Por meio de Jesus Cristo, que foi ungido pelo Pai e constituído como Sacerdote, Profeta e Rei, todos os cristãos são chamados a participar dessas funções, assumindo responsabilidades de serviço e missão, segundo a forma e estado de vida de cada um: “Para o cristão, reinar é servir, particularmente nos pobres e nos sofredores, nos quais a Igreja reconhece a imagem de seu Fundador pobre e sofredor. O povo de Deus realiza sua dignidade régia vivendo em conformidade com esta vocação de servir com Cristo” (CIC, §786).
Porém, há casos em que esse serviço a Cristo Rei se dá por pessoas que foram constituídas também como reis sobre essa terra. Isso aconteceu com São Luís IX, possivelmente o maior monarca de toda a história, que por meio de seu seguimento fiel a Jesus, realizou sua vocação de rei, esposo e pai de forma admirável.
Luís nasceu na comuna francesa de Poissy, nos arredores de Paris, por volta do ano de 1214 e casou-se com Margarida de Provença em 1234, com a qual teve onze filhos. Reinou sobre a França por quarenta e três anos, de 1226 a 1270, décadas que se desenharam como um período de grande ascensão cultural e religiosa daquele reino, o que tornou Paris, na época, a cidade mais prestigiada do cristianismo no Ocidente. Dentre as figuras importantes que frequentavam o seu castelo, destacamos São Boaventura e Santo Tomás de Aquino.
No geral, os regimes monárquicos possuem valores morais e princípios universais que devem nortear os seus governantes, dentre estes: o respeito irrestrito à dignidade humana, o bem comum, a solidariedade e a subsidiariedade. Todavia, no reinado de São Luís, a observância desses valores ocorreram de forma extraordinária, exatamente porque suas ações sempre foram potencializadas por seu amor incondicional a Jesus Cristo. Assim, a fé de Luís encarnou-se em seu serviço aos súditos, através de sua benevolência para com os mais pobres e necessitados do reino, bem como, pela forma justa e piedosa como conduziu a França nas quatro décadas de seu governo.
Além de proporcionar pão aos famintos, o rei também se preocupava com outro tipo de pobreza: a miséria espiritual. Ele deu a todo o povo acesso aos sacramentos e sempre buscava meios de aproximar seus súditos de Deus. Dentre suas obras, estão a fundação de diversos hospitais e mosteiros, a abertura da Universidade de Sorbonne, o acabamento da Catedral de Notre-Dame e a construção do Santuário de Saint-Chapelle, lugar que passaria a abrigar as relíquias da coroa de espinhos e da cruz de Cristo, que São Luís adquirira do imperador Constantino.
Durante o governo, Luís se preocupou em construir um reinado de paz e acabar com os conflitos que envolviam a França, especialmente em relação à Inglaterra, inclusive, tentou participar por duas vezes das Cruzadas, pois desejava evangelizar o sultão de Túnis e convertê-lo ao catolicismo, porém, na primeira vez, no ano de 1248, acabou preso e, na segunda tentativa, faleceu de escorbuto durante a viagem, após tomar a cidade de Cartago, em 25 de agosto de 1270. Seu corpo foi depositado sobre um leito de cinzas, em sinal da humildade com a qual viveu por toda a sua vida.
O processo de canonização foi iniciado dois anos após a sua morte, motivado pelos inúmeros milagres acontecidos aos fiéis que iam visitar o seu túmulo. Ele foi canonizado em 1297, vinte e cinco anos depois, pelo Papa Bonifácio VIII, tendo se tornado um dos primeiros leigos canonizados da história da Igreja. Henri Daniel-Rops, historiador francês, disse de São Luís IX: “Nele culminam e se realizam todas as virtudes que mil e duzentos anos de cristianismo fizeram germinar no homem”.
Para encerrar esta matéria, disponibilizamos a impressionante carta deixada por São Luís IX a seu filho, que veio a se tornar o seu sucessor, sob o título de Felipe III, cujo teor é digno de um monarca que verdadeiramente aprendeu de Jesus Cristo, Rei e Senhor do Universo, que reinar é servir:
“Filho dileto, começo por querer ensinar-te a amar o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração e com todas as tuas forças, pois sem isto não há salvação.
Filho, deves evitar tudo quanto sabes desagradar a Deus, quer dizer, todo pecado mortal, de tal forma que prefiras ser atormentado por toda sorte de martírios a cometer um pecado mortal. Ademais, se o Senhor permitir que te advenha alguma tribulação, deves suportá-la com serenidade e ação de graças. Considera suceder tal coisa em teu proveito e que talvez a tenhas merecido. Além disto, se o Senhor te conceder a prosperidade, tens de agradecer-lhe humildemente, tomando cuidado para que nesta circunstância não te tornes pior, por vanglória ou outro modo qualquer, porque não deves ir contra Deus ou ofendê-lo, valendo-te dos Seus dons.
Ouve com boa disposição e piedade o ofício da Igreja e enquanto estiveres no templo, cuides de não vaguear os olhos ao redor, de não falar sem necessidade; mas roga ao Senhor devotamente, quer pelos lábios, quer pela meditação do coração.
Guarda o coração compassivo para com os pobres, infelizes e aflitos, e quando puderes, auxilia-os e consola-os. Por todos os benefícios que te foram dados por Deus, rende-lhe graças para te tornares digno de receber maiores. Em relação a teus súditos, sê justo até o extremo da justiça, sem te desviares nem para a direita nem para a esquerda; põe-te sempre de preferência da parte do pobre mais do que do rico, até estares bem certo da verdade. Procura com empenho que todos os teus súditos sejam protegidos pela justiça e pela paz, principalmente as pessoas eclesiásticas e religiosas. Sê dedicado e obediente à nossa mãe, a Igreja Romana, e ao Sumo Pontífice como pai espiritual. Esforça-te por remover de teu país todo pecado, sobretudo o de blasfêmia e a heresia.
Ó filho muito amado, dou-te enfim toda a bênção que um pai pode dar ao filho; e toda a Trindade e todos os santos te guardem do mal. Que o Senhor te conceda a graça de fazer sua vontade de forma a ser servido e honrado por ti. E assim, depois desta vida, iremos juntos vê-lo, amá-lo e louvá-lo sem fim. Amém“.
São Luís IX, rogai por nós!
