Psiquê (em grego: psychḗ, “respiração”, “sopro”) era, entre os antigos gregos, um conceito que definia o auto (“si mesmo”). Dado que o sopro é uma característica vital da existência biológica, a expressão “psique” passou a ser utilizada como sinônimo de vida e por fim, como sinônimo de alma, considerada o princípio da vida. Dessa forma, compreendemos porque a nossa Psiquê não está desconectada da nossa Alma.
Santa Hildegarda de Bingen, doutora da Igreja, foi uma verdadeira visionária na compreensão da saúde. Para ela, a saúde não era meramente a ausência de doença, mas o resultado de uma intrínseca harmonia entre mente, corpo e espírito. Ela via o ser humano como um microcosmo que reflete o macrocosmo divino, e afirmava a existência de uma “viriditas” – uma energia vital, uma força vivificante – que permeava toda a criação e era essencial para a nossa vitalidade.
Quando essa “viriditas” diminuía ou se desequilibrava, fosse por causas físicas, emocionais ou espirituais, a doença se manifestava. A perda dessa força vital era um sinal claro de que a harmonia entre corpo, mente e espírito havia sido perturbada. Em sua sabedoria profética, Santa Hildegarda já nos apontava para uma medicina que abraçasse o ser humano em sua totalidade, muito antes de se popularizarem as abordagens integrativas. Ela, inclusive, recomendava práticas como o jejum, não apenas como purificação do corpo, mas como um meio de clarear a mente e fortalecer o espírito.
A visão de Santa Hildegarda é particularmente atual, especialmente ao testemunharmos o sofrimento causado pelos transtornos mentais de nossa era e suas altas taxas de recorrência. Depressão, ansiedade, su1c1di0 e outras afecções da mente não se restringem ao domínio mental; elas se alastram, impactando profundamente as dimensões física e, sobretudo, espiritual. Diante desse cenário, muitas são as buscas por soluções definitivas e imediatas, quando na verdade, o primeiro passo para uma mente sã é ter um corpo são e um espírito são.
A saúde não deve ser um fardo
O mundo em que nós vivemos nos empurra um itinerário doentio, quase enlouquecedor, de muitas demandas, muitos estresses, comida ultraprocessada e comodismo. Qual será a resposta que nós, homens deste tempo, daremos a essa realidade?
“Olhai os lírios do campo, as aves do céu” (Cf. Mt 6,28).
A vida não é uma preocupação em série e a saúde não deve ser um fardo. A vida é graça sobre graça, e a saúde também. “Alegremo-nos e nEle exultemos”, pois esse é o dia que Ele fez para nos salvar (Sl 117,24), para nos trazer de volta a Ele! Alegremo-nos porque o senhor nos quer santos e nos dá tudo o que nos é preciso para isso. Alegremo-nos porque, graças a Deus, nada se realiza apenas por nossas forças, mas pelo poder de Deus.”
“Elevo os meus olhos para os montes; de onde me vem o socorro? O meu socorro vem do Senhor, que fez os céus e a terra” (Sl 121,1-2).
Há uma prática ancestral, chamada “Sky Gazing” (literalmente, “contemplar o Céu”), que hoje a neurociência mostra inúmeros benefícios à saúde. Os nossos ancestrais, ao olharem para o horizonte, expandindo a visão periférica ao máximo para examinar a paisagem em busca de possíveis ameaças, descobriam um surpreendente efeito calmante. Quando percebemos uma ameaça, nosso campo de visão se estreita naturalmente, ativando o mecanismo de luta ou fuga. Ao contrário, quando se expande, nos transmite a segurança de que não há necessidade de ação imediata, de que “está tudo bem”.
Se esse simples olhar para o horizonte terrestre nos traz paz e segurança diante das ameaças visíveis, quanto mais não nos trará a contemplação do Céu, nossa Pátria, na esperança da vida eterna? Essa contemplação da alma nos convida a elevar os olhos para o Alto, para além das nossas contingências e aflições do cotidiano, nos convida a lembrar que nosso verdadeiro lugar e nossa plena saúde estão em Deus. Que Deus nos conceda esse olhar que não busca ameaças, mas promessas; que não estreita a visão, mas a expande para a vastidão da graça divina em busca da visão beatífica.
É essa esperança que nos sustenta, nos move e nos capacita a enfrentar as cruzes diárias, sejam elas físicas, mentais ou espirituais. Se temos um Deus que é por nós, que “fez os céus e a terra”, que nos quer íntegros – em salvação e saúde – e que é a fonte inesgotável de toda paz e de toda força, perante quem nós temeremos (Sl 27,1). Olhemos para o Céu, pois de lá vem o nosso socorro e a promessa de uma vida em abundância, já agora e na eternidade.
“O sofrimento produz a paciência; a paciência gera a fidelidade; e a fidelidade comprovada produz a esperança; e a esperança não engana” (Cf. Rm 5,5).
