Formação

Reinventando a vida

Para ninguém se apresenta como novidade o qualificativo desta Terra como um vale de lágrimas. A vida com suas repetições e rotinas – noite e dia, sol e chuva, frio e calor, trabalho e descanso, saúde e doença, gáudios e tristezas – nunca constituirá um paraíso só de delícias.

Tudo nesta Terra é passageiro, “a vida do homem não é mais do que um sopro” (Sl 61,10), cantava o salmista. Assim sendo, o homem que coloca demasiada esperança em si mesmo e nas coisas desse mundo, todas perecíveis, facilmente cai na desilusão.

É o que nos diz Cecília Meirelles em seu poema: “Anda o sol pelas campinas/ e passeia a mão dourada/ pelas águas, pelas folhas…/ Ah! tudo bolhas/ que vêm de fundas piscinas/ de ilusionismo… – mais nada. […] Porque a vida, a vida, a vida,/ a vida só é possível/ reinventada”1 .

A escritora não foi a primeira a descrever o desencanto das coisas terrenas. Há mais de três mil anos já descrevia essa situação o mais poderoso e mais sábio dos monarcas que Israel conheceu, o Rei Salomão, no livro do Eclesiastes.

Vaidade das vaidades, diz o Eclesiastes, vaidade das vaidades! Tudo é vaidade. Que proveito tira o homem de todo o trabalho com que se afadiga debaixo do sol? Uma geração passa, outra vem; mas a terra sempre subsiste. O sol se levanta, o sol se põe; apressa-se a voltar a seu lugar; em seguida, se levanta de novo. O vento vai em direção ao sul, vai em direção ao norte, volteia e gira nos mesmos circuitos. Todos os rios se dirigem para o mar, e o mar não transborda. Em direção ao mar, para onde correm os rios, eles continuam a correr. Todas as coisas se afadigam, mais do que se pode dizer. A vista não se farta de ver, o ouvido nunca se sacia de ouvir. O que foi é o que será: o que acontece é o que há de acontecer. Não há nada de novo debaixo do sol. Se é encontrada alguma coisa da qual se diz: Veja: isto é novo, ela já existia nos tempos passados. Não há memória do que é antigo, e nossos descendentes não deixarão memória junto daqueles que virão depois deles.

Eu, o Eclesiastes, fui rei de Israel em Jerusalém. Apliquei meu espírito a um estudo atencioso e à sábia observação de tudo que se passa debaixo dos céus: Deus impôs aos homens esta ocupação ingrata. Vi tudo o que se faz debaixo do sol, e eis: tudo vaidade, e vento que passa (Ecle 1, 2-14).

Entretanto, há uma solução para esse dissabor da vida. A própria autora do poema no-la descreve ao dizer: “A vida só é possível reinventada”.

No que consiste, então, essa reinvenção da vida? Em reinventar o seu conceito. Vejamos os diversos modos de vê-la.

Se considerarmos que o fim último do ser humano se cumpre nesta Terra e que tudo acaba com a morte, que não existe uma realidade superior além da que constatamos com nossos sentidos, então realmente tudo é vaidade, tudo é ilusão!

Mas outra é a certeza que nos dá a fé católica: o homem está nesta Terra apenas como peregrino, sua existência aqui é uma preparação para a verdadeira vida que se inicia após sua morte, e que é eterna. Assim sendo, tudo o que o homem faz, sente e quer tem uma repercussão na eternidade e nada constitui uma repetição tediosa e sem sentido, mas sim um mérito ou demérito conquistado para a vida futura.

Ademais, Deus, Pai providente, está sempre orientando e agindo na História da humanidade. Eis uma bela reinvenção da vida: contemplar o agir de Deus, seja na natureza – como um belo pôr de sol ou uma suave nevada -, seja na alma de nossos semelhantes, como, por exemplo, a candura de uma criança inocente ou o desvelo carinhoso de uma mãe. Atentos a essas maravilhas proporcionadas pelo Altíssimo, abstraímo-nos do material e corriqueiro da vida e desvendamos, assim, o verdadeiro sentido dela.

Reinventada deste modo, a vida se tornará não só possível, mas também bela e atraente.

 Irmã Maria Teresa Ribeiro Matos, EP

1 MEIRELES, Cecília. Flor de poemas. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1972, p. 94.

Fonte:Gaudiumpress

 


Comentários

Aviso: Os comentários são de responsabilidade dos autores e não representam a opinião da Comunidade Shalom. É proibido inserir comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes ou violem os direitos dos outros. Os editores podem retirar sem aviso prévio os comentários que não cumprirem os critérios estabelecidos neste aviso ou que estejam fora do tema.

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *.

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *