Formação

São Paulo, o grande Escritor

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Rômulo dos Anjos Santos
Missionário da Com. Católica Shalom

 

Para se obter um válido conhecimento de Paulo de Tarso temosduas fontes seguras e indispensáveis. Em primeiro lugar temos as suas própriascartas, dirigidas às comunidades e, em segundo lugar, a narrativa dos Atos dosApóstolos que dedica uma parte à vida, vocação e missão do apóstolo dosgentios. Partindo dessas duas preciosas fontes constatamos que não é difícilfalar desse grande missionário de Cristo, antes de tudo por causa do evento quemarcou e transformou profundamente a sua vida pessoal: o encontro com oRessuscitado que passou pela Cruz, e em seguida, o fato que, a partir de talencontro brota toda a sua vida apostólica, que é um testemunho constante dessaexperiência.

As fontes citadas acima nos permitem delinear certamente umcurriculum vitae de Paulo. Das mesmas são manifestas as suas grandes obras,fundações de comunidades, viagens apostólicas, doutrina autêntica, etc.Entretanto, não é fácil definir quem é este extraordinário personagem que,depois de Cristo, talvez seja o personagem mais conhecido do Novo Testamento.

Se perguntássemos sobre o que mais caracteriza a vida dePaulo, bastar-nos-iam as suas próprias palavras para responder: “fuiconquistado por Cristo” (Fl 3,12). De fato, ele é um homem conquistado,seduzido e ao mesmo tempo apaixonado por Cristo. Desta experiência pessoal,Cristo passa a ser o centro e a razão da sua existência (Cf. Fl 3,7-8).Partindo da vida ativa desse apóstolo podemos penetrar na sua vida interior,pois tudo o que realizou não foi um ativismo, mas transbordamento da sua vidade experiência com o Ressuscitado.

Diante dessa breve introdução, podemos perceber que não ésimples dar uma única definição a esse apóstolo, teólogo, missionário, místico,pregador, pastor, escritor (…).

 

Atividade biográfica de Paulo

Vamos refletir sobre esta dimensão tão importante da vidadesse grande missionário. Antes mesmo de falar de um “corpus” das cartaspaulinas, faz-se necessário notificar as viagens missionárias de Paulo, pois énessas ocasiões que, por meio do anúncio da Pessoa e da Obra de Cristo, elefunda comunidades cristãs. Nas suas viagens ele era atento aos importantescentros urbanos da época, principalmente aqueles que ainda não conheciam aPessoa de Jesus Cristo. Por meio do anúncio cheio de parresia ele sempre formavaum povo (comunidade), confiava a direção desta a um dirigente e acompanhava avida das comunidades por meio de visitas pastorais ou correspondências. Ele étambém um pastor que deseja manter e aprofundar o vínculo de comunhão com essascomunidades e assim escreve-lhes as sua cartas, para anunciar a Palavra de Deus(Cf. ITs 1-8; 2,13).

Seguindo o exemplo do Bom Pastor, Jesus Cristo, esse fieldiscípulo tem para com as ovelhas uma atitude de grande zelo e solicitude (Cf.ITs 2,8; 3,1-2). Desta forma, mesmo em prisão ele se preocupa e se correspondecom as comunidades, como é o caso das cartas dirigidas aos Filipenses,Efésios, Colossenses, Filêmon e asegunda carta a Timóteo, por isso essas são chamadas “epístolas do cativeiro”.Por cada comunidade Paulo se doa completamente e por elas ele sofre, a fim deque todos cheguem ao conhecimento de Cristo, única salvação para a vida dohomem. É neste contexto que surgem os Escritos Paulinos.

É interessante notar que já no final do século I, temos um“corpus” de cartas paulinas, pois na segunda carta de Pedro se fala das mesmas:“Reconhecei que a longa paciência de nosso Senhor vos é salutar, como tambémvosso caríssimo irmão Paulo vos escreveu, segundo o dom de sabedoria que lhefoi dado. É o que ele faz em todas as suas cartas, nas quais fala nestesassuntos. Nelas há algumas passagens difíceis de entender, cujos sentidos osespíritos ignorantes ou pouco fortalecidos deturpam, para a sua própria ruína,como o fazem também com as demais Escrituras” (Cf. IIPd 3,15-16).

 

Ponto de vista histórico

Considerando o ponto de vista histórico, as cartas de Pauloinauguram os escritos do Novo Testamento. Através das mesmas temos uma importante passagem, ou seja, da pregaçãooral que chegava a um determinado número de pessoas ao anúncio feito por meiode um escrito. Aqui se tem a vantagem de atingir um número maior de pessoas. Defato graças às suas cartas podemos conhecer realidades próprias da vidaconcreta das primeiras comunidades cristãs, obter notícias sobre a Igreja primitiva,e por fim conhecer a mensagem de Paulo que chega até hoje a cada cristão deforma fiel e autêntica.

Dentre todos os escritos do Novo Testamento – 27 no total -encontramos 21 que são escritos em forma de cartas. Desta herançaimportantíssima há treze cartas que são atribuídas a Paulo. Quanto ao problemasobre a autenticidade, é verdade que nem todos os exegetas são unânimes ematribuir à autoridade de Paulo todas elas, mas não podemos negar que osescritos atribuídos ao Apóstolo possuem uma característica única.

 

Divisão das cartas

Podemos assim subdividir as cartas paulinas : as setegrandes cartas: 1ª Tessalonicenses; 1ª e 2ª Coríntios; Gálatas; Romanos;Filipenses e Filêmon. Estas são consideradas de forma unânime pelos estudiososcomo de fato escritas pessoalmente por Paulo, pois referem o timbre da sua voz. Com relação às outras cartas as opiniões divergem muito. De modo, deve-selevar em conta que na 2ª Tessalonicenses retorna a temática da escatologia, quese encontra na 1ª Tessalonicenses, e aqui vemos uma unidade de pensamento. Emseguida temos as cartas “eclesiais”: Colossenses e Efésios e, por fim, ascartas “pastorais”: 1ª e 2ª Timóteo e Tito. Com relação à epístola aos Hebreus,muitas vezes considerada de autoria paulina desde o século II, a exegesecrítica contemporânea confirma a não-paternidade paulina, afinal se trata de umdiscurso catequético e não de uma carta propriamente dita.

É preciso ir além da questão da autenticidade, pois o quemais interessa é que existe um caráter particular entre as cartas que dá a elasum valor original, e o valor teológico contido em cada uma delas (tratam deproblemas referentes à vida cristã, de soluções, de ensinamentos doutrinais, deindicações para as comunidades, etc.).

Enfim, as cartas de São Paulo, mesmo que escritas a umapessoa particular como é o caso da carta a Filêmon, são Palavra de Deus e,assim, textos inspirados pelo Espírito Santo que se tornam normativos para todaa vida da santa Igreja de Cristo.

 

Ponto de vista teológico

Acima abordamos a dimensão do valor histórico dos escritosPaulinos, porém não poderíamos concluir esta reflexão sem considerar aqueladimensão ainda mais importante: o valor teológico contido nestes escritos, quecomo vimos e afirmamos mais uma vez, são Palavra de Deus para a vida do seupovo.

O “coração” de toda a mensagem teológica deste grandeapóstolo é o desígnio de salvação do Pai que se manifesta na Obra redentora deCristo, fazendo do homem uma nova criatura chamada à santidade.

Devemos seguir o exemplo das comunidades destinatárias dascartas paulinas que acolhiam a mensagem lendo-as (Cf. ITs 5,27) etransmitiam-nas, trocando-as entre si (Cf. Cl 4,16). De todas as formas, Paulo,“não mais” de Tarso, mas de Cristo, quis anunciá-lo ao mundo!


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