Formação

Respeito pela vida

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Dom Walmor Oliveira de Azevedo


O Santo Padre Bento XVI, na Carta Encíclica Caritas in Veritate,configura um horizonte indispensável para a abordagem do enorme desafioque é o respeito pela vida. Não poucos, incluindo estudiosos dediferentes campos do saber, correm o risco de alavancar suas reflexõesem impostações ideológicas  – que em si não possuem aforça suficiente para suscitar e manter a capacidade humana de pensar,escolher e agir respeitando a vida.

Éincontestável a inconsistência de ideologias que se configuram a partirde uma análise da realidade que prescinda de valores sem os quais setorna inviável o processo permanente de capacitação humana para umaconduta que respeite a vida. As perspectivas analíticas e proposiçõesde ideologias ateias não conseguem propor e garantir o conjunto deelementos indispensáveis para a capacidade individual e coletiva no quese refere à ciência – e ao todo que compõe o significado do respeito àvida. Até mesmo a teologia, como campo do saber e do pensar, podecorrer o risco de perder o que lhe é próprio – a abordagem e otratamento da transcendência como elemento determinante de seu discursoe de suas intuições, reduzindo-se, como não deixou já de ocorrer, a umasociologia sem a propriedade do que este campo do saber possui depróprio do seu objeto formal.

OPapa Bento XVI, na argumentação da Carta Encíclica adverte, propõe,convida e indica a necessidade de incluir observações de carátervalorativas que não se reduzem ao que está na consideração da realidadeem si, mas que a ilumina e desvenda entreveros próprios de suascomplexidades.  Muitos podem pensar que ainda bastapartir simplesmente de questões que configuram a análise da realidadepela formatação própria dos contornos de ideologias, incluindo aquelasateias. Na mesa de discussão está posto, pelo ensino magisterial daIgreja Católica, na recente Encíclica, que é indispensável entender odesenvolvimento econômico, a sociedade civil e a fraternidade a partirde parâmetros e sistemas valorativos – que estão para além do quesimplesmente é a realidade da vida da sociedade, seus mecanismos e doque conseguiram, arruinando, fazer dela.

Assim,o desenvolvimento dos povos não pode ser desvinculado, no seuentendimento e nos seus andamentos, do que forma, ética, moral ereligiosamente, o significado amplo e comprometedor do que é o respeitopela vida. E não é apenas uma questão de salvaçãoplanetária. Há algo que está acima dos números das metas definidaspelas cúpulas e fóruns, embora, lamentavelmente, não tenham sidocumpridas. Essas metas não são cumpridas por uma má vontade e por umaincapacidade de governos, instâncias e da sociedade em geral. Mastambém pela pequenez de estatura que só conquista e tem aqueles quepautam sua conduta na força de valores que estão para além dosfuncionamentos da natureza ou do estritamente gerencial eadministrativo das responsabilidades governamentais, sociais epolíticas.

Quandose fala, por exemplo, de pobreza, põe-se o desafio de alargar os seusconceitos e entendimentos. Ora, no cenário da pobreza mundial, aprovocação das altas taxas de mortalidade infantil, em muitas regiões,se deve, sim, ao baixo nível econômico das populações. Mas, também, àspráticas de controle demográfico, em várias partes do mundo, por partede governos que muitas vezes, sublinha o Papa Bento XVI, difundem acontracepção e chegam mesmo a impor o aborto. Não são poucas, e porisso mesmo merecem atenção, as muitas legislações difusas e contrárias à vida, incluindo países economicamente mais desenvolvidos.

Dessaforma, por uma opção estreita de entendimento acerca da vida, essaslegislações alavancam uma mentalidade antinatalista considerada,enganosamente, como progresso cultural. O Papa não deixa de denunciar,na Carta Encíclica, que “há a fundada suspeita de que às vezes aspróprias ajudas ao desenvolvimento sejam associadas com determinadaspolíticas sanitárias que realmente implicam imposição de um fortecontrole dos nascimentos. Igualmente preocupantes são as legislaçõesque prevêem a eutanásia e as pressões de grupos nacionais einternacionais que reivindicam o seu reconhecimento jurídico”.  Émuito importante, portanto, que se compreenda que a abertura à vidaestá no centro do verdadeiro desenvolvimento. Isto significa dizer eentender que não se pode prescindir, na consideração dodesenvolvimento, da referência a valores que estão acima e são maioresque a simples dissecação da realidade enquanto revela seus mecanismosperversos. Pode-se correr o risco de constatar, saber, conhecer eexplicar, sem contudo ter força para dar o passo novo e a conquista deum novo desenho do cenário contemporâneo. “Quando uma sociedade começaa negar e suprimir a vida, acaba por deixar de encontrar motivações eenergias necessárias para trabalhar a serviço do verdadeiro bem dohomem”, diz o Papa Bento XVI.


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