Formação

Santidade: como pode um coração humano, tão vulnerável, responder a um chamado tão elevado?

A santidade não é a vitória dos perfeitos, mas a obra de Deus em corações frágeis que se deixam transformar pela graça. Descubra como a vulnerabilidade humana pode tornar-se caminho para o Céu.

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Foto de Riho Kitagawa na Unsplash

Somos humanos.

E isso significa reconhecer que somos limitados, pequenos e, ao mesmo tempo, capazes de grandeza. Finitos, mas chamados ao infinito. Fortes e, ainda assim, profundamente frágeis. Desejamos o bem, mas muitas vezes escolhemos o mal.

Carregamos dentro de nós esse grande paradoxo.

Vivemos numa tensão constante entre aquilo que somos e aquilo que somos chamados a ser.

Ao tratar da fragilidade humana, a Igreja ensina que “o homem, ferido na sua natureza pelo pecado original, está sujeito ao erro e inclinado para o mal no exercício da sua liberdade” (Catecismo da Igreja Católica, 1714).

Eis o drama da condição humana: mesmo querendo acertar o alvo, tantas vezes falhamos.

Mas essa não é toda a verdade sobre nós.

A tradição da Igreja também afirma que o ser humano é capax Dei — capaz de Deus. Fomos criados à Sua imagem e semelhança (Gn 1,26), e carregamos em nós uma abertura para o infinito. Há, no coração humano, uma nostalgia do eterno.

Por isso, mesmo em meio às nossas inúmeras debilidades, somos chamados à santidade:

“Sede perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito” (Mt 5,48).

E aqui está o centro de tudo:

Deus nunca chama sem também conceder a graça necessária para responder.

Como recorda Papa Francisco em Gaudete et Exsultate:

“O Senhor pede tudo, e aquilo que oferece é a verdadeira vida.”

Santidade: obra da graça, não do esforço

Talvez um dos maiores enganos no caminho espiritual seja pensar que a santidade é fruto exclusivo do nosso esforço.

Mas santidade não é conquista. Santidade é graça.

Santo Agostinho dizia:

“Deus, que te criou sem ti, não te salvará sem ti.”

Tudo começa em Deus, mas exige a nossa cooperação.

Sozinhos, não podemos nos salvar. Feridos pelo pecado, não conseguimos nos sustentar apenas em nossas próprias forças. Por isso, Deus nos dá o Seu Espírito Santo, que dia após dia vai moldando o nosso coração à imagem do coração de Cristo.

E foi exatamente isso que Jesus tornou possível.

Ao assumir a nossa humanidade, Cristo abraçou toda a fragilidade humana — exceto o pecado — e, pela Cruz e Ressurreição, abriu para nós um caminho novo.

Nele, a nossa pobreza pode ser transformada. No fogo do Seu amor, tudo pode ser recriado.

Onde Deus nos santifica?

Na escola da vida. É no ordinário da existência que Deus realiza sua obra.

  • Quando acolhemos pequenas irritações com paciência.
  • Quando respondemos com mansidão a quem nos fere.
  • Quando escolhemos o louvor em vez da reclamação.
  • Quando abrimos mão do conforto para socorrer um irmão.
  • Quando permanecemos fiéis no escondimento.

A santidade se constrói, muitas vezes, longe dos aplausos.

Santa Teresa de Lisieux compreendeu isso profundamente. Sua Pequena Via nos ensina que não são necessariamente as grandes obras que nos santificam, mas o grande amor colocado nas pequenas coisas.

Como ela mesma dizia:

“A santidade não consiste nesta ou naquela prática, mas numa disposição do coração.”

O caminho é feito de quedas e recomeços

Mas esse caminho não é linear.

A vida espiritual não é uma linha reta.

Rafael Llano Cifuentes a descrevia como:

“Uma curva sinuosa, ascendente e descendente, feita de urgências animosas e lentidões, subidas e descidas… e recomeços vigorosos.”

E isso é verdade.

No caminho haverá quedas. Falharemos muitas vezes. Haverá dias de luz e noites densas. Mas Deus, rico em misericórdia, nunca se afasta.

Ele nos concede sempre a possibilidade de recomeçar, sobretudo no sacramento da Reconciliação.

Sua mão permanece estendida. Sempre!

Como dizia São João Paulo II:

“Não tenhais medo. Abri, antes, escancarai as portas a Cristo.”

Até mesmo as nossas quedas podem se tornar lugar de encontro com Deus. Aquilo que parece obstáculo pode tornar-se ponte.

O Kintsugi da graça

Talvez a santidade se pareça muito com a arte japonesa do Kintsugi.

Quando um vaso se quebra, o artesão não esconde suas rachaduras nem o descarta como inútil. Ele recolhe cada fragmento e o reconstrói com ouro, fazendo das feridas parte da nova beleza.

O vaso restaurado não volta a ser o que era. Torna-se mais precioso.

Assim é Deus conosco.

A santidade não consiste em nunca ter se quebrado. Consiste em permitir que Deus recolha nossos pedaços e una nossas feridas com o ouro da Sua graça. Aquilo que parecia fracasso pode tornar-se glória.

São João da Cruz dizia:

“Onde não há amor, põe amor, e encontrarás amor.”

Esse é o segredo.

  • Se sou egoísta, posso amar.
  • Se sou impaciente, posso recomeçar.
  • Se sou fraco, posso me abandonar.
  • Se sou ferido, posso me deixar curar.

A santidade é para todos

A santidade não é a perfeição de um vaso intacto. É a beleza de um coração reconstruído por Deus.

E ela não é para alguns. Ela é para todos.

Como insiste Papa Francisco:

“Todos, todos, todos!”

  • Para os fortes e para os fracos.
  • Para os que avançam e para os que tropeçam.
  • Para os que caem, mas escolhem levantar-se.

Pensemos também no testemunho de Clare Crockett.

Ela tinha sonhos humanos, vaidades, desejos de fama. Era frágil como qualquer um de nós. Mas, quando encontrou Cristo, deixou-se transformar radicalmente. Sua santidade não nasceu de uma perfeição natural, mas de um sim cotidiano, custoso e concreto.

E talvez seja exatamente isso.

Como recordava Papa Leão XIV:

“Permaneçamos unidos a Cristo em tudo: no que fazemos e no que nos acontece diariamente. Então a santidade, procurada em vão com esforços isolados, revelar-se-á pelo que é: correspondência à graça que nos precede, sustenta e transfigura.”

No fim, a santidade não é a vitória dos fortes. É a obra de Deus em corações que se deixam amar.


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