Reflexão do Núncio Apostólico
Comunidade Shalom
Brasília, 26 de outubro de 2025
CACV 2025
APRENDENDO COM O CORAÇÃO DE JESUS A COMPAIXÃO PELO MUNDO
Queridos irmãos e irmãs da Comunidade Shalom, vocês se reúnem neste tempo de graça para se deixarem tocar pela palavra que o Senhor dirige à sua Igreja por meio da encíclica Dilexit Nos. O Papa Francisco nos convidou a redescobrir o Coração de Jesus como a fonte da compaixão que deve animar toda evangelização autêntica e toda oferta generosa de vida. Em um mundo ferido por guerras, injustiças e indiferença, a Igreja é chamada a redescobrir seu coração pulsante: o amor misericordioso de Cristo que se doa sem reservas.
O mundo perdeu seu coração: diagnóstico de uma humanidade ferida
“Nos amó”, ele nos amou, proclama São Paulo referindo-se a Cristo, para nos ajudar a descobrir que nada pode nos separar desse amor¹. Essas palavras do Apóstolo ressoam com particular urgência em nosso tempo, quando a humanidade parece ter perdido seu centro vital. O Papa Francisco abriu sua encíclica com um diagnóstico implacável, mas verdadeiro, da condição contemporânea: vivemos em um mundo que perdeu seu coração². Essa perda não é apenas metafórica. O Pontífice descreveu com precisão os sintomas dessa doença espiritual que aflige nossa época. Somos tentados a navegar na superfície, a viver com pressa sem entender a razão de nossa existência, a nos transformar em consumidores insaciáveis e escravos das engrenagens de um mercado que não está interessado no significado de nossa existência³. Essa é uma imagem que muitos de vocês reconhecem não apenas no mundo ao seu redor, mas, às vezes, até mesmo em suas próprias comunidades e famílias. As guerras que devastam continentes inteiros, os desequilíbrios socioeconômicos que criam abismos entre ricos e pobres, o consumismo desenfreado que reduz a pessoa a um mero objeto de mercado, o uso desumano da tecnologia que corre o risco de distorcer a própria essência do homem: todos esses fenômenos não são meros problemas sociológicos, mas sintomas de uma crise que atinge o próprio coração do ser humano⁴. Como Comunidade Shalom, vocês são chamados a não serem espectadores passivos dessa situação dramática, mas a se tornarem protagonistas da cura e da esperança. No entanto, nesse cenário aparentemente sem esperança, a encíclica oferece uma perspectiva de esperança.
O mundo ainda pode recuperar o que é mais importante e necessário: o coração. Mas isso não representa um chamado genérico ao sentimentalismo ou à mera emoção. O coração do qual o Papa Francisco falou é o Coração de Jesus, o lugar do encontro pessoal com o Senhor, a fonte de toda compaixão autêntica, o centro do qual brota a nova vida que o mundo espera. Quando o Santo Padre escreveu que algumas pessoas se perguntam se o símbolo do coração ainda tem um significado válido nos tempos contemporâneos, ele não estava fazendo uma pergunta meramente devocional. Em vez disso, ele estava questionando a capacidade da Igreja de ainda falar ao coração do homem moderno, de alcançar aquela profundidade onde cada pessoa faz suas escolhas fundamentais, onde nascem as decisões que guiam a existência.
O coração, na visão da encíclica, é o lugar da síntese pessoal, onde cada indivíduo, de qualquer classe e condição, integra todas as dimensões de sua existência. É lá que os seres concretos encontram a fonte e a raiz de todos os seus poderes, convicções, paixões e escolhas. Entretanto, vivemos em sociedades sem paciência para os processos que a interioridade exige⁵. Para os membros da Comunidade Shalom, esse diagnóstico deve soar como um alerta. Vocês não podem permitir que até mesmo sua vida comunitária seja contaminada por essa superficialidade, essa pressa que impede um encontro profundo com Deus e com seus irmãos e irmãs. Sua vocação é ser testemunha de uma possível alternativa, para mostrar que ainda existe um modo de vida centrado no coração, na profundidade, na autenticidade dos relacionamentos.
O Coração de Cristo: centro da revelação do amor divino
A encíclica levou então à contemplação do mistério central da fé cristã: o Coração de Jesus como a revelação suprema do amor de Deus pela humanidade. “Este é o Coração que tanto amou”⁶: nessas palavras, que retomam uma das antífonas mais queridas da tradição do Sagrado Coração, concentra-se todo o mistério da Encarnação. O Filho de Deus, assumindo a natureza humana, não assumiu apenas um corpo, mas abraçou toda a gama de emoções e sentimentos humanos. Os Evangelhos nos mostram um Jesus que se comove, que chora, que se alegra, que se irrita diante da injustiça¹⁰. Essa dimensão emocional de Cristo não é acessória à sua missão salvadora, mas parte integrante dela. É por meio de seu coração humano que o amor divino se torna tangível e acessível à humanidade.
A oração de Jesus revela de maneira especial a profundidade de seu coração. A palavra aramaica “Abbà”, que significa “paizinho”, expressa uma familiaridade com o Pai que escandalizou alguns na época de Jesus¹¹. É a mesma expressão que o Senhor usa no momento de agonia no Getsêmani: “Abbà – Pai tudo ti é possível: afasta de mim este cálice; não seja o que eu quero, mas o que Tu queres”¹². Nessa oração, o próprio coração da espiritualidade cristã é revelado: o abandono confiante ao Pai, mesmo nas situações mais dramáticas. Essa confiança de Jesus não nasce do vazio, mas da certeza de ser amado pelo Pai desde a eternidade. “Tu já me amavas antes da criação do mundo”, diz Jesus na oração sacerdotal¹³. E os Evangelhos nos testemunham como o próprio Pai confirma esse amor: “Tu és o meu Filho amado, em ti pus o meu agrado”¹⁴.
O Coração de Jesus é, portanto, o lugar onde o amor trinitário se torna visível e comunicável à humanidade. Para a Comunidade Shalom, contemplar esse mistério significa entrar na mesma dinâmica de amor que une o Pai e o Filho. Vocês não são chamados a serem meros espectadores desse amor, mas a se tornarem participantes dele, a se deixarem transformar por ele até que possam irradiá-lo para o mundo. A autêntica evangelização sempre nasce dessa experiência de ser amado gratuitamente por Deus, de sentir-se acolhido no Coração de Cristo. A encíclica enfatiza como o Quarto Evangelho afirma que o Filho eterno do Pai sempre esteve “no seio do Pai”¹⁵. Essa expressão indica não apenas uma proximidade física, mas uma intimidade de amor que constitui a própria vida de Deus.
Quando o Filho se torna homem, ele traz essa intimidade divina para o mundo, tornando-a acessível por meio de seu Coração humano. Santo Irineu afirma que “o Filho de Deus sempre existiu antes do Pai”, enquanto Orígenes sustenta que o Filho persevera “na contemplação incessante do abismo paterno”¹⁶. Essas expressões da tradição patrística nos ajudam a entender que o Coração de Jesus não é apenas o centro de sua humanidade, mas o ponto de encontro entre o divino e o humano, entre o céu e a terra. A contemplação desse mistério não pode permanecer um exercício intelectual estéril. Ela deve se traduzir em transformação de vida, em configuração progressiva com Cristo. Como Comunidade Shalom, vocês são chamados a fazer do coração de sua comunidade um reflexo do Coração de Cristo, um lugar onde o amor divino possa se manifestar e irradiar para o mundo.
A compaixão como a forma suprema de amor
A encíclica dedicou atenção especial ao tema da compaixão como uma manifestação privilegiada do amor que flui do Coração de Cristo. A compaixão não é simplesmente um sentimento de pena ou emoção, mas uma participação real no sofrimento do outro, a capacidade de “sofrer com” aqueles que sofrem¹⁷. Os Evangelhos nos mostram repetidamente Jesus se comovendo com as multidões perdidas, os doentes, os pobres, os excluídos. Essa emoção não é superficial, mas surge das entranhas, envolve todo o seu ser¹⁸. É a mesma compaixão que o leva a multiplicar os pães para alimentar os famintos, a curar os doentes, a ressuscitar os mortos, a perdoar os pecadores. A parábola do Bom Samaritano oferece o paradigma perfeito dessa compaixão em ação. “Ao passar, viu-o e teve compaixão dele”¹⁹: nessas palavras está concentrado todo o dinamismo da autêntica caridade cristã. A compaixão autêntica sempre implica três movimentos: ver verdadeiramente a condição da outra pessoa, deixar-se tocar interiormente por seu sofrimento, agir concretamente para aliviar a dor. Com muita frequência, na vida cotidiana, “passamos” pelo sofrimento dos outros sem realmente ver. Nossos olhos olham, mas não veem, porque nosso coração está fechado, concentrado em nossos próprios problemas e necessidades. O samaritano, por outro lado, realmente “vê”: ele reconhece no homem ferido um irmão, um filho de Deus digno de cuidado e atenção. Mas a compaixão não se limita a ver. Ela se envolve emocionalmente, se comove, compartilha da dor. É essa participação que transforma o olhar em ação, que impele o samaritano a parar, a curar as feridas, a cuidar do homem ferido até o fim²⁰.
Para a Comunidade Shalom, esse paradigma de compaixão deve ser central em sua vida e missão. Você não pode ser apenas uma comunidade que vive bem dentro de si mesma, mas deve se tornar uma comunidade compassiva, capaz de enxergar as feridas do mundo e agir para curá-las. A encíclica destacou como a compaixão de Jesus se estende a todas as formas de sofrimento humano. Não se trata apenas do sofrimento físico, mas também do sofrimento moral, espiritual e social²¹. Jesus tem compaixão das multidões porque as vê “como ovelhas sem pastor”, perdidas, sem direção e sem esperança. Ele tem compaixão da viúva de Naim que chora seu filho morto, de Marta e Maria que sofrem com a perda do irmão Lázaro, de Pedro que O negou e chora amargamente seu pecado. Essa universalidade da compaixão de Cristo o desafia a ampliar seu olhar, a não limitar sua atenção apenas a certas categorias de pessoas ou a certos tipos de necessidades. A compaixão genuína sabe como reconhecer a necessidade onde quer que ela surja e como responder com a gentileza e a força do amor.
Água que flui do lado: fonte de vida nova
A encíclica dedicou um capítulo inteiro à contemplação do lado aberto de Cristo, de onde jorram água e sangue²². Esse episódio, narrado pelo Evangelho de João, foi interpretado pela tradição cristã como um símbolo do amor que se doa totalmente, que não guarda nada para si. A ferida no lado de Jesus não é apenas o sinal de sua morte, mas a fonte da nova vida que ele oferece à humanidade. Santo Agostinho, que a encíclica citou amplamente, viu nessa ferida a origem da água do Espírito, o lugar de onde nascem os sacramentos, a porta aberta para a intimidade de Deus²³.
“Aquele a quem traspassaram”²⁴: nessas palavras do profeta Zacarias, retomadas por João, a tradição cristã reconheceu uma profecia messiânica que se cumpre na crucificação. Mas a perfuração não é apenas uma ação sofrida por Cristo, é também um dom livre e consciente. É o próprio Jesus que oferece seu próprio coração à humanidade, que abre a fonte do amor divino. Para a reflexão sobre evangelização que você está fazendo neste retiro, este símbolo é de fundamental importância. A proclamação do Evangelho não nasce de técnicas de comunicação ou estratégias pastorais, por mais importantes que sejam. Ela vem da água que flui do Coração transpassado de Cristo, da vida nova que ele continua a oferecer a cada homem e mulher. A água que flui do lado é um símbolo do Espírito Santo, que é o verdadeiro protagonista de toda evangelização autêntica²⁵. É o Espírito que abre os corações para ouvir a Palavra, que desperta a fé, que transforma vidas. Vocês só podem ser instrumentos dóceis dessa ação divina, canais pelos quais a água viva pode chegar aos corações sedentos. Santo Agostinho abriu o caminho para a devoção ao Sagrado Coração como lugar privilegiado de encontro pessoal com o Senhor²⁶. Na ferida do lado, o grande Doutor da Igreja viu a porta aberta para a intimidade de Deus, o lugar onde toda alma pode entrar para encontrar o amor misericordioso do Salvador. Essa perspectiva agostiniana é particularmente cara à tradição espiritual da Comunidade Shalom. Você é chamado a fazer de seu coração uma morada aberta, onde Cristo pode habitar e de onde pode irradiar seu amor para o mundo. Vocês não podem guardar a graça que receberam para si mesmos, mas devem se tornar fontes de água viva para aqueles que se aproximam de vocês.
Devoção autêntica: entre a contemplação e a missão
Um dos aspectos mais importantes da encíclica é o equilíbrio que ela estabelece entre as dimensões contemplativa e missionária da devoção ao Sagrado Coração. O Papa Francisco enfatiza como essa devoção deve manter juntos dois aspectos fundamentais: a experiência espiritual pessoal e o compromisso comunitário e missionário²⁷. Com muita frequência, as devoções correm o risco de se tornarem formas de espiritualidade intimista, centradas apenas no relacionamento pessoal com Deus. A encíclica nos adverte contra esse risco, lembrando-nos que a autêntica contemplação do Coração de Cristo não pode deixar de se traduzir em zelo missionário, em ir ao encontro dos irmãos e irmãs.
Por outro lado, o ativismo pastoral que não é alimentado pela contemplação corre o risco de se tornar vazio e estéril. Sem o encontro pessoal com Cristo, sem a transformação do coração que vem da oração, as obras se tornam apenas iniciativas humanas, por mais generosas que sejam. A encíclica cita o exemplo de Santa Margarida Maria Alacoque e São Cláudio de La Colombière, para mostrar como a autêntica devoção ao Sagrado Coração de Jesus sempre une contemplação e ação²⁸. A santa de Paray-le-Monial recebeu revelações do Coração de Jesus, mas essas não permaneceram como experiências particulares: elas se tornaram uma fonte de renovação para toda a Igreja. São Cláudio de La Colombière, que se tornou diretor espiritual de Santa Margarida Maria, tinha a tarefa de discernir a autenticidade das experiências místicas e direcioná-las para a missão²⁹.
O santo jesuíta enfatiza que a contemplação do Coração de Cristo, se for autêntica, não provoca complacência em si mesmo, mas o abandono incondicional a Cristo, que preenche a vida com paz, segurança e decisão apostólica. Para a Comunidade Shalom, esse equilíbrio entre contemplação e missão deve constituir a própria identidade. Não pode ser uma comunidade voltada para si mesma, ainda que esse movimento interior seja motivado por nobres razões espirituais. A vocação de vocês é serem contemplativos em missão e missionários em contemplação. A experiência do Coração de Cristo deve transformar a maneira como você olha para o mundo. Você não pode mais ser indiferente ao sofrimento da humanidade, não pode mais fechar os olhos para a injustiça, não pode mais viver como se a salvação fosse um assunto particular que não diz respeito aos outros.
A encíclica enfatiza como a devoção ao Sagrado Coração sempre teve uma forte dimensão social³⁰. As revelações a Santa Margarida Maria não diziam respeito apenas à vida espiritual individual, mas pediam uma conversão social, uma renovação das relações humanas com base no amor e na justiça.
Evangelização a partir do coração
À luz do que contemplamos, podemos agora entender melhor que tipo de evangelização brota da experiência do Coração de Cristo. Não se trata de uma estratégia de comunicação ou de uma técnica de persuasão, mas de uma vida transformada que se torna uma testemunha eloquente do amor de Deus. A autêntica evangelização sempre deriva da experiência de ter sido evangelizado, de ter encontrado pessoalmente o amor de Cristo, de ter se deixado transformar por seu Coração misericordioso³¹.
Não podemos dar o que não recebemos, não podemos proclamar um amor que não experimentamos. A encíclica destaca como o encontro com o Coração de Cristo nos torna capazes de “tecer laços fraternos, reconhecer a dignidade de cada ser humano e cuidar juntos da nossa casa comum”³². Essa é a verdadeira evangelização: não apenas proclamar com palavras, mas testemunhar com sua vida que outro mundo é possível, que existem relações humanas baseadas no amor fraterno. A sensibilidade à evangelização que vocês são chamados a desenvolver como Comunidade Shalom não pode ser separada da sensibilidade aos sofrimentos da humanidade. Aqueles que realmente encontraram o Coração de Cristo não podem ficar indiferentes às lágrimas do mundo. A proclamação do Evangelho torna-se, então, um gesto de compaixão, um ato de serviço, uma oferta de esperança para aqueles que vivem na escuridão.
O Papa Francisco vincula explicitamente a devoção ao Sagrado Coração com suas encíclicas sociais Laudato si’ e Fratelli tutti. Isso nos permite descobrir que o que está escrito nesses documentos “não é estranho ao nosso encontro com o amor de Jesus”³³. O cuidado com a criação, o cuidado com os pobres e a promoção da fraternidade universal fluem naturalmente da contemplação do Coração de Cristo. Isso significa que sua evangelização não pode se limitar à proclamação de verdades abstratas, mas deve ser traduzida em compromisso concreto com a justiça, a paz e o cuidado com a criação. O Evangelho que vocês proclamam deve ser encarnado em suas vidas, visível em suas escolhas, tangível em suas obras.
A encíclica lembra que “no Coração de Cristo podemos encontrar todo o Evangelho”³⁴. Isso significa que vocês não devem procurar em outro lugar o conteúdo de sua evangelização. É no Coração transpassado de Jesus que você encontra todas as palavras de vida eterna de que o mundo precisa.
A oferta da vida como resposta ao amor
O último aspecto que queremos considerar diz respeito à oferta da vida como uma resposta natural à experiência do amor do Coração de Cristo. Quem realmente entendeu que é amado gratuitamente por Deus não pode deixar de responder com o dom de si mesmo³⁵. A oferta da vida não é um sacrifício imposto externamente, mas uma resposta livre de amor a amor. É o que o próprio Jesus fez: “Ninguém me tira a vida, mas eu a ofereço de mim mesmo”³⁶. O amor autêntico é sempre oblativo, sempre disposto a dar, sempre pronto a se sacrificar pelo bem do amado.
A encíclica enfatizou como esse dinamismo de oferta caracteriza todos os grandes santos devotos do Sagrado Coração³⁷. Santa Teresa de Lisieux, Santa Faustina Kowalska, São João Paulo II: todos fizeram do dom de si a característica fundamental de sua existência, todos encontraram no Coração de Cristo a fonte e o modelo de sua oblação. Para a Comunidade Shalom, a oferta da vida deve se tornar a marca registrada de sua espiritualidade e missão. Você não deve se contentar com uma vida cristã medíocre, uma fé morna, um compromisso ocasional. Vocês são chamados à radicalidade do amor, à totalidade do dom. Essa oferta de vida se concretiza de mil maneiras diferentes: em sua disponibilidade para o serviço de seus irmãos e irmãs, na generosidade para com os pobres, em seu compromisso com a justiça, em sua dedicação à família, no trabalho realizado com competência e honestidade, no testemunho alegre de sua fé³⁸. Nem todos vocês são chamados ao martírio sangrento, mas todos são chamados ao martírio do amor cotidiano. A encíclica lembrou a vocês que a oferta da vida nunca é solitária, mas é sempre comunitária. É na comunhão eclesial que sua oferta adquire significado e fecundidade³⁹. Como Comunidade Shalom, vocês são chamados a fazer de sua vida comunitária uma sinfonia de ofertas diferentes, mas convergentes, um coro de vozes que cantam juntas o louvor do amor divino.
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No magistério nascente do Papa Leão XIV, o Coração de Jesus é apresentado como o horizonte teológico e pastoral no qual uma Igreja mais compassiva, mais próxima e mais evangélica toma forma. A compaixão, longe de ser um sentimento genérico, é delineada pelo Santo Padre como um ato de identificação interior com a dor do outro, enraizada no mistério da Encarnação e no Coração transpassado do Redentor. Desde suas primeiras palavras ao povo de Deus, pronunciadas na Missa de Pentecostes em 18 de maio de 2025⁴⁰, o Papa indicou a direção de seu pontificado: “Uma Igreja de coração aberto, que não se fecha em defesa, mas se expõe à ferida do mundo com a mesma confiança com que Cristo expôs seu Coração à lança”⁴⁰. Assim, a compaixão se torna não apenas um traço do estilo cristão, mas um critério missionário, um princípio de reforma, uma nova maneira de pensar sobre a presença da Igreja no mundo. Em seu discurso aos membros do Corpo Diplomático acreditado junto à Santa Sé, em 10 de junho de 2025, o Papa Leão XIV declarou: “O Coração de Cristo nos ensina que a verdadeira paz nasce quando nos deixamos comover, quando sentimos que a dor dos outros nos toca e nos afeta”⁴¹ Nessa visão, a compaixão não é reduzida a uma ação ética, mas se torna uma categoria cristológica e eclesial, uma fonte de discernimento para toda jornada de reforma. Em seu discurso aos Superiores Gerais em 4 de julho de 2025, Leão XIV reiterou vigorosamente: “Quem segue Cristo não pode se contentar em observar a dor do mundo de longe. Ele deve aprender de Seu Coração a arte de se abaixar, de tocar, de levantar, de acompanhar”⁴². Essas palavras têm um eco profundamente evangélico e lembram uma longa tradição espiritual que encontra na devoção ao Sagrado Coração de Jesus uma de suas expressões mais elevadas e atuais. Não se trata, entretanto, de uma compaixão abstrata ou puramente afetiva. Em vários discursos, o Papa Leão XIV vinculou esse dinamismo do coração à justiça social, à paz entre os povos e ao cuidado com os mais frágeis. Em 5 de julho de 2025, ao receber um grupo de refugiados acolhidos nas dioceses europeias, ele disse: “A compaixão cristã não se expressa em palavras de piedade, mas na capacidade de oferecer tempo, espaço, leis e políticas que coloquem a pessoa no centro”⁴³. Assim, delineia-se um magistério que faz da compaixão o critério de leitura da realidade global, um instrumento de discernimento para a Igreja e um princípio ativo para a ação social. O Coração de Jesus, na visão do Papa, não é apenas um objeto de veneração: é um método de conversão. É a “forma eclesial” que ele deseja promover: uma Igreja capaz de ternura, de proximidade, de paciência, de perdão, mas também de firmeza na defesa do humano. Pois o Coração de Cristo não é apenas paixão, mas também justiça, verdade e doação. Finalmente, em seu encontro com os Bispos da América Latina e do Caribe (CELAM) em 23 de junho de 2025, Leão XIV concluiu com estas palavras: “A Igreja que aprende do Coração de Cristo se torna uma presença que consola, uma voz que protege, um olhar que escuta⁴⁴. Somente assim seremos fiéis ao Evangelho”. A compaixão, portanto, não é uma proposta sentimental, mas uma gramática da Igreja, uma linguagem que sabe combinar verdade e amor, justiça e misericórdia, evangelização e escuta. Em um mundo ferido pela solidão, pela desigualdade, pela cultura do desperdício e do desespero, o magistério do Papa propõe com força e delicadeza o Coração de Jesus como ícone de uma humanidade reconciliada, que aprendeu a sentir como Deus sente. Nessa visão, vislumbra-se também a reforma do coração de cada pessoa batizada. Aprender com o Coração de Jesus significa abandonar a dureza da indiferença e assumir o estilo manso do Bom Pastor. É o caminho de uma santidade humilde, encarnada e próxima, da qual o Papa Leão XIV é testemunha e promotor.
Concluindo esta reflexão, podemos dizer que a encíclica Dilexit Nos e o Magistério emergente do Papa Leão XIV oferecem a você um roteiro espiritual para sua jornada comunitária. Eles o convidam a começar pelo coração, a deixar que o amor de Cristo transforme seu coração, a se tornar um coração compassivo para o mundo ferido. Somente assim sua evangelização será autêntica, somente assim sua oferta de vida será frutífera. O mundo espera esse testemunho de vocês. Em um tempo de divisão e violência, de indiferença e egoísmo, a Comunidade Shalom é chamada a ser um sinal vivo da possibilidade de uma humanidade reconciliada, de uma sociedade fundada no amor fraterno, de um mundo onde o Coração de Cristo continua a pulsar nos corações de seus discípulos.
¹ Papa Francisco, Dilexit Nos, Carta Encíclica sobre o amor humano e divino do Coração de Jesus Cristo, 24 de outubro de 2024, n. 1.
² Ibid, n. 2.
³ Ibid, n. 31.
⁴ Ibid.
⁵ Ibid, n. 9.
⁶ Ibid, título do Capítulo III.
¹⁰ Ibid, nos. 32-50.
¹¹ Ibid, n. 73.
¹² Ibid.
¹³ Ibid, n. 73.
¹⁴ Ibid.
¹⁵ Ibid, n. 74.
¹⁶ Ibid.
¹⁷ Ibid, nos. 51-72.
¹⁸ Ibid, n° 52.
¹⁹ Lc 10:33.
²⁰ Papa Francisco, Dilexit Nos, nn. 55-58.
²¹ Ibid, nn. 59-65.
²² Ibid, capítulo IV, “O amor que dá de beber”.
²³ Ibid, n. 103.
²⁴ Ibid, nos. 94-96.
²⁵ Ibid, nos. 97-102.
²⁶ Ibid, n. 103.
²⁷ Ibid, n. 91.
²⁸ Ibid, nos. 125-130.
²⁹ Ibid, n. 125.
³⁰ Ibid, nos. 195-220.
³¹ Ibid, nos. 180-194.
³² Ibid, n. 30.
³³ Ibid, n. 220.
³⁴ Ibid, n. 89.
³⁵ Ibid, capítulo V, “Amor por amor”.
³⁶ Jo 10,18.
³⁷ Papa Francisco, Dilexit Nos, nn. 131-150.
³⁸ Ibid, nn. 195-220.
³⁹ Ibid, nn. 185-194.
⁴⁰ Homilia de Pentecostes, 18 de maio de 2025, Basílica de São Pedro.
⁴¹ Discurso ao Corpo Diplomático, 10 de junho de 2025, Sala Clementina, Cidade do Vaticano.
⁴² Discurso aos Superiores Gerais, 4 de julho de 2025, Sala Paulo VI.
⁴³ Encontro com os refugiados recebidos na Europa, 5 de julho de 2025, Casa Santa Marta.
⁴⁴ Discurso ao CELAM, 23 de junho de 2025, Sala do Sínodo, Vaticano.