Formação

Santa Teresinha e as cordas do coração

Para falar sobre o coração humano, Santa Teresinha do Menino Jesus usa o símbolo da lira de quatro cordas. “Tu, Jesus, faz vibrar as quatro cordas e essas cordas são meu coração”

Teresa de Lisieux é a grande teóloga do coração do homem. Para falar sobre ele, Santa Teresinha usa um símbolo riquíssimo, que é a lira e suas quatro cordas. A lira é um instrumento musical da antiguidade. Em uma de suas poesias, Teresa diz: “Tu, Jesus, faz vibrar as quatro cordas e essas cordas são meu coração”.

Talvez pensemos em outro instrumento de quatro cordas, como o violino, porque hoje não se usa mais a lira. Pensem no nosso coração, homens e mulheres, com quatro cordas como um violino. No coração da mulher, essas quatro cordas são o amor de esposa, mãe, filha e irmã. E no homem é de esposo, de pai, de filho e de irmão. Somos chamados a amar em todas essas dimensões, com essas quatro cordas. Essas dimensões são fundamentais porque são a imagem do Deus amor, no corpo e na alma do homem e da mulher. Essas cordas são indestrutíveis. Podem ser feridas pelo pecado, mas quando o homem se abre ao amor de Jesus, elas são salvas, são curadas e, podemos dizer, reafinadas. Todos os santos insistem muito, especialmente os santos carmelitas, na purificação do coração. Devemos dar todo o nosso coração a Jesus, que é o Esposo e o Salvador, e Ele, por meio do Espírito Santo, nos ensina a amar com todo o coração, em todas as suas dimensões.

É importantíssimo não ignorar e não negar nunca nenhuma dessas cordas, mas examinar o nosso próprio coração. Muitas vezes acontece que vivemos uma corda com mais facilidade e outra com mais dificuldade, por causa de uma experiência positiva ou negativa que vivemos. Também devemos confiar e entregar o nosso coração a Nossa Senhora, a mãe e educadora maravilhosa do coração de todos os seus filhos. Os santos nos ensinam a confiar totalmente o nosso coração, corpo e alma ao amor materno de Maria. Trata-se da nossa formação permanente, da formação do nosso coração, que dura por toda a vida.

StaTeresinha_01Corda exclusiva e inclusiva

Em todos os santos é possível ver essas quatro cordas que vibram, mas com muita diversidade. Diversidade se é homem ou mulher, se é uma pessoa casada ou consagrada no celibato. A música é sempre bela, mas com um tom diverso. Santa Teresinha é uma mulher consagrada no celibato e na virgindade, mas é também uma doutora da Igreja que fala de uma verdade para toda a Igreja. E, nela, a corda dominante é a corda esponsal, a corda de esposa. Em Santa Catarina de Sena, a corda dominante é a corda materna, todas a chamam de mãe.

Vamos resumir o ensinamento de Santa Teresinha para essas quatro cordas a partir da sua experiência como esposa, mãe, filha e irmã. Primeiro, é preciso notar que entre a corda esponsal e todas as outras tem uma diferença essencial. A corda esponsal é exclusiva, enquanto as outras cordas são inclusivas. Ou seja, o amor esponsal é só para uma pessoa. Para a pessoa casada, é o esposo ou a esposa; para a pessoa consagrada, é Jesus.

As outras cordas, mãe, filha e irmã são inclusivas, incluem todas as outras pessoas. Somos filhos dos nossos pais, mas, primeiro de Deus, da Igreja e de Maria. Chamamos os nossos superiores de pai e mãe, chamamos o papa de Santo Padre, e também uma mãe pode ter muitos filhos. A mãe de Santa Catarina de Sena tinha 25 filhos, mas Catarina tinha centenas de filhos espirituais, mas um único esposo: Jesus. É claro que o amor fraterno se estende a todos os homens. Qualquer homem é um irmão pelo qual Cristo morreu. Essa distinção é importantíssima.

Matrimônio espiritual

Para entender a esponsalidade de Santa Teresinha também é necessário entender os outros santos. O matrimônio espiritual é um grande tema dos santos carmelitas. São João da cruz e Santa Teresa de Ávila falam do matrimônio espiritual como a plena união com Deus, a qual todos são chamados a essa vocação universal à santidade e a esse matrimônio espiritual, igualmente para as pessoas casadas como para as consagradas no celibato. São João da Cruz fala da igualdade da aliança de amor entre o esposo e a esposa. Vocês podem observar que o nosso amor por Jesus e o amor de Jesus por nós é o mesmo, é a comunhão do Espírito Santo. Se nos abrirmos a Jesus, abrirmos o nosso coração, podemos amá-lo como Ele nos ama. Esse símbolo do matrimônio é iluminador, porque a esposa deve amar o esposo como ela é amada por ele. O matrimônio espiritual é como a santidade.

São João da Cruz dá o grande fundamento teológico quando diz que na árvore da cruz o Filho de Deus desposou e redimiu a natureza humana e, por consequência, todas as almas. São Paulo dizia que cada homem é um irmão pelo qual Jesus morreu. São João da Cruz diz que cada homem é uma alma esposa de Jesus. Cada pessoa é chamada a corresponder ao amor de Jesus e isso é, exatamente, a santidade.

Santa Teresa de Lisieux tem um tom um pouco diferente sobre o matrimônio espiritual. Para ela, o matrimônio espiritual é a consagração do coração ao celibato; assim, ela vive sua consagração religiosa como um verdadeiro matrimônio com Jesus. Ela conta, na obra História de uma alma, com uma expressão muito bela, que fez a profissão de fé no dia 8 de setembro, na Natividade de Maria: “Que bela festa na Natividade de Maria se tornar a esposa de Jesus”.

Vejamos a oração de Teresa no dia da sua profissão: “Ó Jesus, meu divino esposo, que eu jamais perca a segunda veste do meu Batismo. Toma-me antes que eu cometa a mais leve falta voluntária. Que eu nunca procure e nunca encontre senão a ti somente; que as criaturas não sejam nada para mim e que eu nada seja para elas, mas que tu, Jesus, sejas tudo! Que as coisas da terra jamais consigam perturbar a minha alma, que ninguém perturbe a minha paz; Jesus, só te peço a paz, e também o amor, o amor infinito sem outro limite além de ti, o amor que já não seja eu, mas tu, meu Jesus. Jesus, que por ti eu morra mártir, o martírio do coração ou do corpo, ou antes os dois… Dá-me cumprir meus votos em toda a perfeição e faze-me entender o que deve ser uma esposa tua. Faze que eu nunca seja um encargo para a comunidade, mas que ninguém se ocupe de mim; que eu seja olhada, pisada com desprezo, esquecida como um grãozinho de areia para ti, Jesus. Que tua vontade seja feita em mim, perfeitamente; que eu chegue ao lugar que me deves ter preparado. Jesus, faz-me que eu salve muitas almas. Que hoje não haja uma só condenada e que todas as almas do purgatório sejam salvas. Jesus, perdoa-me se digo coisas que não se deve dizer. Só quero dar-te prazer e consolar-te.”

Esta oração é uma das expressões mais belas, mais puras do amor esponsal a Jesus, de uma pessoa consagrada ao celibato. Percebemos que o primeiro aspecto é que Teresa chama Jesus de meu esposo pela primeira vez. Antes o chamava de meu noivo. Para ela, o noviciado era um tempo de noivado. Como vimos, o primeiro aspecto é essa exclusividade ao amor esponsal de Jesus. A pessoa casada tem apenas um esposo ou uma esposa. Isso é muito importante: a fidelidade é o que caracteriza o amor esponsal.

 

Alma esposa de Cristo

Podemos perceber ainda como Teresa expressa o amor por Jesus, o amor infinito, que só é possível vivê-lo na pequenez, como o grão de areia. Este é um amor muito íntimo, muito pessoal apenas com Jesus, mas não é um fechamento egoísta, individualista. Podemos ver que, no final da oração, ela pede a salvação para todos os homens, sem nenhuma exceção. Nunca nenhum outro santo tinha falado dessa maneira tão forte. Ela, como esposa de Cristo, espera a salvação de todos os irmãos. Façam também dessa profissão de Santa Teresinha as suas palavras para Jesus. Sem o amor esponsal de Jesus a fidelidade é impossível, tanto no matrimônio como no celibato consagrado.

Termino essas considerações sobre o amor esponsal fazendo referência também a outros santos: São Francisco de Assis, Chiara Lubich, que não é ainda santa, mas com certeza acontecerá sua beatificação. Tantos nos escritos de Francisco como nos de Chiara, o amor esponsal de Jesus é alargado a todo o povo de Deus. Nos escritos de São Francisco, na carta a todos os fiéis, ele afirma que aqueles que vivem na caridade, homem ou mulher, casado ou consagrado, todos são esposos, irmãos e filhos de Jesus. Quem faz a vontade de Deus é, para mim, irmão, mãe e esposa.

Recentemente, Chiara Lubich também trouxe esse discurso. Ela era uma mulher consagrada, fez os votos na castidade, vivia o amor esponsal de Jesus no celibato. Sua irmã era noiva e se preparava para o matrimônio. Chiara escreve para ela: “Assim como eu, você também se casou com Jesus crucificado.” O fruto mais belo dessa espiritualidade é Chiara Luce Badano, a primeira beata do movimento dos Folcolares. Ela nunca encontrou Chiara Lubich pessoalmente, mas sempre a escrevia cartas, e ela as respondia. Tinha uma troca de cartas entre a grande e a pequena Chiara. Chiara Lubich ensinava para as crianças a serem enamoradas por Jesus e, assim, Chiara Luce, com 10 anos, escreveu dizendo que tomou Jesus como seu esposo. Ela nunca tinha pensado em ser consagrada, queria se casar, mas era enamorada por Jesus esposo e preparava-se para um futuro matrimônio.

Naquele período, tinha na Itália aquela falsa liberdade sexual entre os jovens, era frequente que eles tivessem relação sexual, mas a jovem Chiara queria permanecer virgem até o matrimônio, que é a verdade própria do Evangelho que a Igreja proclama, e que- ria viver essa pureza porque, justamente, era enamorada por Jesus. Quando veio a terrível doença do tumor nos ossos, aos 16 anos, ela foi capaz de viver essa prova como união com Jesus crucificado. Deu um testemunho belíssimo de alegria e entendeu que não poderia nunca se casar. Ela preparou sua morte como o casamento com Jesus, pedindo para ser vestida com vestido de noiva. Chiara Luce e Santa Teresinha são muito preciosas, especialmente para os jovens de hoje!

Padre François-Marie Lethel

 

Trecho de palestra proferida na sede da Comunidade Católica Shalom, a Diaconia Geral, em Aquiraz (CE). Mantido o tom coloquial

Padre Lethel é secretário da Pontifícia Academia de Teologia e pregador dos Exercícios Espirituais da Semana Santa para o Papa emérito Bento XVI e Cúria Romana em 2011.

Texto originalmente publicado na Revista Shalom Maná (clique aqui e saiba mais sobre a revista)


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