Outro dia, com o aplicativo de música no modo aleatório, os algoritmos daquele streaming me presentearam com uma canção que não ouvia há tempos. Na letra dela, alguns versos me tocaram: Como se faz com todo cuidado / A pipa que precisa voar / Cuidar de amor exige mestria.
Esses versos, imediatamente, me remeteram ao amor de Deus. Mesmo sendo uma música secular, a lembrança que me invadiu foi a do Deus que tem cuidado de nós (I Pd 5, 7b). O amor, de fato, exige mestria, demanda cuidado. Para quem já fez uma pipa, a metáfora do amor ser com a sua construção é pertinente: o toque cauteloso no papel seda; o saber curvar levemente os palitos que sustentaram a pipa, sem quebrá-los; o esmero de não permitir que o vento a rasgue; a destreza com as linhas que unem os palitos; entre outros tantos gestos delicados… O amor é mesmo o fazer de um artífice.
Um amor zeloso
Deve ser por isso que as sagradas escrituras revelam o Amor, o verdadeiro nome de Deus, como um artesão (Jr 18,5), como Aquele que tem dedos de artista (Sl 8, 4). É, com efeito, uma bela metáfora para nos comunicar o amor de Deus apaixonado, zeloso (Ex 20,5) e o mesmo vale para o amor humano, reflexo daquele amor primeiro. De fato, belo é o amor humano. Tal beleza se dá porque, assim como o amor divino, ele é sempre zelo, entrega e cuidado.
Percebi, mais profundamente, este caráter zeloso, cuidadoso, do amor ao ter contato com o livro “As cinco linguagens do amor”. Já sabia, como dizia von Balthasar, que o amor só era digno de fé; e que essa fé no amor só existe se ele se traduz, quando ele se expressa. E eu, que julgava ter grandes dificuldades de expressar meus sentimentos, encontrei naquele livro de Gary Chapman uma fonte preciosa que me ajudaria a compreender melhor como se dá essa expressão. Descobri que o amor se expressa de inúmeras maneiras. Assim como a sociedade humana possui inúmeras línguas e diversos dialetos, o amor também tem suas linguagens. Com efeito, há linguagens próprias para identificar, receber e dar amor. Na realidade, trata-se de uma tendência de demonstrar amor e/ou a sentir-se amado.
Descobrir essas linguagens me ajudou a perceber como poderia expressar meu amor pela minha então namorada e até mesmo por outras pessoas. Além disso, me fez perceber como as pessoas poderiam expressar seu amor por mim. Ir conhecendo, junto com minha namorada, a minha própria linguagem facilitou a minha experiência de se saber amado e a incentivou a me amar do meu próprio modo, segundo meu dialeto de amor.
Mais do que isso: aprendi que não posso amar segundo a minha própria linguagem. Se eu quisesse mesmo demonstrar meu amor, deveria demonstrá-lo segundo um outro léxico, de acordo com a linguagem do amor da minha amada. Isso demanda certa mestria. Exige diálogo, observação, um olhar atento e paciente. Afinal, como disse São Paulo, o amor é paciente, não procura os próprios interesses e sabe esperançar. E todas as linguagens de amor comprovam isso.
Para Chapman, as linguagens do amor são cinco: palavras de afirmação, qualidade de tempo, presentes, gestos de serviço e toque físico.
Palavras de afirmação
As palavras de afirmação dizem respeito a usar palavras que edificam para expressar amor. São elogios verbais, demonstrações claras de afeição: “Eu te amo”; “Você fica linda com este vestido”; “Obrigado por me esperar. Sou grato por isso”etc. As palavras afirmativas, contudo, não se resumem a elogios. Palavras de encorajamento, de inspiração expressam igualmente o amor e, como ele o transforma, acaba também por despertar potenciais no outro bem como empatia na pessoa que encoraja, posto que é necessário saber o que o amado gosta para incentivá-lo.
Do mesmo modo, palavras gentis e humildes também tem este poder de expressão. Até mesmo palavras afirmativas indiretas, dirigidas a outros, podem chegar na pessoa amada de alguma forma e também aquecerá o coração dela, ainda que ditas pela boca de outrem. Já as palavras de afirmação, quando escritas, também possuem um potencial imenso, pois quase sempre podem ser revisitadas. Rubem Alves, afinal, tem razão: as palavras de carta e recadinhos de amor são sempre luminosas, iluminam a nossa vida inteira.
Qualidade do tempo
A qualidade do tempo, por sua vez, está relacionada a dar atenção total a alguém por um determinado tempo. É o modo como eu passo meu tempo com a pessoa que amo. Trata-se, na verdade, de entregar parte da existência ao outro: a essência do amor. Por isso, parar alguns minutos para conversar com o outro, planejar encontros com celulares desligados ou no silencioso, se dedicar a fazer algo que a pessoa amada goste de fazer, passear no parque ou na praia sem ter outras preocupações são demonstrações claras de amor. Elas ficam gravadas no coração, tornam-se inesquecíveis. As atividades, na verdade, são secundárias. Poderiam até ser outras até; o que importa é o tempo partilhado, a vida compartilhada, o amor vivido plenamente naquele instante.
Presente
Dar presentes também é uma linguagem do amor. Em todas as culturas, essa atitude é registrada como um ato de amor, de carinho. É sempre preciso lembrar de alguém para presentear. O presente simboliza e materializa esse pensamento ao expressar o amor. Justamente por isso que, para quem tem os presentes como linguagem do amor, pouco importa o valor deles. O que importa é o valor emocional que aquele presente carrega. Por vezes, os presentes, quando feitos por nós mesmos, podem se mesclar com o tempo de qualidade: ali você investiu tempo na relação. Quem sabe, em alguns relacionamentos, a presença seja o melhor presente que alguém pode receber. Como nas outras linguagens, a essência permanece a mesma: o cuidado, a oblação, o espirito de doar. É a tradução do que disse Santa Terezinha: Amar é tudo dar e dar-se a si mesmo.
Atos de serviço
Já os atos de serviço estão relacionados a fazer aquilo que outro quer que fizéssemos. Procurar fazer algo, algum serviço que agrade o outro. Aqui, a lista é enorme: lavar a louça, revisar um artigo, tratar de burocracia, trocar a fralda do bebê, entre outras tantas. A exemplo das outras linguagens, o gesto é importante, mas, por si, não basta. Não podemos esquecer: o amor é sempre uma escolha. É o desejo de agradar, a vontade de expressar amor por meio dos atos que irão fazer com que a pessoa se sinta amada. Tudo isso exige planejamento, decisão, tempo, energia.
Toque físico
A última linguagem do amor é o toque físico. Ele é um poderoso meio de demonstrar amor: dar as mãos, beijar, abraçar, reclinar e descansar a cabeça no peito do outro, um afago no cabelo… Há um poder no toque. Dados biológicos e marcas culturais comprovam isso. Para quem ama nessa linguagem, um abraço silencioso pode expressar amor muito mais do que um “Te amo!”. Do mesmo modo, um “Odeio você” não tem tanta força quanto uma tapa no rosto. De igual maneira, a ausência deliberada de um toque físico, seja um abraço ou um beijo rápido, pode expressar frieza na hora do encontro. Sem cair nos extremos, nos abusos, o toque físico é uma bela demonstração de amor. Como nas linguagens anteriores, o zelo, o cuidado é a tônica dessa linguagem.
É justamente por isso que Chapman incentiva a conhecermos as linguagens das pessoas que amamos. É com cuidado e zelo que vamos descobrindo e escolhendo as oportunidades de demonstrar o amor. O resultado? Podemos vislumbrá-lo ao voltarmos a nossa metáfora inicial da pipa. Quem olha uma criança a brincar com uma pipa, que rasga o céu e dança no ar, percebe algo de grandioso. Por algum tempo, o colorido flutuando no horizonte e a destreza das mãos a controlar a pipa chamam atenção. Depois disso, o que nos impacta é o brilho nos olhos da criança, o entusiasmo vibrante, o sorriso aberto. Na verdade, o que vemos é a alegria de quem soube cuidar, de quem se empenhou no zelo das coisas simples, de quem perseverou no esmero de cada detalhe para que a pipa pudesse voar. Numa palavra, a mestria do cuidado. Com as linguagens do amor, acontece o mesmo. Seu fruto é a alegria de quem aprendeu a continuar a amar, a investir nas expressões de amor.
Indicação de livro: As 5 linguagens do amor – Gary Chapman
Jonison Custódio,
Discípulo da Comunidade de Aliança na Missão de Natal
