O ano era 2015. Janeiro, precisamente. O grupo estava reunido para viver o feliz momento do Santo Padrinho do Ano. No pensamento desejava São Francisco, São José, Santa Teresinha… sei lá, “alguém” legal. Tirei o papelzinho, li o nome e silenciei. Talvez um pouco frustrada por não ser nenhum daqueles santos que eu tanto queria. Quando todos do grupo terminaram de tirar os papeizinhos da cesta, cada um começou a pronunciar o nome do seu santo em alta voz. Quando chegou minha vez, disse: “São João da Cruz”. Todos me olhavam e alguns disseram aquela expressão, que pode ser usada de diversas formas e apresenta vários significados de acordo com a intensidade que é dita, mas que, ao mesmo tempo, diz tudo: “Eeeeeeita!”. Eita! Eu não sabia a aventura em que estava me metendo e uma curiosidade inquietante de saber quem era o meu novo padrinho tomou conta de mim.
Na mesma semana ganhei um livro dos Cânticos Espirituais de São João da Cruz e iniciei a bendita leitura. Lendo, descobri o motivo de tão expressivo “eita” daqueles que me cercavam. A medida que lia descobria a beleza e a profundidade de João (perceba a intimidade, caro leitor). Ele foi tornando-se um bom amigo, que diante de tantas lutas era um consolo para minha alma. A cada mergulho nos seus cânticos era como, se misteriosamente, fosse introduzida no coração daquele Santo, como se Deus me permitisse sentir o que João da Cruz sentia e isso não foi tão fácil assim.
João é conhecido pela “noite escura”, aquele momento onde Deus parece não estar, silencioso e doloroso, mas também purificador e que leva ao amadurecimento. Na época, minha vida estava uma loucura: ingresso no vocacional, mudança de ministério, concluía a faculdade, mudava de emprego… e em meio ao caos, as incertezas e abandono, João esteve presente como um consolo, uma calmaria em meio ao mar agitado e uma certeza de que, em algum momento, veria a luz.
São João da Cruz me ensinou a docilidade, a lidar com as demoras de Deus, a ver a beleza e o sentido das esperas, a deixar-me purificar e moldar pelo Amor. Mas, sem dúvidas, o mais belo que aprendi de João foi a vida de oração. João me educou, guiou, orientou intensamente na perseverança e na importância da vida de oração. Com ele aprendi a mostrar minha verdade a Deus, mesmo que Ele já saiba de tudo. E a medida que avançava em tão belo mistério, mais desejava, como João da Cruz, a ser ferida de Amor. E quão ferida fui naquele ano.
Acabou 2015. Voltamos a viver o momento dos Santos Padrinhos. No meu pensamento a mesma frase repetidamente: “João de novo, João de novo”. Não foi João, mas as marcas, os laços feitos com o santo carmelita não se desfazem. Até hoje São João da Cruz é um dos meus melhores amigos, a quem devo gratidão por me ensinar a amar, a quem sei que posso contar em meio as dores, as noites escuras que amedrontam, mas que purificam, a quem peço socorro em meio a aridez que tantas vezes nos cercam na vida de oração.
Há um fato que ia esquecendo de contar. O livro que citei no início, dos Cânticos Espirituais, eram comentados por Frei Patrício Sciadini, OCD. Os comentários do Frei foram essenciais para entender e aprofundar tal amizade. Em setembro deste ano, durante a Convenção Shalom, onde a Comunidade celebrava seus 35 anos de fundação, Frei Patrício esteve presente e, por pura providência, tive a honra de entrevistá-lo. Antes de começar, fiquei um pouco ao lado aguardando o Frei ficar pronto para a entrevista. De repente, para minha total surpresa, ele voltou-se para mim e me deu um longo e forte abraço. O sentimento foi instantâneo: São João da Cruz me abraçava também naquele momento. Após a entrevista, um quanto tímida, disse ao Frei: “Obrigada por me ensinar a amar a João da Cruz”. Frei Patrício, espontâneo, deu-me um outro abraço, olhou-me nos olhos e se foi. Ele não me disse nada, mas naqueles abraços senti o carinho do amigo de Segóvia, que sei com plena convicção, estará sempre presente.
São João da Cruz, rogai por nós!
