Formação

Será possível uma nova “página da vida”?

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As ondas de violência que se sucedem no Rio e em outras cidades nos provocam e nos interrogam. A proximidade do carnaval é uma grande ocasião para levar a sério o problema ou para enterrá-lo de uma vez. Entre as causas variadas e muito complexas consideremos apenas uma: o uso e o comércio das drogas.

Quantas outras pessoas devem morrer em assaltos ou overdose para ficarmos sensibilizados? Antes se dizia que a droga era dos ricos; depois virou da classe média e agora atinge a classe popular e os pobres. A droga tem a ver com o grande problema da felicidade. É usada para anular a ânsia para sentir uma espécie de entusiasmo. Como se a razão da felicidade tivesse acabado, o entusiasmo morto, as pilhas esgotadas. Como se faltasse o ar. E aí se começa a respirar ela, a branquinha; o seu ar falso e doente.

A droga usada para aumentar as performances, como se a vida em si fosse insuficiente. Isso significa que vivemos num clima onde faltam sempre mais às razões para ser cheios de entusiasmo, ativos, dinâmicos diante da realidade. E então se recorre a ela, a maga branca e terrível. Como se não fosse mais possível encontrar em nós, nas amizades, no amor, uma força para encarar a vida e os seus compromissos. Faz tempo que a Igreja católica (em 2001 foi feita uma Campanha da Fraternidade: “Vida sim, drogas não”) e as várias religiões alertam sobre esta profunda crise de sentido que esta sociedade do consumo, do mercado e do instinto alimenta. Não é apenas a fé que está em crise, é a própria razão, que sozinha se limita aos aspectos imediatos da realidade sensível sem percorrer a aventura do significado. Por isso Bento XVI afirmou na Alemanha e na Turquia que a razão técnico-científica precisa do aporte das tradições religiosas para oferecer uma esperança ao nosso tempo.

Segundo a visão bíblica hebraico-cristã a pessoa humana é o ponto mais alto da criação porque tem uma dignidade infinita, é “Imago Dei”, imagem de Deus. Nunca pode ser utilizada como um instrumento, porque o homem é filho de Deus e não é escravo de ninguém. Ele é chamado à felicidade plena e à solidariedade no relacionamento com a natureza, com os outros e com Deus. Ele é sujeito e não objeto, não é coisa; ele tem um coração feito para o infinito, que pulsa de um desejo infinito e que as coisas finitas não podem preencher de forma satisfatória. Nem as drogas; mas só um encontro, o abraço do mistério infinito, mais fascinante que as drogas.

De vez em quando ficamos assustados diante dos delitos, dos atentados e das mortes. Mas muitas vezes é apenas a sensação de um momento. Atitudes irresponsáveis de alguns artistas e homens públicos não geraram um maior senso crítico, mas apenas maior consumo.

Por exemplo, pelo pouco que sei, nunca apareceu uma novela que aborda diretamente este problema como tema central, mostrando as conseqüências imediatas e a destruição das pessoas e das famílias que a droga produz. Tantas páginas da vida são tratadas com arte e maestria; esta página não. Seria tão útil que um instrumento assim mostrasse a questão de forma atualizada, viva, não moralista e tivesse uma clara função pedagógica.

E junto aos meios de comunicação pedimos aos educadores, às autoridades públicas a coragem moral, política, o amor para alertar sobre certas leviandades e para reverter muitos lugares comuns. Por exemplo, a permissão do uso de drogas leves e o juízo duro sobre as pesadas. Ou considerar a droga como um fenômeno controlável, uma diversão apenas um pouco ousada ou um relaxamento inocente de fim de semana. Ao passo que não é isso, mas é uma besta que devora o coração da vida, que é feita de liberdade e de compromisso com a realidade. De gastar a nossa própria liberdade e o nosso entusiasmo. Mas o uso da droga revela que a realidade não tem motivações adequadas para sustentar o entusiasmo e a liberdade. Aí, com todas as críticas ao modelo neoliberal, se adora o ídolo do consumo.

Será esta a direção que artistas, políticos e educadores querem dar à sociedade para sustentar a nossa esperança? Ou não é verdade que outro mundo é possível, também neste campo. Também agora, na véspera do carnaval?

Dom Filippo Santoro
Bispo de Petrópolis


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