a algum lugar. O que sei é que já velejei muito desde que deixei no porto minhas inseguranças e que é tempo de ser adulta e parar de querer acordar o Senhor a todo momento que tenho dúvidas. Penso ser gentil de minha parte, deixá-lo descansar aqui, sem perguntar nada. Ele está no barco e na presença divina vivencio, não a solidão, mas a solitude.
Finalmente.
“Dominaste-me, Senhor. E obtivestes o triunfo”.

Excelente esse texto. Perfeito
Esse texto falou a mim, pessoalmente.
Muito obrigada! ❤