Formação

Série Santas Virgens Mártires: Santa Cecília

Neste primeiro episódio da série, iremos conhecer a história desta santa romana, que pode ter sido a primeira virgem mártir da história da Igreja Católica

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Na semana passada, no início da matéria de abertura desta série, recordamos uma frase de Santa Teresinha que nos ensina que Deus não infunde em nossos corações desejos irrealizáveis, portanto, mesmo aquilo que pode parecer tão distante ou até mesmo impossível à lógica humana, torna-se plenamente realizável, se assim for a vontade do Senhor. Desse modo, vamos começar os testemunhos sobre as virgens mártires da Igreja com o relato sobre a vida de Santa Cecília, exatamente no dia do seu casamento. Isso mesmo! Casamento. Você não leu errado.

Há muitas lendas a respeito da vida de Santa Cecília, que foi a primeira virgem mártir de que se tem notícia na história da Igreja, entretanto, o que se sabe ao certo é que ela era uma jovem cristã romana do século III, belíssima e de família abastada, que foi dada em casamento a um jovem pagão chamado Valeriano. 

Na noite de suas núpcias, Cecília contou ao esposo que havia se convertido ao cristianismo e que fizera um voto de castidade perpétua, decisão esta guardada pelo seu anjo da guarda. Ele respeitou a resolução de sua esposa, entretanto, disse que acreditaria somente se visse esse anjo que Cecília mencionara. Ela o respondeu que, caso se tornasse cristão, ele também poderia ver o tal mensageiro celeste.

Valeriano, por sua vez, procurou o Papa Urbano I, foi catequizado por ele e batizado, passando, assim, a abraçar a fé de um modo ativo e, mesmo sob a proibição do prefeito de Roma, Turcio Almachio, passou a enterrar os cristãos martirizados por não negarem a fé, junto com seu irmão Tibúrcio, o qual Valeriano evangelizou. 

Naquela época, os cristãos estavam sendo severamente perseguidos pelo Império Romano, portanto, enterrar dignamente os corpos dos mártires que eram abandonados nas ruas como exemplos do que acontecia a quem desobedecesse às ordens imperiais, tratava-se de uma falta grave, punida com a morte. Desse modo, Valeriano, Tibúrcio e Máximo, o oficial romano que os acompanhou até o cárcere e que, no caminho, se converteu ao cristianismo pelo testemunho dos dois irmãos, foram torturados e decapitados. 

Cecília, apesar de nunca ter consumado o seu matrimônio, era considerada oficialmente por todos como esposa de Valeriano, portanto, seria a próxima perseguida pelo prefeito. Todavia, diante do assassinato desses dois jovens romanos de classe social elevada, Almachio decidiu que seria melhor executar Cecília de um modo mais discreto, então, deu ordens para que fosse levada para sua casa e trancada em uma terma, com uma temperatura insuportável, para que fosse possível simular uma morte acidental, por asfixia. 

Entretanto, os planos de Almachio restaram frustrados, pois a jovem saiu ilesa daquele suplício, dizem, por causa da proteção de seu anjo da guarda. Por isso, o prefeito, perdendo a paciência, mandou decapitá-la. Foram desferidos três golpes de machado por um carrasco fortíssimo, mas a cabeça de Cecília não foi cortada, embora tenha sofrido um grave ferimento, que levaram-na a sofrer por três dias antes de morrer, período em que aproveitou para doar todos os seus bens aos pobres e à Igreja. 

Impossibilitada de falar nos últimos dias de sua vida, por causa dos golpes que sofreu no pescoço, Cecília utilizou os dedos para escrever sua profissão de fé no Deus Uno e Trino, ao qual consagrou sua vida de forma total, sendo-Lhe fiel até o fim. Seu martírio ocorreu por volta do ano 230. O culto a esta santa difundiu-se rapidamente, mesmo em meio às perseguições romanas, mas a festa em sua memória passou a ser celebrada apenas no ano de 545. Há registros de que seu corpo foi enterrado nas Catacumbas de São Calixto pelo próprio Papa Urbano I, auxiliado por alguns diáconos. 

Em 821, o Papa Pascoal I mandou trasladar seus restos mortais para a Basílica de Santa Cecília, no bairro romano de Trastevere. Por volta do ano de 1600, houve a exumação do seu corpo, que foi encontrado incorrupto, sendo a primeira vez que tal fenômeno fora registrado dentre os santos da Igreja Católica. Ela é, até hoje, a santa a qual foram dedicadas mais igrejas na cidade de Roma.      

Podemos aprender muitas coisas com o testemunho de Santa Cecília, todavia, o maior deles é que permanecer fiel à vontade de Deus é, sim, um desejo realizável, inclusive, diante das situações mais adversas, como a terrível perseguição que esta santa e tantos outros sofreram nos primeiros tempos da Igreja, pois a fidelidade é sempre fruto da graça divina. A nós, resta suplicar tais favores a Deus, para colaborar com a ação da Sua graça. 

Existe um antigo relato que fala a respeito do momento do casamento de Cecília com Valeriano: “enquanto os músicos tocavam e os convidados se divertiam, ela se pôs a cantar a Deus, dentro de seu coração, lhe pedindo graças especiais para preservar a sua virgindade”. Parafraseando esta bela narração, podemos dizer: enquanto o mundo nos faz tantas propostas tentadoras, ao passo que tantos perdem o sentido de suas vidas deixando-se levar por prazeres momentâneos e alegrias efêmeras, diante dos inúmeros desafios para conservar um coração puro ante os apelos de consumo hodiernos e sabendo que nossa carne é, por vezes, tão fraca, mesmo assim, nada disso nos impede de continuar o nosso canto ao Senhor, suplicando-lhe a graça da castidade e da indivisibilidade de coração. Só Deus é capaz de nos fazer resistir ao canto do mundo e conservar em nós a pureza.  

De fato, esse canto mundano é como a melodia sedutora das sereias, relatada por Homero em sua obra prima Odisséia. O personagem Ulisses, ao sair vitorioso da Guerra de Tróia, desejou retornar para a Ilha de Ítaca, onde sua esposa Penélope e seu filho Telêmaco o esperavam. Sabendo que não poderia resistir à força de atração do canto desses seres aparentemente belos, mas que estavam prontos para atrair os navegantes e os devorar, baixou as velas do barco, ajustou o percurso a ser seguido, ordenou que todos os tripulantes enchessem os ouvidos de cera e pediu que o amarrassem ao mastro do navio, enquanto o vento conduzia-os para longe da tentação. 

Este mastro salvador, para nós cristãos, é a Cruz de Cristo, lugar em que Jesus transformou toda oposição em disposição para colaborar com a graça divina, como exalta este trecho do hino das Laudes da Sexta-Feira Santa: “Árvore, inclina os teus ramos, abranda as fibras mais duras. A quem te fez germinar minora tantas torturas. Leito mais brando oferece ao Santo Rei das alturas. Só tu, ó Cruz, mereceste suster o preço do mundo e preparar para o náufrago um porto, em mar tão profundo”.

Pela intercessão de Santa Cecília, virgem e mártir, peçamos esta graça a Deus, de que nossa vida seja um canto novo, purificado por Sua graça, e de oferta agradável ao Senhor, e que este testemunho de fidelidade à vontade divina possa se tornar exemplo que arrasta uma multidão para a santidade, como Cecília o fez, à luz de Cristo, fonte de toda pureza e da castidade perfeita. 

Santa Cecília, rogai por nós!


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