“Quanto mais o homem conhece a realidade e o mundo, tanto mais conhece a si mesmo na sua unicidade (…) O que chega a ser objeto do nosso conhecimento torna-se por isso mesmo parte da nossa vida” (Fides et Ratio). Se houvesse espaço, transcreveria toda a encíclica para esse artigo, pois toda ela anima o desejo do conhecimento e nos coloca no caminho da verdade. O título desse artigo pode parecer redundante para você, uma vez que todo saber é conhecimento e seria o mesmo que dizer: “conhecer como se conhece”. Se você pensou desta forma, parabéns! está no caminho certo, é disso mesmo que queremos falar; porém, o nosso objetivo maior não é o conhecimento como fim em si mesmo, mas “conhecer como se ama mais e melhor.”
“Ainda que eu conhecesse todos os mistérios e toda a ciência… se não tiver amor, de nada valeria” (1Cor 13,2). Neste versículo São Paulo mostra que o conhecimento, está a serviço do Amor e fora dele não tem razão de ser. Se conhecemos, conhecemos para melhor amar. “Enquanto fonte de amor, Deus deseja dar-se a conhecer…” (Fides et Ratio).
Amor e conhecimento caminham juntos! É próprio do amor se revelar, se dar a conhecer, mas também como parte do mesmo movimento, desejar conhecer. Infelizmente hoje em dia percebemos um apelo gritante das pessoas para serem conhecidas; escancarando de forma grosseira suas vidas como se pudessem assim saciar sua sede de amor. De alguma forma tentam chamar atenção sobre si, numa tentativa de serem identificadas, mas sobretudo, de serem amadas.
Há algum tempo atrás assisti uma entrevista na qual uma artista televisiva declarava que: no dia em que sair nas ruas e não for “reconhecida”, sua vida terá perdido o sentido. Mas no nosso meio, sentimos também a frustração diante de alguém que esqueceu nosso nome, que não nos reconhece mais, que não percebe detalhes tão importantes como a plástica feita no nariz, etc. Da mesma forma, há um sentimento de incapacidade vigente que impede as pessoas de se amarem, de terem atitudes de amor uma para com as outras.
Todos querem ser conhecidos e amados, mas ninguém se sente capaz de dar o primeiro passo. E por que isso?! O livro do Pequeno Príncipe nos oferece uma resposta que acredito poder nos ajudar nesta compreensão: “A gente só conhece bem as coisas que cativou. Os homens não têm mais tempo de conhecer coisa alguma. Compram tudo prontinho nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos”.
O momento atual no qual vivemos, de intenso avanço tecnológico, nos propõe um modelo de vida no qual as estruturas tradicionais, principalmente a família, têm sofrido contínuas mudanças que enfraquecem suas bases de tal modo que os valores essenciais do ser humano têm sido trocados, pouco a pouco, pelos sustentados na sociedade de consumo. A cultura do descartável, do prático, do fácil de usar, do cartão de crédito e dos cellfones, tornaram a vida humana carente de raízes profundas nas quais os homens possam apoiar o sentido da sua existência e dos valores fundamentais.
A busca pela verdade nasce da capacidade que o homem tem de admirar-se com a criação e é essa admiração do bom, do belo e do verdadeiro que move o ser humano a indagar acerca da realidade que deseja conhecer. Se essa realidade é uma outra pessoa, é preciso zelo e cuidado redobrados, pois há uma diferença básica que não podemos deixar de considerar, entre o objeto que se conhece e uma outra pessoa. As coisas são conhecidas para melhor serem utilizadas, as pessoas, para serem amadas. É preciso não confundir entre uma e outra finalidade, para não cair no erro de amar as coisas e usar as pessoas. O conhecimento do “outro” é sobretudo um ato da vontade que passa pelos sentidos do corpo (tato, olfato, visão…) e pela investigação da inteligência: O que é?! Como é?! Do que é feito?! Para que?! Porque?! etc… A cada descoberta, o indivíduo se sente mais próximo da verdade do outro e esta verdade é construída em si, como parte de si mesmo, como um valor.
Porém, conhecer é trabalhoso; não é atividade para preguiçoso nem tão pouco para apressados. “É preciso ser paciente. Tu te sentarás primeiro um pouco longe de mim… Mas, cada dia, te sentarás mais perto.” (O Pequeno Príncipe) É preciso gastar tempo, ser atento, perspicaz, indagador… É tarefa que exige dedicação, paciência, humildade. “A primeira regra é ter em conta que o conhecimento do homem é um caminho que não permite descanso; a segunda nasce da consciência de que não se pode percorrer tal caminho com orgulho de quem pensa que tudo seja fruto de conquista pessoal…” (Fides et Ratio).
Shakespeare, em uma de suas peças diz que não podemos conhecer a alma humana como quem deseja tocar um instrumento: “Em mim você quer tocar; pretende conhecer demais os meus registros; pensa poder dedilhar o coração do meu mistério (…) Acha que eu sou mais fácil de tocar do que uma flauta? Pode me chamar do instrumento que quiser – pode me dedilhar quanto quiser, que não vai me arrancar o menor som…”
Voltamos agora ao início: saber conhecer. Como conhecer alguém?! Como penetrar os mistérios do coração humano?! Como chegar próximo, bem perto, sem assustar?! As respostas você poderá encontrar nas suas próprias experiências ou nos próximos números da revista onde estaremos conversando sobre “saber ouvir”, “saber falar”, “saber tocar”, “olhar”, etc… Até a próxima! Fica com Deus! Shalom!
*artigo originalmente publicado na Revista Shalom Maná