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Santa Missa: como a Eucaristia nos conduz à comunhão da Santíssima Trindade

A Santa Missa é o lugar privilegiado onde os cristãos participam da comunhão da Trindade. Neste artigo, Vinícius Ribeiro reflete sobre a dimensão trinitária da Eucaristia e sobre a participação no banquete divino.

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A Santa Missa é muito mais do que um rito: é o ápice da vida cristã, no qual a Igreja participa ativamente da comunhão de amor de Deus Pai, Filho e Espírito Santo. Cada celebração eucarística é uma porta de entrada nessa comunhão trinitária, na qual se realiza uma admirável união entre o sacrifício de Cristo e o louvor ao Criador (festa). Dessa forma podemos dizer que a Eucaristia é um banquete divino no qual a Trindade nos acolhe.

A Trindade – Andrei Rublev

O ícone da Santíssima Trindade, escrito por Andrei Rublev, revela em um primeiro plano a visita de Deus a Abraão narrada em Gênesis 18, convida o homem a entrar nesse mistério, dá-lhe um lugar bem no centro, na frente do Filho, um lugar de comunhão e participação. E não seria isso que nós vivemos a cada Eucaristia celebrada?

O sinal da cruz: o primeiro abraço da Trindade

Cada celebração Eucarística começa e termina em nome da Trindade. Estando o povo reunido, o sacerdote entra e saúda o altar com uma reverência profunda e, em seguida, beija-o, em sinal de veneração. Tendo sido executado o canto de entrada, o sacerdote, junto com toda a assembléia, faz o sinal da cruz. Esse é o primeiro sinal da presença da Trindade no meio de nós. É a Trindade nos abraçando, como que dissesse a mim e a você: “como é bom te ter aqui!”. Romano Guardini nos dá um precioso conselho:

“Pense em quantas vezes você faz o sinal da cruz. É o sinal mais sagrado que existe. Faça-o bem: devagar, com amplitude, conscientemente. Assim, ele abraça todo o seu ser, corpo e alma, pensamentos e vontade, sensações e sentimentos, atitudes e sofrimento, e tudo se fortalece, se marca, se consagra na força de Cristo, em nome do Deus Uno e Trino” (Os sinais sagrados, 126).

O fiel, desde o início da celebração, entra no coração da Trindade e descobre que não está sozinho. O cristão participa, pela graça, do mistério da unidade. “Ele está diante de Deus não como um ser isolado, mas como membro desta unidade”, diz Guardini. Ele se dá conta de que não existe um “eu” na liturgia, mas um “nós”. É essa comunidade unida, que reza e louva a uma só voz, que exprime de forma visível a Unidade invisível das três pessoas.

A saudação que o sacerdote faz ao povo é carregada de uma presença trinitária: “A graça de nosso Senhor Jesus Cristo, o amor do Pai e a comunhão do Espírito Santo estejam convosco” (cf. 2Cor 13,13). Se no sinal da cruz somos abraçados pela Trindade, agora recebemos aquela palavra de boas vindas, a saudação de paz, o Shalom do Ressuscitado, o Amor do Pai e o Espírito que vem sobre nós e nos une em uma só família, ilumina a nossa inteligência para pedir perdão e, em seguida, acolher a Palavra proclamada. 

O Glória é um hino antiquíssimo e venerável da Igreja. É cantado aos domingos (exceto no tempo do Advento e da Quaresma), nas solenidades, festas e ainda em celebrações especiais mais solenes. “Por ele a Igreja, congregada no Espírito Santo, glorifica e suplica a Deus Pai e ao Cordeiro.” 

Quando se dirige ao Pai, a assembleia litúrgica canta: “nós Vos louvamos, nós Vos bendizemos, nós Vos adoramos, nós Vos glorificamos” e, depois, “Vos damos graças por Vossa ‘imensa glória’”. Nestes cinco verbos utilizados, está encerrada toda a capacidade limitada do homem de exaltar a glória de Deus, que é imensa. 

Ao dirigir-se ao Filho Unigênito, Jesus Cristo, o Cordeiro de Deus, ela o reconhece como “Senhor Deus” e “o Filho de Deus Pai”. O louvor dá lugar à súplica para implorar misericórdia e perdão: “Vós que tirais o pecado do mundo, tende piedade de nós; Vós que tirais o pecado do mundo, acolhei a nossa súplica; Vós que estais à direita do Pai, tende piedade de nós”. A parte conclusiva é introduzida por um “porque” causal (que não aparece na tradução portuguesa), o canto continua voltado para Jesus Cristo exaltando a sua essência divina (só Vós sois o Santo, só Vós o Senhor, só Vós o Altíssimo Jesus Cristo) na comunhão trinitária (com o Espírito Santo na glória de Deus Pai). 

A Oração Coleta da Missa, por uma antiga tradição, é geralmente dirigida a Deus Pai, por meio de Cristo, no Espírito Santo com uma fórmula conclusiva trinitária. 

A presença trinitária na Liturgia da Palavra

Na Liturgia da Palavra, escutamos a voz de Deus que falou por meio dos profetas, as inspirações do Espírito Santo que levaram à composição dos salmos e hinos e que iluminou os autores sagrados. No Evangelho, Jesus, Palavra Viva do Pai, fala para a comunidade reunida.

A Igreja, “povo reunido na unidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (Lumen Gentium 4b), todos os domingos e solenidades, reza o Credo, como uma grande profissão de fé trinitária. Junto ao símbolo da fé, as orações, as doxologias, os prefácios e as orações eucarísticas são estruturados segundo uma dinâmica trinitária: ao Pai, por Cristo, no Espírito.

O destino final da oração e do louvor é, portanto, o Pai, a fonte e origem de todos os bens. O Filho, Jesus Cristo, é o grande mediador, o Pontífice; chegamos ao Pai por meio dele (por), unidos a ele como seus membros (em), e não sem ele (com). O Espírito Santo é o santificador, aquele que, a partir da ressurreição-Pentecostes, leva a bom termo na Igreja a obra da redenção.

Ao Pai, por Cristo, no Espírito Santo

Gostaria de propor uma reflexão: a cada doxologia, essa Trindade Santa que nos acolhe em sua mesa, que abraça toda nossa história, nos coloca em um movimento de dom total como o seu. Na patena, o Corpo de Cristo e, com ele, a nossa vida ofertada. Nessa dinâmica, o “Filho se oculta na carne para revelar o Pai, e o Pai se oculta no silêncio para mostrar o Filho-Verbo (a Palavra); Deus se oculta na cruz para revelar o homem a si mesmo, e o homem se oculta na liturgia-doxologia para revelar Deus ao homem.”

Conta-se que, no ícone de Andrei Rublev, havia um espelho que permitia ao orante que o contemplava reconhecer sua face no coração da Trindade. A Eucaristia celebrada, no entanto, nos faz um com esse Deus, tão forte e poderoso. A Liturgia não nos entrega conceitos trinitários, mas nos faz habitá-la, contemplá-la e respirar os seus ares. Isso entendeu bem Santa Elisabeth da Trindade quando cantou:

“Ó meu Deus, Trindade que adoro, ajudai-me a esquecer-me inteiramente de mim mesma para fixar-me em Vós, imóvel e pacífica, como se minha alma já estivesse na eternidade. Que nada possa perturbar-me a paz nem me fazer sair de Vós, ó meu imutável, mas que a cada minuto eu adentre mais a profundidade de Vosso mistério. Pacificai minha alma, fazei dela Vosso céu, Vossa morada preferida e o lugar do Vosso repouso. Que eu jamais Vos deixe só, mas que aí esteja toda inteira, totalmente desperta em minha fé, toda em adoração, entregue inteiramente à vossa ação criadora.”


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